Uma reflexão sobre o teatro de Hilda Hilst e os dias atuais |
Qualquer portador de ideias novas em qualquer tempo, com uma mensagem que não convenha ao estabelecido e posto como lei, alguém cuja eloquência pode abalar estruturas de poder autoritárias será sempre destruído: “A gente deve matar aqueles que nos confundem”[1]. Cabe bem, aqui, estabelecidas as semelhanças de situação, citar o que João das Neves[2] disse da contribuição de Brecht ao teatro brasileiro:
A revelação de Brecht para nós, as discussões sobre Brecht naqueles momentos, foram extremamente ricas porque revelaram que o teatro político tinha outros caminhos que não apenas o agit-pop (…) Brecht nos mostrou que o teatro, por ser político, não excluía a possibilidade de aprofundamento, quer nos sentimentos, quer no mecanismo da existência do homem em sociedade.
A citação acima se presta a uma reflexão bastante reveladora do que é o texto teatral de Hilda Hilst, em análise, na sua essência, nos seus silêncios, na construção dessa parábola tão contemporânea. Passando do particular para o geral, da personagem ao mito, Hilda usa um procedimento diverso: ela parte da ideia e procura dar-lhe vida cênica, vida política. A personagem nascida na criação dramática, o poeta, silenciado pela máscara (artifício) da morte, se torna artefato literário e renova o conceito tradicional de personagem (o que é, certamente, uma das propostas do teatro épico de Brecht), condicionando os indivíduos a uma ficção que contém uma indagação de profundidade e uma linguagem de relevante teor literário que, muitas vezes, não se encontra com frequência nos diálogos de pura origem realista. O texto nos é apresentado em uma linguagem límpida, coloquial, como construído segundo os melhores propósitos de aprofundar as relações do homem em sociedade.
As personagens, principalmente o verdugo, são sublinhadas por uma conduta de quilate impecável, considerando seu lugar e sua função no grupo social. Formam dois grupos que se conflitam desde a primeira cena: pai/filho X mãe/filha. São pessoas comuns, simples, vivendo o seu dia de todos os dias, remidos nas suas carências mais imediatas: estão preocupadas com ganhar mais dinheiro, com a
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[1] Idem, p. 33.
[2] NEVES, João das. Apud ELLIS, Lorena B. El legado de Brecht no Brasil. Revista Tramoya. Caderno de Teatro. Vera Cruz : Universidad Veracruzana, julho-dez, 40/41, p. 68.
permanência do pai no emprego, com o vindouro casamento da filha. Há, todavia, um contraste bastante acentuado entre este quadro e a existência perturbadora daquele homem, incomum, de que falam, de um condenado à morte a quem o verdugo não quer matar. Este estranhamento traz o primeiro impacto dramático do texto de Hilst. Este contraste, brechtianamente falando, é muito útil para se jogar em cena, pois, escrito para o teatro, o texto hilstiano se acerta nos gestos, nas pausas, nas rubricas e na sequência das cenas. A existência desse homem, as palavras e as ações que lhe são atribuídas formatam o motivo do conflito que causa silêncio, indecisão, ambição, a linguagem do olhar e diversas inquietações. Tudo imortalizado pela figura do que o homem representa e de sua transmutação no verdugo (pois que esse homem é uma ideia, uma personificação de muitas ideias políticas e situações impostas pelo autoritarismo da censura) e funciona como a ação crescente (a de falar, alertar e incitar) que levará ao desenlace trágico, implacável e original. Revela-se gradualmente um transcendente: não mais uma substância nem a simples ausência de som. Mas um modo da ação (modo silêncio); aparecendo como estilo; profundidade; aura; dimensão; verticalidade e densidade. Esse silêncio implica modos de percepção e temporalidade próprios, descritos aqui a partir das noções de Gelassenheit (Heidegger) e Awareness (Gestalt) e estabelecendo conexões com as noções de Invisível em Merleau-Ponty e de Nada no Zen-budismo. A perícia com que a autora manipula suas personagens e arma o conflito no texto, a qualidade evidente de modo mais vivo no segundo ato, em que põe em cena a multidão caracterizada por não formar uma massa uniforme, mas por se distinguir pelas diferenças nas suas posições e falas, provoca uma série de sucessivas estranhezas, distanciamentos brechtianos, até o que chamaríamos de estranheza mais peculiar – o elemento desencadeador do conflito – é a existência de um homem de quem só se vê a figura encapuzada, de quem não se chega a ouvir uma fala, e que paira como uma interrogação sobre os comportamentos sejam de cunho racional ou emocional. A criação de uma personagem como essa é que debate a realidade num movimento e numa discussão dialéticos permanentes na peça, sendo esta a postura necessária, segundo a autora, para que se crie uma nova linguagem – uma outra sociedade, um outro indivíduo. Um exemplo de recepção produtiva do teatro brechtiano:
Brecht é fundamental porque o teatro dialético, um teatro que discute a realidade em processo, reflete a necessidade de mudanças, de transformação da sociedade. (…) Brecht será sempre imortal, quer enquanto existam os problemas que seu teatro aborda, quer depois que estes problemas tenham sido superados, porque a construção de uma nova sociedade exige uma constante discussão e uma discussão dialética.[1]
Trata-se de um texto de intervenção que se explica na intencionalidade, na mobilização por mudanças sociais. A estranheza em O Verdugo é composta por uma indefinição histórica, por uma distância que pretende enganar o sistema dominador e perverso e também pela ação do silêncio: afinal vários códigos são usados para metaforizar uma situação política extremamente grave, que encontra neste texto dramatúrgico de Hilst a intenção de construir certas metáforas de combate em que o silêncio é, sem dúvida, aquilo que está por fazer explodir a voz dos silenciados. É um texto que “culturalmente” recorre aos horizontes de expectativa dos leitores, além do deleite do jogo lúdico-pragmático, da catarse, em uma sociedade esfacelada pelo medo e pela covardia, mas que pode aprender a preencher os vazios de um texto politicamente jogado na alteridade.
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[1] NEVES, João das. Apud ELLIS, Lorena B. El legado de Brecht no Brasil. Revista Tramoya. Caderno de Teatro. Vera Cruz : Universidad Veracruzana, julho-dez, 40/41, p. 69.








