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Literatura e militarismo

Deneval Siqueira Por Deneval Siqueira
21/02/2018 - 09:42
em Opinião
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Foto: EBC

Foto: EBC

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Intervenção militar no RJ mostra o lado profético das obras de Euclides da Cunha e Lima Barreto;

A Literatura lato sensu tem várias funções que podem, inclusive, estar presentes numa obra paralelamente: assim, o lúdico pode fazer par ao profético, a ânsia de imortalidade ao pragmatismo, ou os quatro presentes numa mesma escrita. O ato de ter uma função social, o pragmatismo tem como papel servir à sociedade (leitores), alertando-o para algum problema ou caos social, denunciando, polemizando e valorizando o ato político que, naturalmente, já é o papel da linguagem na literatura. Isso se faz presente em muitas obras da Literatura Brasileira.

Soldados do Exército em comunidade do RJ | Foto: EBC

Quanto a relação literatura e militarização, chamo a atenção para dois autores que exploraram essa questão, na transição do séc. XIX para o séc. XX e que foram canonizados com duas obras de suma importância para o conjunto de nossa literatura nacional: Euclides da Cunha, com Os Sertões e Lima Barreto, com Triste Fim de Policarpo Quaresma.

Ambos tratam em seus romances telúricos de intervenções militares para dizimar o Outro: Em Os Sertões, Euclides da Cunha narra/documenta a destruição pela intervenção militar da mísera Canudos, cujo líder Antônio Conselheiro ousara desafiar a República, colocando-se à margem da ordem instituída e por isso foi destruído. Isso nada mais é do que uma sinédoque do que se passa no Rio de Janeiro hoje, com a intervenção federal determinada pelo Presidente da República.

A intromissão do exército no comando do combate à violência e à segurança no Estado do Rio de Janeiro irá provocar muitas mortes, quando a função do militar do exército foi desterritorializada pelo decreto presidencial: um caso sério a pensar. Não é muito diferente, ou, talvez seja igual a outras intervenções.

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No caso de Lima Barreto, em Triste Fim de Policarpo Quaresma publicado em 1911, o romance comprova a incompetência dos políticos brasileiros através dos tempos, o que lhe dá uma atualidade surpreendente e um caráter profético ao seu autor. Clássico da literatura brasileira, o livro denuncia os males da sociedade brasileira da época (!): a burocracia das repartições públicas, o clientelismo, a bajulação, a injustiça social, o problema da terra, etc. Neste enredo surge um D. Quixote nacional, o Major Policarpo Quaresma. Visionário e patriota, o personagem encarna a luta pela grandeza do país. Serve ao exército na luta que enganosamente o torna um joguete nas mãos do exército. A obra torna-se, ao ironicamente tratar o militarismo como heroísmo, um grande clássico. Nada mais atual! CONFIRA FILME:

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Fonte: Youtube

Em Os Sertões, de Euclides da Cunha, a 3ª e última parte da narrativa documental, A Luta é uma descrição feita pelo jornalista e ser humano Euclides da Cunha, relatando as quatro expedições a Canudos, criando o retrato real só possível pela testemunha ocular da fome, da peste, da miséria, da violência e da insanidade da guerra.

Retratando minuciosamente movimento de tropas, o autor constantemente se prende à individualidade das ações e mostra casos isolados marcantes que demonstram bem o absurdo de um massacre que começou por um motivo tolo – Antônio Conselheiro reclamando um estoque de madeira não entregue – escalou para um conflito onde havia paranoia nacional pois suspeitava-se que os “monarquistas” de Canudos, liderados pelo “famigerado e bárbaro Bom Jesus Conselheiro” tinham apoio externo. CONFIRA FILME: 

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Fonte: Youtube

No final, foi apenas um massacre violento onde estavam todos errados e o lado mais fraco resistiu até o fim com seus derradeiros defensores – um velho, dois adultos e uma criança. Profecia novamente, mudando o cenário para as favelas do Rio de Janeiro? Ouso apostar que sim!

Tags: #DenevalSiqueira#IntervençãoRJArtigo
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Deneval Siqueira

Pós-Doutor e professor Titular de Teoria e História Literária Centro de Ciências Humanas e Naturais Programa de Pós-graduação em Letras - Doutorado e Mestrado em Estudos Literários da UFES

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