A participação das mulheres na política, o combate à violência, a igualdade no mercado de trabalho e as mudanças climáticas estão entre os principais temas de uma carta aberta divulgada pela ONU Mulheres durante o ciclo eleitoral de 2026.
O documento reúne dez propostas voltadas a candidatas, candidatos, partidos políticos, instituições públicas e à sociedade. Segundo a organização, a intenção é estimular o debate e apresentar medidas que possam contribuir para reduzir desigualdades de gênero e raça no Brasil. A ONU Mulheres ressalta que não apoia candidaturas ou partidos.
Mulheres ainda são minoria no Congresso
Apesar de representarem 52,84% do eleitorado brasileiro em 2026, as mulheres continuam ocupando uma parcela menor das cadeiras do Congresso Nacional. Atualmente, elas representam 17,2% dos integrantes da Câmara dos Deputados e 18,5% do Senado, segundo os dados reunidos pela ONU Mulheres.
A diferença também aparece quando gênero e raça são analisados em conjunto. Das 91 mulheres eleitas para a Câmara em 2022, 29 eram negras, o equivalente a menos de 6% das cadeiras da Casa. A organização defende a criação de metas para ampliar a presença feminina, em sua diversidade, nos cargos eletivos, nas direções partidárias e em posições de liderança.
O documento também chama atenção para a distância entre o número de mulheres que se candidatam e aquelas que efetivamente chegam aos cargos eletivos. Em 2026, elas representam 36,6% das candidaturas à Câmara dos Deputados, enquanto correspondem a 46,3% das pessoas filiadas a partidos políticos.
Violência política e violência contra mulheres
Outro ponto destacado é a violência política de gênero e raça. A ONU Mulheres defende que a Lei nº 14.192/2021, que trata do combate à violência política contra a mulher, seja aplicada de forma efetiva, inclusive no ambiente digital.
Entre as medidas propostas estão o fortalecimento dos canais de denúncia, proteção para as vítimas, divulgação de dados oficiais e maior integração entre as instituições responsáveis pelo atendimento e pela investigação dos casos. A organização também destaca que mulheres negras, indígenas e outras que enfrentam múltiplas formas de discriminação estão mais expostas a esse tipo de violência.
A carta também aborda a violência contra mulheres e meninas de maneira mais ampla. A ONU Mulheres propõe metas específicas, recursos para prevenção, ampliação dos serviços especializados, investigação dos crimes e fortalecimento das medidas de proteção.
Os números de feminicídio mostram a dimensão do problema. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública apontam que 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil em 2025. Entre elas, 65,1% eram negras e 62,5% foram mortas dentro da própria residência.
Desigualdade também aparece no trabalho de cuidado
A divisão das tarefas domésticas e do cuidado com outras pessoas é outro tema incluído nas propostas.
Segundo a ONU Mulheres, as brasileiras dedicam, em média, 21,3 horas por semana a essas atividades, enquanto os homens gastam 11,7 horas. A diferença chega a quase dez horas semanais.
A organização defende a implementação do Plano Nacional de Cuidados, com recursos para ampliar serviços como creches e melhorar as condições de trabalho de profissionais que atuam no setor. Entre as medidas citadas estão formação, contratação formal, remuneração adequada e proteção social.
A desigualdade também aparece na renda. Nas empresas brasileiras com mais de 100 funcionários, as mulheres recebem, em média, cerca de 21% menos que os homens. A ONU Mulheres também aponta que 45,6% das mulheres negras ocupadas estavam na informalidade em 2024.
Diante desse cenário, as propostas incluem ações voltadas à qualificação profissional, acesso a serviços de cuidado, transporte, inclusão digital, crédito e oportunidades de emprego formal.
Mulheres também estão no debate sobre mudanças climáticas
As mudanças climáticas ocupam espaço em três das dez propostas apresentadas pela organização.
A ONU Mulheres defende que mulheres que atuam na proteção dos territórios e na segurança alimentar tenham mais acesso a recursos destinados a projetos de adaptação e enfrentamento dos impactos climáticos.
A entidade também chama atenção para a presença feminina nos espaços de decisão ambiental. Durante a COP30, realizada em Belém, as mulheres representaram 44% das delegações nacionais, mas correspondiam a 36% das pessoas que chefiavam essas delegações.
Outra proposta é que as políticas climáticas levem em consideração os impactos diferentes sobre homens e mulheres e também sobre grupos raciais distintos. Para isso, a ONU Mulheres defende metas, orçamento e produção de dados que permitam acompanhar esses efeitos.
Propostas entram no debate das eleições de 2026
Ao apresentar as dez propostas, a ONU Mulheres busca colocar no centro da discussão eleitoral temas que afetam diretamente a vida das mulheres, como segurança, participação política, renda, cuidado e mudanças climáticas.
O documento também aponta que o crescimento da participação feminina nas candidaturas ainda não resultou em uma presença proporcional no Legislativo. O TSE mantém dados sobre a composição das candidaturas de mulheres, pessoas negras e indígenas nas Eleições 2026 e sobre os critérios relacionados à distribuição dos recursos públicos de campanha.
De acordo com a ONU Mulheres, as propostas podem ser assumidas por candidaturas de diferentes partidos e também servir como pontos de cobrança por parte da população durante o processo eleitoral. A organização afirma que o objetivo é ampliar o debate sobre medidas capazes de reduzir as desigualdades que ainda afetam as mulheres brasileiras.
*Da Agência Fonte Exclusiva








