Oh! Maria, vês, me curvo Na face do presente escuro e turvo E interrogo o porvir; Ou levantando a voz por sobre os montes, -‘Liberdade’, pergunto aos horizontes, Quando enfim hás de vir? (Castro Alves)
O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão. E Castro Alves, apesar de sua trajetória de vida meteórica (1847/1871), mas movida por muita paixão, já anunciava essa triste marca. EM SUA POÉTICA DE PÚLPITO, o seu tema por excelência foi a escravidão, razão pela qual ficou conhecido como “Poeta dos Escravos”.
O livro Os Escravos reúne poesias escritas, esparsamente, entre os anos de 1865 e 1870. Na primeira metade do século XIX, com a Independência, a configuração social do país se redefine. A burguesia, graças à intensificação das atividades comerciais, se desenha enquanto fração da classe dominante, lugar anteriormente ocupado pela aristocracia de sangue; a burocracia se organiza;
1 – os proprietários rurais ainda não perdem seu lugar na cena política e esses grupos, juntamente com os representantes do governo, constituem a elite.
2 – Como os cargos nobiliários foram extintos, o culto à aparência exterior expressava uma forma de consagração social. Segundo o Censo de 1849, a Corte contava com 205.906 habitantes, dos quais 78.855 eram escravos e 10.732 libertos.
Havia estrangeiros, vindos da metrópole para exercer cargos públicos ou fazer o “Brasil”, o que significava lançar-se à sorte como comerciantes e equivalentes; circulavam pelas ruas da cidade negros, mulatos e brancos, conferindo-lhe uma fisionomia muito misturada, calcada na grande variedade de tipos, línguas e tradições.
3 – As diretrizes dessa terra eram dadas por homens brancos racistas – e letrados –, numa sociedade em que os negros eram majoritariamente analfabetos. No Império decorativo, vencia no teatro das eleições quem manipulasse a fraude e aplicasse a violência com competência, e a fração da elite derrotada ainda era agraciada com cargos e postos.
Sobre essa realidade, Lima Barreto, em Recordações do escrivão Isaias de Caminha, faz denúncias com ironia: […] os arranjos, as gordas negociatas sob todos os disfarces, os desfalques, sobretudo a indústria política, a mais segura e a mais honesta. Sem a grande indústria, sem a grande agriCultura, com o grosso do comércio na mãos dos estrangeiros, cada um de nós sentindo-se solicitado por um ferver de desejos caros e satisfações opulentas, começou a imaginar meios de fazer dinheiro à margem do código e a detestar os detentores do poder que tinham a feérica vara legal de fornecê-lo a rodo.
Os títulos imobiliários foram distribuídos em maior quantidade por ocasião das leis abolicionistas de 1871, 1885 e 1888.
4 – As elites buscavam uma identificação com os grupos nativos, particularmente índios e mamelucos – era esse o tema do Indianismo –, e manifestavam “um desejo de ser brasileiro”. Porém, ignoravam no seu projeto político de nacionalidade o negro/escravo e por isso a escravidão naturalizou a violência nessa sociedade.
Violência pautada na cor, marca forte no estabelecimento das desigualdades, na delimitação de universos distintos, sociedade onde as distâncias sociais não eram nem discutidas e as cenas cotidianas de violência com os escravos pareciam não constranger. Era uma sociedade que se modelava em comportamentos tradicionais: a serenata, na qual os violeiros soltavam as vozes para reafirmar juras de amor a suas amadas e a boêmia era prática frequente.
Por constituir a “boemia” um modismo da época, a crítica literária apropriou-se do termo “geração boemia” para caracterizar o grupo de escritores que lutavam por viver somente da carreira literária e que se integraram às campanhas abolicionista e republicana.
5 – No centro da cidade do Rio de Janeiro, as pensões, os restaurantes, os quiosques, as carroças e as confeitarias baratas davam vida à cidade e favoreciam a prática da boemia. Desenrolavam-se ali, também, festas populares, como a Malhação do Judas, a Festa da Glória, o Bumba-meu-boi, dentre outras.
Vivia nesse espaço uma população humilde, periférica e marginal, que, no final do século, seria expulsa para os subúrbios da cidade, destruindo-se “velhos hábitos coloniais”.
Para o Império, a imagem da nação estava indissoluvelmente ligada à da redenção do país. Instaura-se um imaginário civilizador, com base nos grandes centros europeus, que vai imprimir sua maior marca no final do século e no começo do século XX.
O Império parecia querer se diferenciar das repúblicas da América Latina, buscando assemelhar-se aos modelos europeus de civilização e modernidade. Reforçando esse imaginário civilizador, muito contribuía a imagem do Imperador como frequentador de exposições científicas no exterior e participante de reuniões sobre ciência dentro e fora do território brasileiro.
6 – A educação era feita por professores régios e aqueles que desejavam seguir os estudos superiores tinham que ir para Coimbra, situação que se altera a partir da criação dos primeiros cursos de Direito, em São Paulo e Olinda, a partir de 1827.
Esses cursos jurídicos destacavam sua atenção, prioritariamente, para a formação de pessoas que iriam dirigir as instituições: a elite formada por advogados se confundia com a burocracia do Estado.
Era uma elite incrustada nos cargos burocráticos e governamentais. Com essa prática, buscava o Estado Imperial contribuir para a unidade e estabilidade da ex-colônia. Enquanto isso, a maior parte da população era analfabeta. Tal elite forja um projeto político centrado no progresso, na civilização do país e o caminho para esse progresso estava na agricultura e na escravidão. Logo, agricultura e escravidão passaram a constituir o esteio para a civilização.
E, nesse projeto, o Império reconhecia ser tarefa sua fazer com que todo brasileiro, fosse ele morador do campo ou da cidade, se reconhecesse pertencente a uma nação. Todos estavam dentro do mesmo território, o território nacional, onde as pessoas eram perfilhadas pelo Império e deveriam reconhecer-se irmanadas numa nação que se construía, nação esta também periférica em relação aos europeus.
Diante dessa compreensão, era preciso construir uma história que naturalizasse essa associação, ou seja, transformar o território em nação. Com essa perspectiva, o Império cria os Institutos Históricos e Geográficos, os quais buscavam recriar o passado do país de forma homogênea e consolidar as imagens de seus mitos fundadores, com vistas a torná-lo uma nação, ou seja, uma entidade histórica e geográfica, e a interpretação de seu passado e de sua natureza eram imprescindíveis para entendê-la. (Continua na próxima semana)








