Crise financeira, greves e manifestações corroem popularidade de governos, fazendo ressurgir os efeitos das jornadas de junho de 2013 |
Por Roberto Barbosa
O Brasil não é mais o mesmo. A torrente desencadeada palas jornadas de junho de 2013, quando a população, de norte a sul do país, saiu às ruas por meio de organizações verticalizadas, impôs um ambiente hostil à classe política e ao status quo vigente.
Foi o momento em que a insatisfação social bateu às portas dos Legislativos, dos Palácios de governos, do Judiciário, do Ministério Público e até da imprensa afeita a manipulação da informação. Foi como se diante desses atores os manifestantes afirmassem com o dedo em riste: “Não acreditamos em vocês. Este filme é velho”.
Os reflexos de junho de 2013 ainda estão latentes e agora emergem por meio de manifestações fragmentadas. Estilhaços espalham-se por São Paulo, Paraná, dois estados em que servidores públicos acuam os governos de Geraldo Alckmin e Beto Richa, ambos do PSDB, com greves prolongadas na educação.
Os mesmos fragmentos corroem a popularidade da presidente Dilma Rousseff, que também começa a enfrentar movimentos semelhantes em Universidades Federais, algo que poderá se acentuar e ganhar mais abrangência a medida em o arrocho econômico se revelar mais devastador sobre o poder de compra da população.
A zona produtora de petróleo do país, especialmente a Bacia de Campos – um faixa eu vai do Rio de Janeiro ao Espírito Santo – que até recentemente, garantia uma zona de conforto aos prefeitos e governadores, por meio de fluxos financeiros milionários decorrentes dos repasses de royalties e participação especial, perderam a imunidade diante da insatisfação.
A crise econômica nesta região, em face da desvalorização do barril do petróleo no mercado internacional, já produziu algumas degolas. O prefeito de Quissamã, Octávio Carneiro (PP), no Norte Fluminense, que já foi um dos gestores mais populares nesta cidade de cidade de 20 mil habitantes, afastou-se do cargo por 60 dias a pretexto de fazer um tratamento de saúde, passando o bastão para o vice Nilton Pinto (PR), um homem rude, pouco zeloso com as contas públicas. Carneiro saiu no momento em que seu governo estava com apenas 13% de aprovação e nada indica que o interino vá superá-lo.
Em Rio das Ostras, o prefeito Alcebíades Sabino (PSC) administra uma queda de receitas sem precedentes e também reavalia ser disputará a reeleição. O índice de popularidade recomenda o contrário. Na cidade de Campos dos Goytacazes, na última semana, a prefeita Rosinha Garotinho enfrentou uma greve barulhenta de professores, que foi encerrada na última sexta-feira (22/05), com centenas de manifestantes tentando acampar no pátio da prefeitura.
Foi uma semana de pânico para o governo diante da maior manifestação de servidores já realizada nesta cidade nas últimas duas décadas. Campos tem uma mística. Getúlio Vargas a definiu em discurso como “espelho do Brasil”. Ali também emergiu o movimento tradicionalista, que provocou um cisma no seio da Igreja Católica no mundo, na década de 80. Portanto, trata-se de um pequeno tambor que ecoa para o país (assista vídeo|SFRJ).
Essas movimentações não fazem parte de um contexto isolado. O mundo está em crise. O Brasil está mergulhado em ambiente de crise. Portanto, é difícil passar incólume, principalmente governos em segundo mandato, como é o caso de Campos dos Goytacazes. Fato isolado, nesta situação, é conseguir se distanciar da insatisfação. É o caso, por exemplo, de Macaé, na mesma zona produtora de petróleo, onde o prefeito Dr. Aluízio, segundo recente pesquisa do Instituto GPP, detém a melhor avaliação do Estado, com índice 41,3%.
Mas é um gestor de primeiro mandato, eleito com discurso de renovação, que rompeu um ciclo de governo tradicional. Portanto, tem gordura para queimar. De resto, a crise, vai dizimando popularidades, criando zonas de confrontos e pouca gente é capaz de apostar em qualquer previsão otimista.
Na zona produtora de petróleo as esperanças se voltam para o Oriente Médio, onde Arábia Saudita, maior produtor mundial desta commodities, pode reduzir sua oferta no mercado internacional e provocar uma valorização. Seria um bote salva vidas em meio a tempestade em alto mar. Até lá, os fantasmas da jornada de 2013 continuará rondando os palácios.








