Jesus esteve no deserto por 40 dias, levado para lá pelo Espírito Santo, para ser tentado por Satanás/demônio, logo depois de seu Batismo, por João Batista, e pouco antes de começar seu Ministério.
Os registros dos Evangelhos segundo Mateus, Marcos e Lucas relatam essa experiência importante, quando ele é submetido a uma sequência de três tentações:
1 – Primeira tentação: Jesus, com fome, é provocado a transformar pedra em pão;
2 – Segunda tentação: O diabo ofereceu para o Senhor o domínio sobre as nações, sem a necessidade de passar pelo sofrimento da cruz. Ele mostrou a Jesus os reinos do mundo e disse: “Dar-te-ei toda esta autoridade e a glória destes reinos, porque ela me foi entregue, e a dou a quem eu quiser. Portanto, se prostrado, me adorares, toda a autoridade será tua ” (Lucas 4:6-7);
3 – Na terceira tentação: O diabo questionou novamente a confiança de Jesus em Deus. Levou Jesus ao pináculo do Templo e disse: “Se és o Filho de Deus, atira-te daqui abaixo ” (Lucas 4:9).
PROMESSAS DO PAI
Cristo confiaria nas promessas do Pai em protegê-lo? De fato, Jesus confiou tanto no Pai que recusou duvidar ou testar a sua fidelidade: “Não tentarás o Senhor, teu Deus “, disse Jesus ao demônio (Lucas 4:12).
Para a Teologia e o Cristianismo, ele venceu o pecado no deserto, venceu no seu ministério, e no triunfo na Cruz. Jesus “… foi tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado ” (Hebreus 4:15). Com sua vitória sobre o pecado, ele se qualificou para ser nosso Redentor.
Para a Filosofia, o episódio das tentações mostra uma das facetas da subjetivação do mundo, processo desenvolvido em grande parte pelo Cristianismo. No caso, trata-se de como a própria literatura cristã forneceu o modelo para o gênero literário moderno por excelência, o romance.
Diferentemente dos gêneros literários pré-modernos, o romance é a narrativa em que o enredo central nada pode mostrar, senão os dramas interiores do herói principal. Tudo o que for descritivo pode ser levado em conta, mas sem a mesma relevância do diálogo do herói consigo mesmo, explícito ou implícito. Isso deverá ser o centro das atenções. É isso o romance.
Quem nunca sentiu um “interior” que exigia ser preenchido? Esta tarefa poderá estar a cargo de nosso próprio espetáculo, ou que seja pelo espetáculo das “narrativas” dos personagens das novelas, que dialogam consigo mesmo.
Os heróis das telenovelas procuram mostrar suas dúvidas, martírios, decisões e maquinações, enfim, culpas. Enfim, focalizar os dramas interiores foi o que o Novo Testamento ensinou ao Ocidente.
MITOLOGIA GREGA
Aquiles, herói da Ilíada, uma máquina de guerra, imponente, porém com uma subjetividade muito rasa, comparado com Jesus, protótipo do herói do romance moderno, que não tem outra atividade, que revelar seus dramas interiores, e é isso, em parte, que faz da Bíblia um livro popular.
Ela sempre esteve, ao menos na versão que contém o Novo Testamento, favorecendo a subjetivação do mundo que o próprio Cristianismo ajudou a alavancar.
O Novo Testamento nunca deixa o leitor sem a participação em uma situação subjetiva, onde tudo que há para ser visto e analisado nada é senão o mundo interior desse herói, Jesus, jogado ao Destino.
Nada há de mais distante do episódio que conta a volta de Aquiles à guerra de Troia que a ida de Jesus ao deserto. Para lá ele vai ao encontro do rei do inferno, ou seja, o demônio.
Mas, como sabemos bem, o demônio nada é senão Jesus mesmo, sua consciência, que aponta para todos os êxitos que ele teria na vida, se não se decidisse por ser quem ele veio a tornar-se, o criador de uma nova doutrina. A honra e glória já não se impõem, elas competem agora com a vocação.
TRAJETÓRIA DE JESUS
Filho de um carpinteiro bem-sucedido, bonito, forte e bem falante, Jesus poderia ter mulheres, certa riqueza e bastante prestígio. Poderia, inclusive, dedicar-se às pregações nas sinagogas, como tantos outros, sem deixar a família ou a profissão.
A vida inicial de Jesus tem tudo para seguir de êxito em êxito. Aí está seu drama interior: deixar tudo isso para seguir outro tipo de vocação, a de artista criador.
Não um simples pregador a mais, não um carpinteiro de sucesso, não um jovem conquistador. Jesus deseja outra coisa para si mesmo. Quer o difícil e perigoso caminho da recriação de si mesmo, o que o levaria à criação de uma nova doutrina e uma nova cultura.
Essa é a luta de Jesus consigo mesmo no deserto. Por isso, Jesus é o primeiro herói de romance, na medida em que tem sua história contada em forma de drama interior, pois é assim mesmo sua história. Nada mais moderno que o romance da vida de Jesus, como aparece no Novo Testamento. Esse foi o primeiro e original romance.
Toda a vida de Jesus é vivida por fatos objetivos que desencadeiam vários episódios que só são interessantes quando expostos pelos seus lados subjetivos. Assim é quando Jesus pede para seu Pai Celestial “afastar o cálice”, ou quando Jesus, ele próprio, ensina aos apóstolos uma oração que permite falar ao próprio Pai e, finalmente, no episódio em que Jesus, já na Cruz, clama pelo Pai, no célebre Pai, por que me abandonaste? Esse é o seu calvário, o da exposição das dúvidas de um eu complexo, com sérias inquietações e temores.
O tempo no deserto é o tempo da luta do eu com o self (o si mesmo). É o tempo de decisão.
Jesus, como personagem, anuncia todos os personagens dos romances modernos, pois anuncia também o homem moderno.








