O colapso de uma das instituições financeiras com maior número de clientes do Paraguai desencadeou uma crise que chegou ao comando do país. Em meio à insatisfação popular, às cobranças por esclarecimentos e à perda de apoio político, Santiago Peña anunciou nesta quinta-feira (5) que deixará a Presidência da República.
A decisão ocorre poucos dias depois de o Banco Central paraguaio iniciar um procedimento de resolução do Ueno Bank, instituição que atendia aproximadamente 2,9 milhões de pessoas. As dificuldades financeiras do banco provocaram restrições aos serviços e levaram correntistas às ruas para exigir acesso ao dinheiro depositado.
Diante do agravamento da situação, parlamentares passaram a discutir a possibilidade de impeachment. A pressão também avançou dentro do Partido Colorado, legenda do próprio presidente.
Ao comunicar a renúncia pelas redes sociais, Peña afirmou que sua saída busca preservar a estabilidade institucional. Ele também pediu desculpas à população por possíveis falhas de sua administração.
Banco apresentou problemas graves de solvência
A situação do Ueno Bank ganhou dimensão nacional após uma intervenção do Banco Central do Paraguai, anunciada em 3 de novembro.
A autoridade monetária identificou dificuldades na estrutura financeira da instituição, incluindo um índice de solvência que teria ficado abaixo da metade do mínimo legal após ajustes contábeis.
O procedimento de resolução foi adotado para organizar os ativos do banco e estabelecer mecanismos de proteção aos depositantes.
Com a restrição de operações, milhares de clientes passaram a buscar informações sobre a recuperação de seus recursos. A insegurança financeira provocou manifestações, especialmente em Assunção, capital do país.
Relações anteriores de Peña com grupo financeiro geram questionamentos
Além das dificuldades enfrentadas pelos correntistas, a crise trouxe à tona antigas relações empresariais de Santiago Peña com o grupo associado ao Ueno Bank.
O presidente havia participado da estrutura societária da Ueno Holding, fato que passou a ser questionado por adversários políticos e setores da sociedade.
Também surgiram cobranças sobre a atuação dos órgãos responsáveis pela fiscalização bancária e sobre operações envolvendo empresas ligadas à instituição.
A nomeação de Carlos Carvallo para a presidência do Banco Central entrou no debate político devido à sua trajetória anterior no setor financeiro relacionado ao grupo. Ele deixou o cargo durante a crise.
As possíveis irregularidades ainda dependem de investigação. Os vínculos empresariais anteriores não constituem, isoladamente, prova de envolvimento do presidente em crimes financeiros.
Perda de apoio político acelerou saída do governo
O desgaste provocado pelo caso ultrapassou a oposição e atingiu integrantes do Partido Colorado.
Parlamentares passaram a defender a responsabilização política do governo, enquanto manifestações populares ampliavam a pressão sobre a Presidência.
O presidente do Senado, Basilio Núñez, também se posicionou favoravelmente à saída de Peña.
Na Câmara dos Deputados, uma iniciativa para abertura de impeachment aumentou a possibilidade de afastamento do chefe do Executivo.
Sem apoio suficiente para conter a crise, Peña optou por anunciar a renúncia antes do avanço do processo político.
Investigação alcança executivos do banco
As autoridades paraguaias também apuram suspeitas relacionadas à administração do Ueno Bank.
De acordo com informações divulgadas pela imprensa internacional, oito executivos foram detidos durante o avanço das investigações.
Os investigadores procuram esclarecer possíveis irregularidades financeiras, movimentações suspeitas e decisões administrativas que possam ter contribuído para o comprometimento da instituição.
A responsabilidade individual dos envolvidos dependerá das provas reunidas e da análise das autoridades judiciais.
Clientes começam a receber garantias de depósitos
Enquanto a crise política se desenvolve, o Banco Central do Paraguai trabalha na recuperação dos valores pertencentes aos correntistas.
Nesta quinta-feira (5), a autoridade monetária anunciou o início do pagamento das garantias para um primeiro grupo de clientes com depósitos de até 10 milhões de guaranis, conforme os critérios estabelecidos.
O sistema paraguaio de proteção aos depositantes prevê cobertura de até 75 salários mínimos por pessoa e por instituição financeira, equivalente a aproximadamente 228,3 milhões de guaranis na referência informada pelo Banco Central.
Valores superiores ao limite garantido dependerão dos procedimentos de resolução e da recuperação dos ativos.
O órgão também procurou tranquilizar o mercado, afirmando que os problemas do Ueno Bank não representam necessariamente uma crise generalizada do sistema bancário do país.
Pedro Alliana é o sucessor previsto
A renúncia de Santiago Peña deverá seguir os procedimentos estabelecidos pela Constituição paraguaia.
O Congresso Nacional terá participação na formalização da saída do presidente, enquanto o vice-presidente Pedro Alliana é o sucessor constitucional previsto para assumir o Executivo.
Peña havia iniciado seu mandato em agosto de 2023, com término previsto para agosto de 2028.
A transição política ocorre em um momento delicado para o Paraguai, que enfrenta simultaneamente os efeitos da crise financeira, a insatisfação dos depositantes e questionamentos sobre a fiscalização do setor bancário.
A recuperação dos recursos dos clientes e o esclarecimento das possíveis irregularidades deverão permanecer no centro das atenções nos próximos meses.
Compartilhe este conteúdo do Portal VIU! , o melhor site de notícias do Estado do Rio de Janeiro





