A proposta de oferecer transporte público sem cobrança de passagem vem ganhando espaço em diferentes cidades brasileiras. Apesar do avanço de iniciativas de tarifa zero, a expansão do modelo ainda esbarra em uma questão fundamental: encontrar uma fonte permanente de recursos para manter os ônibus funcionando sem depender do pagamento feito pelos passageiros.
Segundo dados da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), a venda de passagens responde por cerca de 80% dos custos da operação de ônibus no país. Isso significa que a retirada das tarifas exige uma mudança na estrutura de financiamento do transporte coletivo.
Maricá virou exemplo de tarifa zero
Na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, Maricá é um dos principais exemplos brasileiros de transporte público gratuito.
O município implantou a tarifa zero em 2014 e atualmente mantém todas as linhas dos ônibus municipais, conhecidos como “Vermelhinhos”, sem cobrança aos passageiros.
O sistema é financiado com recursos dos royalties do petróleo recebidos pela cidade.
Outros municípios fluminenses também adotaram modelos de gratuidade. Itaboraí, Japeri e Paracambi oferecem transporte municipal gratuito de forma integral. Em Duque de Caxias, Magé, Guapimirim e Tanguá, a gratuidade é aplicada parcialmente, em determinadas linhas.
Na maioria desses casos, os recursos necessários para manter o benefício saem dos próprios orçamentos municipais.
Para os usuários, a mudança pode representar uma economia significativa no dia a dia. Em Maricá, a aposentada Maria Gorethi de Lima, de 67 anos, afirma utilizar os ônibus praticamente todos os dias para realizar atividades cotidianas.
Pesquisador propõe cobrança para empresas
Uma das alternativas discutidas para ampliar a tarifa zero é criar uma fonte de financiamento que não dependa diretamente dos passageiros nem exclusivamente dos cofres públicos.
O professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Observatório das Metrópoles Juciano Rodrigues defende a criação da Taxa do Transporte Público (TTP).
A proposta prevê uma contribuição mensal das empresas privadas que tenham dez ou mais funcionários. O valor seria calculado de acordo com o número de trabalhadores e destinado a um fundo específico para financiar o transporte gratuito.
Na avaliação do pesquisador, a medida mudaria a lógica atual de financiamento. O transporte coletivo deixaria de depender principalmente da tarifa paga por quem utiliza o serviço e passaria a ser tratado como uma política pública essencial, assim como saúde, educação e segurança.
A ideia está entre os estudos desenvolvidos no projeto “Tarifa zero e suas possibilidades de expansão no Brasil”, realizado pela Universidade de Brasília (UnB).
Estudo aponta potencial de R$ 4,3 bilhões no Rio
Um levantamento divulgado pela Casa Fluminense em novembro de 2025 analisou como poderia funcionar a tarifa zero no município do Rio de Janeiro.
Segundo o estudo, uma contribuição de R$ 177,66 por trabalhador das empresas cariocas com mais de dez empregados poderia gerar aproximadamente R$ 4,3 bilhões por ano.
O valor seria somado aos cerca de R$ 1,5 bilhão que a Prefeitura do Rio já destina atualmente a subsídios para o sistema de ônibus.
Juntos, os recursos ultrapassariam o custo estimado de operação dos ônibus convencionais e do BRT, calculado em aproximadamente R$ 2,9 bilhões.
Economia com passagem pode movimentar outros setores
Os defensores da tarifa zero também apontam possíveis efeitos sobre a economia.
Um estudo divulgado em maio pelo projeto da UnB estima que passageiros das 27 capitais e regiões metropolitanas brasileiras gastam cerca de R$ 45,6 bilhões por ano com transporte público, já descontados os valores correspondentes às gratuidades existentes.
No Rio de Janeiro, esse gasto é estimado em aproximadamente R$ 4,2 bilhões.
Com a eliminação da tarifa, parte desse dinheiro poderia deixar de ser destinada às viagens e ser utilizada pelos consumidores em outras áreas, como alimentação, vestuário, serviços e lazer.
A avaliação dos pesquisadores é que a medida poderia funcionar também como mecanismo de redistribuição de renda e estímulo ao consumo. Em vez de desaparecer do orçamento das famílias para custear o transporte, o dinheiro continuaria circulando em outros setores da economia.
Como comparação, o estudo cita os recursos destinados ao Bolsa Família. Em 2025, o programa distribuiu R$ 57,9 bilhões aos beneficiários das capitais e regiões metropolitanas. Já os gastos dos passageiros com transporte público nessas mesmas áreas são estimados em cerca de R$ 60,3 bilhões, considerando o sistema antes das isenções.
Gratuidade pode facilitar acesso a empregos e serviços
Outro argumento apresentado pelos pesquisadores está relacionado à mobilidade urbana.
Para Juciano Rodrigues, o preço da passagem pode representar uma barreira para pessoas de baixa renda, especialmente aquelas que vivem nas periferias e precisam percorrer longas distâncias para acessar diferentes áreas das cidades.
Sem esse custo, a população poderia ter mais facilidade para chegar a empregos, escolas, universidades, unidades de saúde, espaços culturais e locais de lazer.
Nesse cenário, a tarifa zero seria vista não apenas como uma forma de reduzir a despesa mensal das famílias, mas também como uma política capaz de diminuir barreiras econômicas e geográficas à circulação pela cidade.
Número de passageiros caiu no Rio
A discussão sobre o financiamento também acontece em um momento de redução do número de usuários do transporte coletivo.
Dados da NTU mostram que os ônibus municipais e intermunicipais da Região Metropolitana do Rio transportaram 120,5 milhões de passageiros em 2019. Em 2024, foram 86,2 milhões, uma queda de 28,5%.
Para Paulo Valente, diretor de comunicação do Rio Ônibus, sindicato que representa as empresas de ônibus da capital fluminense, o modelo tradicional enfrenta um período de forte desgaste.
Entre os fatores apontados estão o aumento dos custos de operação, a redução do número de passageiros pagantes, o crescimento das gratuidades e as transformações no mercado de trabalho.
O avanço da informalidade também diminui o alcance do vale-transporte, enquanto o uso de carros e motocicletas por aplicativos cresceu após a pandemia.
Tarifa zero poderia recuperar parte dos passageiros
Na avaliação de Valente, a gratuidade poderia recuperar entre 60% e 70% dos passageiros que deixaram de utilizar o transporte coletivo, aproximando a demanda dos níveis registrados antes da pandemia.
O representante do setor, porém, avalia que a simples retirada da cobrança não seria suficiente. Para tornar os ônibus mais competitivos, seria necessário combinar a gratuidade com melhorias na qualidade do serviço e uma nova estrutura de financiamento.
Entre as possibilidades está a criação de um fundo abastecido por recursos públicos e contribuições de empresas privadas. Nesse modelo, o atual sistema de vale-transporte poderia ser substituído ou reformulado para integrar uma contribuição empresarial ao financiamento do transporte.
Outra questão levantada é a necessidade de planejamento em escala metropolitana. A adoção da tarifa zero de forma isolada em apenas um modal ou município poderia provocar desequilíbrios na distribuição dos passageiros entre os diferentes sistemas.
Por isso, a discussão sobre transporte gratuito vai além da retirada da catraca. O principal desafio é definir quem financiará o serviço, garantir recursos estáveis e, ao mesmo tempo, melhorar a qualidade do transporte para que a tarifa zero seja sustentável no longo prazo.
*Da Agência Fonte Exclusiva








