Albert Camus escreveu o romance A Peste, Prêmio Nobel de Literatura de 1957. O romance destaca a mudança na vida da cidade de Orã depois que ela é atingida por uma terrível peste, transmitida por ratos, que dizima sua população.
Nada mais contemporâneo! Só mudam o meio de transmissão e o vírus. Tendo sido um dos autores mais lidos do século XX, escreveu também O Estrangeiro e O Mito de Sísifo, em que, segundo muitos críticos, a ideia do absurdo da existência humana, formulada nestas obras, foi a maior contribuição de Camus para a filosofia: Camus joga com o absurdo da situação provocada pela peste para mostrar o absurdo da própria condição de existir neste mundo.
De tempos em tempos, a humanidade tem enfrentado várias pestes. É inegável a dimensão política de todas elas, que desmascaram a essência do ser humano enquanto SER/ESTAR no mundo e sua relação com o Outro: amizade, solidariedade, egoísmo, ganância, maldade, etc.
Tendo sido um dos livros mais lidos do pós-guerra, uma vez que a cidade assolada pela epidemia lembra a ocupação nazista na França durante a Segunda Guerra Mundial, A Peste é uma obra de resistência em todos os sentidos da palavra.
Narrado do ponto de vista de um médico envolvido nos esforços para conter a doença, o texto de Albert Camus ressalta a solidariedade, a solidão, a morte e outros temas fundamentais para a compreensão dos dilemas do homem moderno e da outridade.
Sendo o absurdo o ponto claro de partida das reflexões que propôs no enredo, Camus, em sua genialidade, teceu um aparato literário de forte densidade filosófica, fundamentado sem o hermetismo típico de um Jean-Paul Sartre, por exemplo, seu contemporâneo e amigo, até certo ponto.
Para quem conhece as outras obras do escritor, ler A Peste pela primeira vez é como uma aula de cuidado literário, de ritmo e criação de um mundo, de descrições viscerais de tão secas, mas ornamentadas quando se pede. O mais recomendável, todavia, é ler A Peste. Relê-la, refletir sobre o tema tão atual.
O narrador onisciente, à primeira vista, desenha em frases curtas imprimindo o tom leve, por vezes sarcástico e, ao mesmo tempo, pleno. Digo pleno pois a narração, como relato posterior à peste, parece saber exatamente o que quer passar, por quais meios e com quem.
Pontuando e exclamando claramente as diversas fases da epidemia durante as cinco partes do romance, Camus descreve desde o início do problema, com os “humanistas” desconfiados, livres em demasia para depositar fé nos flagelos, até o momento do verdadeiro caos aparecer comum a todos, quando o exílio na cidade e a separação dos entes queridos parecem se tornar permanentes, assim como a desesperança em reencontrá-los.
Construindo lentamente sua trama, o filósofo chega à futilidade que o tédio traz, à sensação de abandono que a distância forçada do tempo faz ressoar na alma, como se a peste fosse apenas aquele empurrãozinho final para chegar à beira do abismo, deixando para trás as banais máscaras de qualquer tipo de esperança, de felicidade, de fraternidade, expondo a grande mentira que assola a humanidade, imprimindo-lhe sua verdadeira face purpurinada de egoísmo e falsidade.
Das diversas personagens que cruzam o caminho de Rieux, – e há alguns com fascinantes perspectivas, como Jean Tarrou –, dois se destacam. Raymond Rambert, jornalista preso na cidade devido à praga, é um idealista obstinado em voltar para sua amada, e o padre Paneloux, figura que, assim como o padre no fim de O Estrangeiro, encarna a pobreza de espírito ético-religiosa da qual Camus ri – no caso, por meio da descrição de um sermão longo e demorado que traz uma imagem patética sobre o flagelo – sabendo que, em seu ímpeto estético, o próprio escritor conseguiu tratar melhor da metafísica do que tais figuras jamais conseguiriam na vida em carne e osso.
E hoje, diante do COVID, não se fecham os templos. A mídia é materialista e ainda mais egoísta está a humanidade. Se, nas duas figuras, enfim, Camus demonstra a maestria de, com paciência, criar dois estilos que evoluem ao longo dos sutis diálogos para uma crítica ambulante, direcionada, escancaradamente, às atitudes perpetuadas por homens como eles, com vetores tresloucados em face do absurdo que se apresentou, pergunto a todos vocês, leitores: no Brasil, microcosmo, neste momento, da peste que assola o mundo, o Estado e seus absurdos poderes não parecem escancaradamente estarem ao lado dessa mídia hipócrita e de seus pastores malafaias? E as pessoas?
De Albert Camus, em A Peste:
- Era preciso apenas começar a caminhar para a frente, nas trevas, um pouco às cegas, e tentar praticar o bem.
- O que é natural é o micróbio. O resto – a saúde, a integridade, a pureza, se quiser, é um efeito da vontade, de uma vontade de não jamais se deter. O homem direito, aquele que não infecta quase ninguém, é aquele que tem o menor número de distrações possível. E como é preciso ter vontade e atenção para nunca se ficar distraído! Sim, Rieux, é bem cansativo ser um empestado. Mas é ainda mais cansativo não querer sê-lo.








