Um experimento instalado a cerca de 1,6 quilômetro abaixo da superfície da Terra pode ter registrado um sinal relacionado à matéria escura, um dos maiores mistérios ainda não solucionados pela física.
O evento foi identificado pelo LUX-ZEPLIN (LZ), detector instalado em uma antiga mina de ouro em Dakota do Sul, nos Estados Unidos.
O resultado foi apresentado nesta terça-feira (1º), durante uma conferência científica no Japão, e chamou a atenção dos pesquisadores que estudam as partículas que podem compor a matéria escura.
Apesar da importância do registro, os cientistas fazem uma ressalva: o evento, por enquanto, não é suficiente para confirmar a existência de uma partícula de matéria escura. Trata-se de um único sinal, que ainda precisa ser analisado e comparado com outras possíveis explicações.
Por que o detector fica tão fundo?
A localização do LZ não é por acaso. O equipamento foi instalado em uma região subterrânea para reduzir a interferência provocada por partículas que chegam à superfície vindas do espaço.
Quanto mais protegido estiver o detector, maiores são as chances de identificar interações extremamente raras. O experimento utiliza xenônio líquido para tentar registrar os efeitos produzidos quando partículas atravessam o material e interagem com seus átomos.
Foi justamente nesse ambiente que surgiu o evento considerado potencialmente interessante pelos pesquisadores.
Sinal apareceu em interação com xenônio
Segundo os cientistas, o evento pode ter ocorrido quando uma partícula atingiu o núcleo de um átomo de xenônio, provocando uma pequena emissão de luz ultravioleta.
O comportamento registrado apresenta algumas características que podem ser compatíveis com as chamadas WIMPs, sigla em inglês para partículas massivas de interação fraca.
As WIMPs estão entre as principais candidatas propostas para explicar a matéria escura. A hipótese é que essas partículas interajam muito pouco com a matéria comum, o que ajudaria a explicar por que são tão difíceis de detectar.
Até hoje, porém, nenhuma WIMP foi identificada de forma conclusiva.
O estudo foi publicado na revista Physical Review Letters. Mesmo assim, os próprios pesquisadores destacam que o resultado deve ser tratado com cautela. Uma descoberta científica desse porte exigiria uma evidência estatística muito mais forte, além da eliminação de outras possíveis fontes para o sinal.
O que é matéria escura?
A matéria escura recebe esse nome porque não pode ser observada diretamente por meio da luz. Ela não emite, absorve ou reflete radiação eletromagnética de uma forma que permita sua identificação pelos telescópios convencionais.
Sua existência é percebida principalmente pelos efeitos gravitacionais que exerce sobre a matéria visível.
Estrelas, galáxias e grandes aglomerados apresentam movimentos e distribuições que não podem ser completamente explicados apenas pela quantidade de matéria que conseguimos observar. A hipótese da matéria escura ajuda a explicar esses fenômenos ao considerar a presença de uma grande quantidade de matéria invisível.
Os cientistas acreditam ainda que ela tenha desempenhado um papel importante na formação das estruturas do universo, funcionando como uma espécie de base gravitacional para a organização da matéria comum.
Um único evento ainda não basta
O principal desafio para o LUX-ZEPLIN agora é descobrir se o sinal observado realmente tem relação com a matéria escura ou se foi provocado por outro fenômeno.
Como o registro é isolado, os pesquisadores ainda não consideram que exista evidência suficiente para anunciar uma descoberta. Será necessário observar novos eventos e reunir dados capazes de mostrar se o comportamento se repete.
Caso uma futura análise confirme que se trata de uma interação causada por uma partícula de matéria escura, o resultado poderá representar um avanço histórico para a física e a cosmologia.
Por enquanto, entretanto, o que existe é uma pista promissora — e não a confirmação de que a matéria escura finalmente foi encontrada.
*Da Agência Fonte Exclusiva








