Li o artigo do Jornalista Roberto Barbosa, publicado no Portal VIU!, “A revolução dos idiotas”, inspirado em pensamento do dramaturgo brasileiro, Nelson Rodrigues, e enriquecido com suas próprias observações.
O artigo me trouxe de volta à memória uma asneira de Bolsonaro que, servindo de base para nossas reflexões, perde esse status de asno e sobe alguns degraus, quando valorizado por nós. É uma sentença que retirei de CHIRALDELLI (2019, p. 165), que a envolveu em interessante análise de nossa sociedade contemporânea: uma sociedade onde tudo é imagem, diz ele, esta se faz por si mesma, sem qualquer enredo.
Uma imagem sem texto que se sustente por ela mesma, precisa ser uma imagem do que já está no imaginário, dispensando a narrativa do discurso, a narrativa racional que procura convencer pela exposição de ideias. Mas quem está interessado em discursos e ideias”, pergunta o filósofo Chiraldelli. O idiota prefere a imagem, de preferência sem legenda, a um texto!
Vamos, então, a Bolsonaro e sua sentença, que revela e amplia esse mundo dos idiotas. Numa pergunta, aparentemente engraçada, ele traz à tona o quanto as instituições sociais podem contribuir na proliferação do idiota. Quem está interessado em aluno crítico? Ouvir isso de um presidente, responsável pelas políticas públicas para uma educação, que deveria ser libertadora, crítica é de causar terror, porque se ele está de acordo com que o aluno não deva ser crítico, só o pior podemos esperar desse presidente.
A idiotice está ao alcance dos veículos de comunicação, do homem comum, de intelectuais e do mundo acadêmico.
Quem nunca foi acometido de uma idiotice? Quem nunca protagonizou uma idiotice? Quem nunca duelou com um (a) idiota? Ser ligeiramente idiota é próprio da condição humana, cabendo a cada um deixar a idiotice num nível razoável, ou se livrar dela, reconhecendo suas características, como falta de inteligência, falta de discernimento, tolice, ignorância, estupidez.
A etimologia da palavra idiota, do grego idiotes, que significa indivíduo particular, por oposição a homem do Estado, que ocupa função pública. O que não se aplica mais na atualidade. Vêm-se idiotas fora e dentro do Estado, em função pública.
O homem particular é aquele que revela uma mentalidade doméstica, que acompanha o pensamento da manada, tornando-se um idiota muito fácil e rapidamente. Já o homem público, em função de elevada responsabilidade, tem que ampliar seus horizontes e não deixar-se aprisionar pela intolerância, pela fobia do diferente, que não teme a crítica e nem o pensamento crítico do outro.
Tive um dia a pretensão de estudar Direito na FDC (Faculdade de Direito de Campos), UNIFLU, Campus I, há uns quatro anos. Desde os primeiros dias de aula já pude constatar que aquele ambiente não era acadêmico lato sensu. Como um professor universitário vai ser responsável por uma disciplina e passá-la aos alunos em forma de um entendiante ditado, durante 4 tempos ininterruptos de aula? Era uma disciplina que ganhava foro de princípio e fim do conhecimento humano, porque não permitia a interlocução, que ofuscaria o pouco brilho de que era capaz.
Paulo Freire, educador brasileiro, chamaria essa metodologia de Educação Bancária, ou seja, a educação que acredita que vai depositar algo muito importante num lugar onde antes não havia nada. O professor sabe tudo e o aluno, nada.
Fui levando, 1°, 2° períodos, certo de que a idiotização era a meta a ser alcançada. Pequenas ações podem revelar muito de um projeto maior de infantilização e ruptura com o desejo legítimo de liberdade e incentivo a turbinar o intelecto e preparar o espírito para o encontro com a sensibilidade.
Em dias de prova, quase que invariavelmente, entre os doutos catedráticos, era praticada a captura de aparelhos celulares dos alunos e enfileirados sobre uma mesa preparada para essa finalidade; uma turma com 40 alunos, a imagem de 40 celulares enfileirados era algo bizarro, uma exibição do poder da tecnologia. Coisa assustadora.
No 3° período fui expulso, num ato informal, oral de D. Inês, a Magnífica. Foi uma segunda-feira de junho, quando fui trancado numa sala, e D. Inês no comando. Porta fechada, ela anunciou que, a partir daquele momento, eu estava proibido de entrar em qualquer sala do curso de Direito, alegando, além de inadimplência, intrigas envolvendo seu nome, segundo relato de meus colegas de curso, disse ela. Uma mentira deslavada, porque colegas meus não teriam agido de forma tão desonrosa!
A queixa sobre mim partiu da responsável pelo Direito Constitucional que, ao ser chamada para debater um tema que havíamos proposto, ela alegou ignorar o assunto e que não poderia perder tempo, já que o programa da disciplina era muito extenso para uma carga horária insuficiente.
Ouvi sua alegação e lembrei-me de que D. Inês já me havia alertado para esse problema. Falei então pra professora de Direito Constitucional que D. Inês tinha falado a mesma coisa comigo, há algum tempo. Ela entendeu que eu tinha ofendido D. Inês.
Vemos em jogo, nessa fábula, a intriga promovida por uma professora, envolvendo um aluno e a reitora; mas antes, essa professora se mostrou intolerante a uma postura de curiosidade científica e crítica de um aluno. Nelson Rodrigues tem razão ou não?








