Uma auditoria realizada a pedido do governo do Rio de Janeiro colocou sob suspeita movimentações financeiras superiores a R$ 400 milhões na Caixa de Assistência dos Empregados da Cedae, conhecida como Cedae Saúde. O levantamento encontrou indícios de pagamentos irregulares por serviços contratados e possível favorecimento de empresas relacionadas à antiga administração da entidade.
O trabalho foi conduzido pela consultoria Grant Thornton, com acompanhamento do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) do governo estadual e da própria Cedae. O relatório será encaminhado ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), que poderá aprofundar as investigações e avaliar eventuais medidas judiciais.
As suspeitas ganharam repercussão nesta sexta-feira (9), após a divulgação dos resultados da auditoria. Os valores examinados ainda não representam prejuízo definitivamente comprovado, e a responsabilidade de eventuais envolvidos dependerá de investigação.
Arquivos contábeis foram apagados após mudança na direção
A apuração começou depois da exoneração de Eric Frederik Gualberto da presidência da Cedae Saúde, em 23 de junho de 2026.
Quando assumiu o comando da entidade, a nova diretoria constatou que arquivos com informações de fornecedores e registros contábeis referentes ao período de dezembro de 2023 a abril de 2026 haviam sido apagados dos sistemas.
Os auditores conseguiram recuperar os dados e passaram a examinar contratos, pagamentos e relações empresariais da administração anterior.
A recuperação desses documentos permitiu identificar movimentações consideradas suspeitas e levantar questionamentos sobre a prestação de serviços e a destinação de recursos da assistência médica dos empregados da companhia.
Empresas associadas a offshore receberam R$ 95 milhões
Um dos pontos mais relevantes da investigação envolve quatro empresas que, segundo informações divulgadas sobre a auditoria, teriam ligação com uma estrutura empresarial registrada nas Ilhas Virgens Britânicas.
Essas companhias teriam recebido aproximadamente R$ 95 milhões durante a gestão de Eric Frederik Gualberto. O levantamento aponta possíveis vínculos entre a estrutura empresarial e o ex-presidente da Cedae Saúde.
Os investigadores deverão esclarecer a natureza dessas relações, verificar se os serviços contratados foram efetivamente prestados e apurar se houve favorecimento ou pagamentos indevidos.
A existência de empresas no exterior não constitui, isoladamente, prova de irregularidade. O que está sob análise são as relações entre os beneficiários dos pagamentos, os contratos e a administração da entidade.
Repasses mensais caíram de R$ 20 milhões para cerca de R$ 6 milhões
Outro dado que chamou a atenção foi a redução dos recursos transferidos para o funcionamento da Cedae Saúde.
Durante a administração anterior, os repasses mensais eram de aproximadamente R$ 20 milhões. Com a mudança de gestão e a revisão das despesas, o valor passou para cerca de R$ 6 milhões, uma queda próxima de 70%.
A diferença representa aproximadamente R$ 14 milhões por mês.
Em comunicado institucional, a Cedae Saúde apresentou dados mais detalhados: os repasses passaram de R$ 25,13 milhões em abril de 2026 para R$ 6,07 milhões em setembro, uma redução de 75,83% em cinco meses.
A queda nas despesas, entretanto, não significa que toda a diferença corresponda a dinheiro desviado. A auditoria ainda precisa distinguir pagamentos legítimos, possíveis cobranças excessivas e eventuais irregularidades.
Auditoria também encontrou problemas em contratos de medicamentos e exames
Em seu comunicado oficial, a Cedae Saúde informou que a apuração examinou R$ 533,56 milhões em repasses realizados entre janeiro de 2023 e setembro de 2026.
Também foram analisados R$ 269,40 milhões em pagamentos contabilizados a 19 fornecedores, referentes ao período de abril de 2017 a junho de 2026.
Entre os casos apresentados está o da empresa New Haven, que recebeu R$ 35,53 milhões por fornecimentos relacionados ao programa de medicamentos FARMACS. Segundo a entidade, a média mensal de despesas com medicamentos caiu de aproximadamente R$ 1,6 milhão, em 2025, para R$ 300 mil após a revisão dos contratos.
A instituição também apontou pagamentos de R$ 21,4 milhões à ILABS Laboratório de Análises Clínicas por serviços cuja comprovação está sendo examinada.
A nova gestão afirma ter adotado controles adicionais e interrompido despesas relativas a serviços não comprovados, preservando os atendimentos essenciais.
Entidade atende aproximadamente 17 mil pessoas
Criada em 1988, a Cedae Saúde administra serviços de assistência à saúde destinados a funcionários ativos, aposentados, pensionistas e dependentes vinculados à Companhia Estadual de Águas e Esgotos.
Atualmente, cerca de 17 mil pessoas são atendidas pela instituição.
Entre os serviços oferecidos estão assistência médica, saúde ocupacional, exames admissionais e periódicos, segurança do trabalho e distribuição de medicamentos de uso contínuo.
Por isso, a apuração também levanta questionamentos sobre os mecanismos de fiscalização dos recursos destinados à assistência dos trabalhadores e de suas famílias.
Ministério Público poderá aprofundar investigação
O encaminhamento do relatório ao Ministério Público deverá abrir uma nova etapa de análise dos documentos e das movimentações financeiras identificadas.
Caberá aos órgãos competentes avaliar a necessidade de novas diligências, eventual responsabilização de pessoas e empresas e possíveis medidas para recuperar recursos, caso seja comprovado prejuízo.
A Cedae Saúde afirma que está revisando contratos, reforçando controles internos e adotando medidas para ampliar a transparência de sua administração.
Até a divulgação dos resultados, as conclusões apresentadas tinham caráter preliminar. Não há, nos documentos consultados, confirmação de condenação judicial relacionada aos valores apontados pela auditoria.
*Da Agência Fonte Exclusiva.








