Se o barril do petróleo não voltar ao patamar mínimo de US$ 40, uma enxurrada de pedidos de falências das empresas que atuam na exploração de xisto deve inundar os EUA.
O mercado estima que mais de 70 empresas poderiam falir ainda no exercício financeiro de 2020. E se a cotação persistir no patamar de US$ 30 no próximo ano, o número de pedidos poderá aumentar para 150 ou 200 empresas.
Mas não é só o mercado de xisto que tem problemas. A ExxonMobil, uma gigante norte-americana que atua no mercado global também enfrenta um turbilhão de problemas.
A empresa viu seu rating de crédito rebaixado na quinta-feira (2) pela agência Moody’s, segundo informa reportagem da Oil Price. A classificação caiu de Aaa para Aa1, com perspectiva negativa. Não foi a única. Há duas semanas, a S&P também reduziu o rating de crédito da Exxon.
A gigante petrolífera enfrenta sérios problemas, mas eles são anteriores à pandemia e ao colapso dos preços do petróleo.
ENTENDA O CASO
No início de março deste ano, a Exxon fez uma apresentação otimista do seu plano de negócios aos investidores. O CEO Darren Woods disse que a empresa estaria “entrando neste mercado enquanto outros concorrentes se afastavam”.
Era uma tentativa de explicar que a empresa investiria agressivamente no setor de petróleo, mesmo que os preços continuassem baixos.
Um dia depois, no entanto, as negociações da OPEP+ desmoronaram e o petróleo caiu.
“A pandemia global já estava começando a devastar a Europa Ocidental e logo se espalharia pelos Estados Unidos. A dupla crise explodiu a lógica da estratégia de crescimento da Exxon”, destaca Nick Cunningham, em artigo no Oil Price.
Uma série de cortes de gastos das principais empresas de petróleo se seguiu rapidamente. A própria Exxon disse que repensaria seus planos e provavelmente anunciaria cortes de gastos, mas esperou um pouco mais do que seus concorrentes para cortar seu orçamento para 2020.
A trajetória do fluxo de caixa da Exxon “já era relativamente fraca no início deste ano, porque o investimento de capital em crescimento muito alto combinado com os preços baixos de petróleo e gás, além dos baixos [ganhos em seus segmentos de downstream e produtos químicos] resultaram em fluxo de caixa livre negativo e um substancial aumento da dívida em 2019”.
“A grande queda nos preços do petróleo e a contínua fraqueza no desempenho a jusante e de produtos químicos deixam a empresa pronta para incorrer em um fluxo de caixa livre negativo considerável, financiado com dívidas”, diz o relatório da Moody’s.
TEMPOS ESTRANHOS
As perspectivas não são boas. A agência de classificação de crédito S&P Global Platts não vê a Exxon capaz de recuperar sua classificação de crédito mais alta no médio prazo.
Até a campanha para venda de ativos não foi como o planejado, pois a empresa trabalhava para alinhar os compradores. Em 2019, a principal petroleira pretendeu vender US$ 5 bilhões em ativos, mas só conseguiu gerar US$ 3,7 bilhões em vendas.
Isso não um pequeno detalhe, já que a Exxon usa rotineiramente as vendas de ativos para cobrir a diferença de fluxo de caixa, uma fonte necessária de dinheiro para financiar seus dividendos, de acordo com o Instituto de Análise Econômica e Financeira de Energia (IEEFA).
“Na última década, a empresa cobriu um terço de sua distribuição total em dinheiro aos acionistas por meio de outras fontes que não o fluxo de caixa livre”, escreveu o IEEFA em uma análise da situação da Exxon.
“As vendas de ativos forneceram fluxos essenciais de dinheiro para compensar esse déficit”.
Em 2019, a Exxon pagou US$ 15,3 bilhões aos acionistas na forma de recompras e dividendos, mas gerou apenas US$ 5,4 bilhões em fluxo de caixa livre.
Os US$ 9,9 bilhões restantes tiveram que ser compensados de alguma forma, e a Exxon fez isso vendendo ativos e assumindo dívidas.
Mas o clima para a venda de ativos de petróleo se deteriorou. Alinhar os compradores será um desafio, e o preço dos ativos que a Exxon está tentando se livrar será notavelmente mais baixo do que a empresa esperava.
O fluxo de caixa abaixo do esperado da venda de ativos pode significar que a Exxon precisa assumir mais dívidas, especialmente porque se recusa firmemente a tocar em seus dividendos. Recentemente, o rendimento dos dividendos superou 10%, o que é considerado insustentável.
No entanto, mais empréstimos apenas acumulam mais dívidas, o que pressionaria ainda mais sua classificação de crédito. Somente em meados de março, a Exxon tomou outros US$ 8,5 bilhões em empréstimos.
A Moody’s disse que, mesmo que a empresa norte-americana, de alguma forma, acompanhe o ritmo de suas vendas planejadas de ativos, ela ainda assumirá mais dívidas até 2021.








