Campos dos Goytacazes, a maior cidade do Norte Fluminense, chega à reta final da eleição de 2026 com eleitorado suficiente para eleger um deputado federal. O problema está menos no tamanho dessa força e mais na forma como ela será distribuída.
A multiplicação de candidaturas locais, somada ao apoio de vereadores, lideranças religiosas e grupos políticos a nomes de outras regiões, pode impedir que os votos do município se concentrem em um único projeto.
A pulverização atinge todos os candidatos ligados a Campos. Mesmo quem aparece com estrutura política maior precisa enfrentar a divisão do eleitorado, a influência das campanhas estaduais e a disputa interna nas próprias legendas.
Com base nos cruzamentos de dados realizado pela Agência Fonte Exclusiva, o jornalista Roberto Barbosa apresentará uma análise completa deste cenário no programa Direto da Redação, edição desta segunda-feira (28).
Em 2018, Campos tinha 361.266 eleitores aptos. Na votação para deputado federal, foram registrados 227.071 votos válidos. A abstenção chegou a 85.530 pessoas, o equivalente a 23,68% do eleitorado. Outros 48.665 eleitores compareceram, mas votaram em branco ou anularam o voto para o cargo.
Naquela eleição, Wladimir Garotinho recebeu 30.795 votos em Campos e terminou a disputa com 39.398 votos em todo o estado, elegendo-se graças aos votos da legenda.
O resultado mostrou que, mesmo com uma base municipal relevante, uma candidatura federal depende de presença fora da cidade e do desempenho coletivo do partido.
Quatro anos depois, Campos chegou a 369.619 eleitores. A quantidade de votos válidos para deputado federal subiu para 255.844, enquanto a abstenção caiu para 81.161. Os votos brancos e nulos também recuaram: passaram de 48.665, em 2018, para 31.030, em 2022.
O crescimento dos votos válidos, no entanto, não resultou em maior concentração nos candidatos ligados ao município. Os oito nomes com melhor desempenho e vínculos políticos mais evidentes com Campos somaram aproximadamente 93,6 mil votos. Isso representou cerca de 36,6% dos votos válidos para deputado federal na cidade.
Os demais 63,4% ficaram espalhados entre outras candidaturas locais, regionais, nomes de projeção estadual, votos de legenda e candidatos de fora. O dado ajuda a dimensionar o desafio: Campos vota muito, mas não necessariamente vota de maneira concentrada.
Vereadores ampliam a fragmentação
A eleição de 2026 ganhou um componente adicional. Parte expressiva dos vereadores e das lideranças políticas de Campos está envolvida em campanhas de candidatos que possuem bases eleitorais em outras cidades.
Esses apoios carregam estruturas de bairro, indicações políticas, grupos religiosos e redes de servidores, empresários e lideranças comunitárias. Individualmente, cada grupo pode parecer pequeno. Somados, porém, esses blocos retiram milhares de votos do conjunto das candidaturas locais.
A fuga não ocorre por um único caminho. Há o voto ideológico, concentrado em candidaturas identificadas com a direita ou com a esquerda; o voto religioso, orientado por igrejas e lideranças; o voto político, conduzido por vereadores e grupos municipais; e o voto de notoriedade, atraído por nomes conhecidos em todo o estado.
Esses segmentos também se misturam. Um eleitor pode seguir uma orientação religiosa e, ao mesmo tempo, votar por identificação ideológica. Da mesma forma, o apoio de um vereador pode reforçar uma preferência partidária que já existia.
Cenário aponta mais de 140 mil votos pulverizados
Considerando o eleitorado atual de aproximadamente 370,2 mil pessoas, um cenário baseado no comportamento registrado nas últimas eleições aponta para cerca de 83,3 mil abstenções.
Entre os eleitores que comparecerem, aproximadamente 25,8 mil poderiam votar em branco ou anular o voto para deputado federal. Restariam pouco mais de 261 mil votos válidos.
Em um cenário de retenção de 44% desses votos por candidaturas locais e regionais, o bloco teria aproximadamente 114,9 mil votos para dividir entre todos os seus nomes. Outros 146,2 mil votos seguiriam para candidaturas de fora, votos de legenda ou opções sem ligação direta com o município.
O levantamento da Agência Fonte Exclusiva trata-se de uma simulação, e não de uma pesquisa eleitoral. O cálculo serve para mostrar a dimensão do risco. Se a retenção local cair para 40%, o conjunto de candidatos da cidade ficaria com aproximadamente 104,4 mil votos. Se subir para 50%, alcançaria cerca de 130,5 mil.
Mesmo no cenário mais favorável, a divisão entre várias candidaturas continuaria sendo decisiva. Uma cidade pode produzir mais de 250 mil votos válidos e, ainda assim, terminar a eleição sem representante próprio na Câmara dos Deputados.
A situação de Wladimir no PL
O ex-prefeito da cidade, Wladimir Garotinho, entra nessa disputa com a maior votação municipal recente entre os candidatos de Campos. Ele foi eleito prefeito com 106.526 votos no primeiro turno de 2020 e recebeu 121.174 votos no segundo turno. Em 2024, conquistou a reeleição com 192.232 votos.
Esses números demonstram força eleitoral, mas não podem ser transferidos automaticamente para uma eleição proporcional. Na disputa para prefeito, o eleitor escolhe entre poucos nomes e decide quem comandará o município. Para deputado federal, há centenas de candidatos, influência das legendas e uma distribuição de votos muito mais fragmentada.
Além disso, não basta estar entre os mais votados individualmente. A eleição para a Câmara depende do total alcançado pelo partido e da posição de cada candidato dentro da nominata.
Em 2022, o PL elegeu 11 deputados federais pelo Rio de Janeiro, formando a maior bancada do estado. Houve candidatos eleitos pelo partido com menos de 70 mil votos. Isso, porém, não estabelece um corte para 2026.
O chamado corte é apenas uma faixa informal. Ele muda conforme o total de votos da legenda, a quantidade de cadeiras conquistadas e o desempenho dos candidatos mais competitivos. Uma nominata mais forte pode elevar a votação necessária para ocupar as últimas posições. Se o partido eleger menos deputados, a disputa interna também se torna mais apertada.
O PL chega a 2026 com mudanças importantes. Carlos Jordy deixou a disputa pela Câmara para concorrer ao Senado, enquanto Wladimir e outros nomes com bases regionais entraram na nominata. O partido ainda reúne parlamentares com mandato, candidatos ligados ao bolsonarismo e lideranças com presença consolidada em grandes municípios.
Nesse ambiente, uma votação superior a 70 mil votos não representaria garantia de eleição para Wladimir. Dependendo da quantidade de cadeiras obtidas pelo PL e da votação dos demais candidatos, esse resultado poderia colocá-lo na disputa por uma das últimas vagas da legenda.
Isso não significa que 70 mil votos sejam insuficientes por definição. Significa apenas que, no sistema proporcional, o número precisa ser analisado dentro do resultado partidário. Uma votação que elege em determinada legenda pode produzir apenas suplência em outra.
Risco não se limita a Wladimir
Embora Wladimir apareça como o nome local com maior estrutura, o problema da pulverização não é exclusivo de sua candidatura. Caio Vianna (PSDB), com expectativa de queda na votação, e a delegada Madeleine e os demais candidatos ligados a Campos enfrentam o mesmo ambiente de dispersão.
Quanto maior o número de candidaturas competitivas no município, menor tende a ser a parcela disponível para cada uma. A situação se agrava quando vereadores e lideranças locais trabalham para candidatos de fora, deslocando votos que poderiam permanecer na cidade.
A fragmentação também dificulta o surgimento de uma segunda candidatura forte. Se o primeiro colocado local absorver a maior parte dos votos retidos, os demais ficam dependentes de bases externas. Se a divisão for mais equilibrada, todos podem terminar com votações intermediárias, sem alcançar posição suficiente dentro de suas legendas.
Campos possui eleitorado para construir representação própria. A série histórica mostra que a cidade ampliou o número de votos válidos e reduziu a proporção de brancos e nulos. O desafio de 2026 não está na falta de votos, mas na capacidade de impedir que essa força seja diluída.
Na prática, o risco é simples: muitos candidatos locais disputam uma parcela limitada do eleitorado, enquanto candidaturas de fora entram na cidade amparadas por vereadores, igrejas, grupos ideológicos e estruturas partidárias. Se essa pulverização se confirmar, Campos poderá novamente entregar uma votação expressiva sem transformar esse volume em representação efetiva no Congresso.
*Da Agência Fonte Exclusiva.








