A relação entre religião e política segue presente no cenário eleitoral brasileiro, mas uma pesquisa nacional mostra que a maioria dos brasileiros estabelece limites para essa aproximação dentro dos espaços religiosos. O levantamento indica forte rejeição à indicação de votos por líderes religiosos e ao uso de igrejas para campanhas eleitorais.
A pesquisa “Religião e Vida Pública no Brasil”, coordenada pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser) e realizada em parceria com a Quaest, ouviu presencialmente 15 mil pessoas com 16 anos ou mais em 412 municípios de todas as regiões do país, incluindo as 27 capitais e o Distrito Federal. As entrevistas foram realizadas entre 14 de janeiro e 10 de fevereiro de 2026. O questionário teve 184 perguntas e margem de erro de 0,8 ponto percentual, com nível de confiança de 95%.
De acordo com os resultados, 83% dos entrevistados são contrários a que padres ou pastores indiquem em quem os fiéis devem votar. Outros 82% rejeitam discussões políticas durante cultos e missas, enquanto 90% não concordam com a realização de campanhas eleitorais dentro de igrejas ou outros espaços religiosos.
Os dados apontam, portanto, que a presença da religião na vida pública não significa necessariamente apoio à transformação dos templos em ambientes de disputa eleitoral.
Influência religiosa acontece também fora das igrejas
Para pesquisadores do Iser, a influência da religião sobre as escolhas políticas não depende apenas de uma orientação direta de voto feita por um líder.
A antropóloga Lívia Reis, uma das coordenadoras do levantamento, explica que existe uma chamada “mediação religiosa do voto”. Nesse processo, valores, identidades, relações comunitárias e redes de confiança construídas dentro das comunidades religiosas podem influenciar a maneira como uma pessoa interpreta questões políticas.
Essa influência também ultrapassa os limites físicos dos templos. Pastores, padres e outras lideranças participam de debates públicos, aparecem nas redes sociais e mantêm contato com comunidades por aplicativos de mensagens.
O WhatsApp, por exemplo, ocupa espaço importante nesse processo. O levantamento mostra que a circulação de conteúdos religiosos e políticos ocorre em redes de confiança formadas por familiares, amigos, grupos religiosos e influenciadores.
Ao mesmo tempo, os dados sobre a eleição presidencial de 2022 mostram que parte dos entrevistados recebeu orientação de suas lideranças religiosas. Segundo informações divulgadas a partir da pesquisa, 11% disseram ter sido orientados a votar em Jair Bolsonaro e 5% relataram orientação para votar em Luiz Inácio Lula da Silva.
Evangélicos representam 29% da população
A pesquisa também apresenta um retrato da composição religiosa brasileira. Os católicos correspondem a 50% da população, enquanto os evangélicos representam 29%. Pessoas sem religião são 14% dos entrevistados.
Dentro do segmento evangélico, os pentecostais representam 21% da população brasileira, os protestantes 5% e os evangélicos sem igreja 3%.
Entre os evangélicos, a Assembleia de Deus aparece como a maior denominação, reunindo 32% desse grupo. Outras denominações pequenas e médias somam 28%, enquanto evangélicos sem igreja e batistas representam 10% cada. Congregação Cristã, Igreja Universal e Igreja do Evangelho Quadrangular correspondem a 7%, 5% e 4%, respectivamente.
No catolicismo, o levantamento divide os entrevistados entre 31% de praticantes e 19% de não praticantes.
Religião não determina uma única posição política
Outro aspecto destacado pelo estudo é a diversidade de opiniões dentro dos próprios grupos religiosos. A pesquisa aponta que pertencer a determinada religião não leva automaticamente a uma mesma posição sobre temas políticos e sociais.
Entre os entrevistados, 54% se identificam como conservadores e 24% como progressistas. Apesar disso, algumas propostas recebem apoio elevado entre diferentes grupos religiosos. O Bolsa Família, por exemplo, tem 75% de apoio, enquanto a taxação dos mais ricos chega a 66%. A proteção aos povos indígenas registra 78% de concordância.
A pesquisa também mostra que questões morais podem produzir divisões mais acentuadas. Entre os evangélicos, 79% apoiam a educação sexual nas escolas como instrumento de prevenção ao abuso infantil, enquanto 80% são favoráveis ao uso de métodos contraceptivos.
No caso do aborto, o levantamento aponta uma divisão mais equilibrada entre os evangélicos, indicando que a posição sobre o tema varia conforme características sociais e demográficas.
Para os pesquisadores, fatores como renda, escolaridade, raça, gênero, região e experiência pessoal ajudam a explicar as diferenças de posicionamento dentro de uma mesma religião.
Fé também aparece no consumo de cultura e informação
O levantamento mostra ainda que a religião ocupa espaço em diferentes áreas da vida cotidiana. Para 73% dos brasileiros, a Bíblia ou seus versículos são fonte de ensinamentos para a vida.
A música gospel é consumida por 67% da população, enquanto 59% afirmam acompanhar filmes e séries de temática religiosa. Rádios cristãs e livros religiosos aparecem com 55%, e novelas bíblicas, com 45%.
Entre os jovens, também há mudanças no perfil religioso. O estudo aponta que 39% das pessoas entre 16 e 34 anos se identificam como católicas, enquanto 33% são evangélicas. Entre brasileiros com 60 anos ou mais, o catolicismo chega a 65%.
Caso de Nossa Senhora Aparecida movimenta campanha de 2026
A relação entre religião e política também entrou no centro da campanha eleitoral deste ano após a circulação de conteúdos que associavam o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) a uma suposta intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Flávio Bolsonaro negou a informação e acionou a Justiça Eleitoral.
Em 25 de setembro, o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou a retirada de publicações relacionadas ao tema, incluindo uma postagem do humorista Antonio Tabet. A decisão estabeleceu multa diária de R$ 30 mil em caso de descumprimento.
Dias depois, em 27 de setembro, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), derrubou a decisão de Mendonça e determinou o restabelecimento das publicações retiradas com base no mesmo fundamento. Dino citou a liberdade de expressão e a liberdade religiosa ao justificar sua decisão.
Na sequência, o ministro Luiz Fux suspendeu a decisão de Dino e restabeleceu os efeitos da determinação de Mendonça até que o caso fosse analisado pelo plenário do STF.
Nesta quarta-feira (30), o TSE iniciou o julgamento sobre a manutenção da decisão de Mendonça. Até o momento da atualização, somente o próprio ministro havia votado, defendendo a manutenção da retirada das publicações. A sessão virtual está prevista para terminar às 23h59.
O episódio mostra como questões religiosas podem ganhar espaço no debate eleitoral e chegar aos tribunais. Ao mesmo tempo, os dados da pesquisa Iser/Quaest indicam que a relação entre fé e política é mais ampla do que a simples indicação de candidatos dentro dos templos.
Os resultados apontam para uma realidade em que religião, valores, identidade, redes sociais e relações comunitárias se cruzam na formação das opiniões. A maioria dos entrevistados, porém, afirma não considerar adequado que igrejas sejam utilizadas diretamente como espaços de campanha ou que líderes religiosos determinem o voto dos fiéis.
*Da Agência Fonte Exclusiva.








