A velha recomendação de evitar cuecas muito apertadas para proteger a fertilidade masculina ganhou novos dados. Um estudo com 26.836 homens encontrou associação entre o uso frequente de roupas íntimas mais justas e alterações em diferentes parâmetros do sêmen, incluindo motilidade, morfologia e fragmentação do DNA dos espermatozoides. Os resultados foram publicados no Asian Journal of Andrology.
O tamanho da amostra chama atenção e torna o trabalho um dos maiores já realizados sobre o tema. Ainda assim, a conclusão exige cautela. A pesquisa não acompanhou homens ao longo do tempo nem distribuiu aleatoriamente os participantes entre diferentes tipos de roupa íntima. Além disso, todos procuravam serviços de avaliação de fertilidade, o que limita a aplicação direta dos resultados à população masculina em geral.
Os pesquisadores dividiram os participantes de acordo com o tipo de cueca usado com maior frequência nos três meses anteriores. Ao todo, 21.221 relataram preferência por modelos largos, enquanto 5.615 disseram usar peças mais apertadas, incluindo briefs e boxer briefs.
Depois de ajustar os dados para diferentes fatores de saúde e estilo de vida, a equipe encontrou maior probabilidade de alguns parâmetros alterados entre os usuários de cuecas justas. Esse grupo apresentou chances 18% maiores de menor volume seminal, 16% maiores de redução da motilidade progressiva e 48% maiores de uma proporção reduzida de espermatozoides com morfologia considerada normal.
Um dos achados que mais chamou atenção envolveu a fragmentação do DNA espermático. Os homens do grupo das cuecas apertadas apresentaram aproximadamente o dobro da chance de ter índice elevado de fragmentação. Ainda assim, a maioria dos participantes de ambos os grupos não apresentou níveis considerados anormalmente altos.
Calor pode ajudar a explicar a associação
A hipótese biológica não é nova. A produção e o desenvolvimento adequado dos espermatozoides dependem de uma temperatura testicular alguns graus abaixo da temperatura central do corpo. Por isso, fatores que aumentem de maneira persistente o calor na região escrotal são investigados há décadas como possíveis influências sobre a espermatogênese.
Roupas íntimas muito justas podem reduzir a ventilação e manter os testículos mais próximos do corpo, favorecendo aumento da temperatura local. Estudos fisiológicos já observaram temperaturas escrotais maiores com determinadas roupas mais apertadas, enquanto pesquisas observacionais encontraram diferenças modestas em alguns parâmetros seminais.
Em 2018, por exemplo, um estudo com 656 homens atendidos em um centro de fertilidade encontrou maior concentração e contagem total de espermatozoides entre aqueles que relataram usar boxers com maior frequência. Os próprios autores, porém, destacaram que a literatura sobre o tema ainda apresentava resultados inconsistentes.
O novo trabalho amplia muito o número de participantes, mas não elimina essa incerteza. Uma revisão publicada em 2026 concluiu que roupas mais justas têm sido associadas a diferenças modestas na produção de espermatozoides, porém os estudos disponíveis ainda não demonstraram de forma consistente impacto sobre resultados clínicos de fertilidade.
Sêmen alterado não significa necessariamente infertilidade
Essa distinção é fundamental. Avaliar volume, concentração, motilidade ou formato dos espermatozoides ajuda a compreender a função reprodutiva masculina, mas nenhum desses parâmetros isoladamente determina se um homem conseguirá ou não ter filhos.
Estudos que analisaram diretamente o tempo necessário para uma gravidez apresentam resultados menos claros. Uma pesquisa prospectiva com casais que tentavam engravidar não encontrou associação significativa entre o tipo de roupa íntima masculina e o tempo até a concepção ou a ocorrência de infertilidade.
Por isso, os resultados atuais não permitem dizer que usar cueca apertada torne um homem infértil. Também não comprovam que simplesmente trocar o modelo da roupa íntima aumente as chances de gravidez.
Há outro detalhe importante: os próprios grupos eram diferentes em aspectos além da roupa. Entre aqueles que usavam cuecas mais apertadas, havia maior frequência de tabagismo, consumo de álcool, varicocele e prostatite. Os pesquisadores fizeram ajustes estatísticos para esses fatores, mas estudos observacionais não conseguem eliminar completamente todas as possíveis interferências.
Estudo também avaliou função sexual
Os pesquisadores fizeram ainda uma análise exploratória sobre disfunção erétil e ejaculação precoce. As duas condições apareceram com maior frequência entre os homens que relataram usar cuecas apertadas.
Após os ajustes estatísticos, o grupo apresentou chances 18% maiores de disfunção erétil e 40% maiores de ejaculação precoce. Os próprios autores classificam essa parte como exploratória, portanto ela precisa ser interpretada com ainda mais cuidado.
Não é possível concluir a partir desses dados que a roupa íntima seja responsável pelos problemas sexuais. Outras características de saúde, comportamento e estilo de vida podem estar envolvidas.
Na prática, a escolha da cueca aparece como um fator potencialmente modificável, mas está longe de ser o único ponto relevante para a saúde reprodutiva masculina. Tabagismo, obesidade, varicocele, algumas doenças, exposição excessiva ao calor, determinados medicamentos e diferentes fatores ambientais também podem interferir na produção e na qualidade dos espermatozoides.
Para homens em investigação de infertilidade, evitar calor excessivo na região escrotal pode fazer parte das orientações gerais de cuidado. Isso, porém, não transforma a cueca larga em tratamento para infertilidade nem justifica atribuir dificuldades para engravidar apenas ao tipo de roupa usado.
O novo estudo fortalece uma associação que já aparecia em pesquisas menores: homens que usam roupas íntimas muito justas podem apresentar diferenças em alguns parâmetros do sêmen. A pergunta mais importante, contudo, permanece aberta. Ainda falta demonstrar se essas diferenças são suficientes para alterar de maneira relevante a capacidade de um casal conseguir uma gravidez.
Compartilhe este conteúdo do Portal VIU! , o melhor site de notícias do Estado do Rio de Janeiro







