“O sertanejo é, antes de tudo, um forte.” Essa é uma das frases mais famosas da literatura brasileira e foi dita por Euclides da Cunha na obra Os Sertões, publicada em 1902. A Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP 2019 será realizada de 10 a 14 de julho e este ano presta homenagem ao escritor Euclides da Cunha e recebe 33 autores brasileiros e estrangeiros.
A programação da FLIP 2019 foi anunciada na manhã do dia 15/06, quarta-feira. Walnice Nogueira Galvão, especialista na obra do autor homenageado, fará a conferência de abertura, que recebeu o título de CANUDOS. Aliás os títulos das mesas fazem referência ao livro Os Sertões e seus cenários.
Entre os vários convidados estão o cineasta português Miguel Gomes, que prepara o filme Selvageria, uma adaptação de Os Sertões; a escritora e cordelista Jarid Arraes; o historiador José Murilo de Carvalho; o dramaturgo Zé Celso Martinez Corrêa; a cantora Adriana Calcanhoto e o quadrinista Marcelo D’Salete entre outros não menos importantes.
A OBRA
O autor, Euclides da Cunha, forma, juntamente com Graça Aranha e Lima Barreto, os três pilares da Literatura Brasileira pré-modernista e sua obra Os Sertões é obra de fôlego e canônica na historiografia da literatura brasileira.
Eis alguns pontos muito importantes da obra: O pré-modernismo no Brasil teve início com uma obra que começou como uma matéria para um jornal sobre a Guerra de Canudos e terminou como uma obra-prima sobre o ser humano que vive no interior do país em plena miséria e luta contra o poder instituído e feroz.
O autor descreve com detalhes como as tropas do governo decapitaram o líder religioso Antônio Conselheiro e foram impiedosos com a população. As influências de Cunha foram muitas e isso ajudará a entender a sua obra.
Segundo estudiosos, ele era fã de Victor Hugo e de seus romances sociais, como O Corcunda de Notre Dame e Os Miseráveis. Ao mesmo tempo, o escritor brasileiro era um grande adepto das leituras de Sociologia, incluindo autores como Marx e Durkheim.
Sua obra prima traz uma interdisciplinaridade, pois tem além de estrutura de romance, traz um tratado científico e antropológico, ou seja, a obra consegue unir disciplinas e gêneros diferentes, inovando o pré-modernismo.
A presença do romance fica evidente na frase sobre o sertanejo que usamos como exemplo no início deste texto: o autor descreve o sertanejo como se ele fosse um herói de um romance. Mas no começo não foi bem assim.
Vejamos: quando Cunha os vê pela primeira vez acha que eles são um povo fraco, cansado e pobre. Todavia, quando eles montam em seus cavalos e vão para as vaquejadas ou para a luta, se tornam outras pessoas, parecem soldados dignos de um romance de cavalaria, deslocando-se para a outridade. Talvez por isso, o escritor usa uma antítese para explicar o sertanejo, porque ele é um paradoxo: Hércules-Quasímodo. Simultaneamente, ele é extremamente forte como o personagem da mitologia grega, mas ele também é fraco e debilitado como o corcunda que mora em Notre Dame no romance de Victor Hugo. A forma como o autor vê o sertanejo é contraditória (por isso muitos críticos usam o barroco para caracterizar a obra).
Ele tem uma forte influência do naturalismo, uma vez que é determinista: acredita que o ser humano é fruto do meio em que vive. Ele não culpa a degradação do indivíduo em meio à miséria que assolava o sertão nordestino. Nesse cenário, ele antecipa uma temática muito importante da geração do 2º. modernismo: os romances regionais.
Dividido em três partes, Os Sertões trata da Terra, momento em que Cunha faz um relato determinista, um tratado científico, ao analisar o clima, o solo e a natureza presentes no cenário sertanejo. Até o relevo e a vegetação são investigados para ver como podem influenciar a vida das pessoas que ali habitam: “E o sertão é um vale fértil. É um pomar vastíssimo, sem dono. Depois tudo isto se acaba. Voltam os dias torturantes; a atmosfera asfixiadora; o empedramento do solo; a nudez da flora; e nas ocasiões em que os estios se ligam sem a intermitência das chuvas – o espasmo assombrador da seca.”
Na segunda parte, a obra trata do homem e são apresentados ao leitor o sertanejo, seus hábitos e cultura. É um rico estudo antropológico. Além disso, há a apresentação do líder messiânico Antônio Conselheiro, que reuniu tantas pessoas em uma comunidade autossuficiente, Belo Monte, atraindo a ira do governo brasileiro.
A narrativa documental quer nos explicar a gênese do fenômeno desse movimento religioso. O sertanejo precisava de apoio em algo, mas ele lutou para defender sua terra, seu direito. Ele lutou por igualdade e justiça: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempenho, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.”
Na terceira parte, o enredo trata da luta. É o momento em que Cunha faz um retrato fiel dos embates entre as tropas oficiais e o povo guerreiro de Belo Monte. Apesar de terem resistido bastante, acabam sendo destruídos pela impiedade do governo. Há muita morte e destruição.
Sua linguagem foi classificada como um barroco científico por alguns críticos, pois ao mesmo tempo que ele utiliza a ciência para amparar seus escritos, ele escreve de uma forma muito rebuscada e ornamentada, dando ênfase à argumentação usando o paradoxo, o oxímoro e a antítese, que são características do movimento barroco: “Era assombroso… Como um manequim terrivelmente lúgubre, o cadáver desaprumado, braços e pernas pendidos, oscilando à feição do vento no galho flexível e vergado, aparecia nos ermos feito uma visão demoníaca.”
Na realidade, Cunha buscava um realismo absoluto no que descrevia. Desejava uma precisão científica. Aparentemente, não há personagens ficcionais. Mas sabe-se, hoje, que tudo que tenta descrever a realidade, mesmo de modo a documenta-la, acaba se torando ficção.
Em sua singularidade está sua importância: com a fusão de tantos gêneros, com a questão da linguagem muito culta e trabalhada, é feito um verdadeiro estudo sobre o povo brasileiro e sobre as lutas sociais em face da desigualdade social e do descaso dos governantes. Concluo: entender a luta de Canudos ajuda a compreender a luta de diversos povos que lutam até hoje por moradia e outros direitos humanos que deveriam ser garantidos pelo próprio governo? Que governo? Esse aí!!!!
A FLIP 2019 mostra a que veio.








