O endividamento das famílias brasileiras alcançou o maior nível da série histórica do Banco Central. Em agosto, as dívidas passaram a representar 50,11% da renda acumulada pelas famílias ao longo de 12 meses, segundo dados divulgados nesta quinta-feira (29).
O resultado representa alta de 0,2 ponto percentual em relação ao mês anterior e de 1,2 ponto percentual na comparação com agosto de 2025. Até julho, o indicador estava em torno de 49,9%, nível que já era considerado historicamente elevado pela autoridade monetária.
O levantamento mede a relação entre o saldo das dívidas das famílias com o sistema financeiro e a renda disponível acumulada em 12 meses. Por isso, o percentual de 50,11% não significa que metade do salário mensal de cada brasileiro esteja necessariamente comprometida com pagamentos.
Para medir quanto da renda mensal é usada efetivamente no pagamento de parcelas, juros e amortizações, o Banco Central utiliza outro indicador: o comprometimento de renda. Em agosto, esse percentual avançou para 29%.
Na prática, os dois dados mostram dimensões diferentes do mesmo problema. Enquanto o endividamento revela o tamanho do estoque de dívidas em relação à renda anual, o comprometimento indica quanto da renda disponível é direcionada mensalmente ao pagamento dessas obrigações.
O avanço ocorre em um cenário de crédito ainda caro. Em agosto, a taxa média de juros das operações de crédito livre para pessoas físicas havia alcançado 61,7% ao ano. Modalidades como cartão de crédito rotativo e parcelado estavam entre as que mais pressionavam o custo dos empréstimos.
Apesar do recorde de endividamento, os números mais recentes mostram uma pequena melhora nos atrasos. A inadimplência da carteira total de crédito do Sistema Financeiro Nacional caiu de 5,05% em agosto para 4,98% em setembro.
Entre as pessoas físicas, o percentual de operações com atraso superior a 90 dias passou de 6,04% para 5,99%. Nas empresas, a taxa ficou em 3,3%, também com leve redução em relação ao mês anterior.
A queda, porém, ainda é pequena diante do nível elevado alcançado nos últimos meses. Em agosto, a inadimplência havia atingido recordes tanto na carteira total quanto entre as famílias. No crédito livre para pessoas físicas, em que bancos e clientes negociam as condições sem regras específicas de direcionamento, o índice chegou a 8%.
O cenário também aparece em outro levantamento divulgado pelo Banco Central nesta semana. O Relatório de Estabilidade Financeira apontou que 20,3 milhões de brasileiros estavam em situação de endividamento de risco em junho de 2026, crescimento de 75% em cinco anos. O grupo representa 17% dos devedores do Sistema Financeiro Nacional.
Para entrar nessa classificação, o consumidor precisa apresentar simultaneamente pelo menos dois fatores considerados de risco pelo Banco Central, como inadimplência prolongada, comprometimento de mais de 50% da renda com dívidas, uso de diferentes modalidades de crédito ou renda disponível abaixo da linha de pobreza após o pagamento das parcelas.
A situação pesa de forma mais intensa entre os consumidores de menor renda. Entre pessoas que recebem até dois salários mínimos, o comprometimento com dívidas chegou a 42% da renda em junho. Somente as despesas relacionadas ao cartão de crédito respondiam por cerca de 15%.
O Banco Central atribui parte desse movimento ao aumento do acesso ao crédito e à maior utilização de modalidades mais caras e sem garantia, como cartão rotativo, cheque especial e empréstimo pessoal não consignado.
A expansão das ofertas digitais também entrou no radar da autoridade monetária. Segundo o BC, consumidores de menor renda ficaram mais expostos a propostas de crédito rápidas e frequentes, o que pode ampliar o risco de contratação de dívidas incompatíveis com a capacidade de pagamento.
Diante do avanço do problema, novas regras já foram anunciadas. A partir de março de 2027, instituições financeiras deverão oferecer mecanismos para que clientes possam bloquear publicidade e ofertas ativas de empréstimos.
Consumidores identificados como vulneráveis ao endividamento excessivo também terão proteção adicional. Para esse grupo, determinadas ofertas dependerão de autorização prévia e deverão priorizar alternativas como renegociação, portabilidade ou substituição de dívidas por condições mais favoráveis.
Outras medidas previstas para julho de 2027 incluem ferramentas digitais para que o consumidor visualize de forma consolidada suas dívidas, custos e limites antes de contratar novos empréstimos.
Os novos dados mostram que o desafio não está apenas na quantidade de famílias endividadas, mas também no peso que essas dívidas passaram a exercer sobre o orçamento doméstico.
Embora a inadimplência tenha apresentado pequena melhora em setembro, o endividamento recorde e o comprometimento de 29% da renda indicam que uma parcela significativa dos recursos das famílias continua direcionada ao pagamento de dívidas, em um ambiente ainda marcado por juros elevados.
Compartilhe este conteúdo do Portal VIU! , o melhor site de notícias do Estado do Rio de Janeiro





