O debate sobre a obrigatoriedade do diploma de Jornalismo voltou a ganhar espaço. E, para mim, esse não é apenas um debate jurídico ou acadêmico. É uma discussão que toca diretamente a vida de quem escolheu o jornalismo como profissão e que sabe, na prática, o preço de chegar até aqui.
Eu sei o que significa conquistar um diploma de Jornalismo. Sei que, por trás daquele documento, existem anos de faculdade, provas, trabalhos, apresentações, estágios, noites de estudo, dificuldades financeiras, renúncias e, principalmente, a persistência de quem decidiu se preparar para exercer uma profissão.
Por isso, quando vejo a possibilidade de esse debate ser retomado, não consigo enxergar o diploma simplesmente como uma exigência burocrática. Para quem estudou Jornalismo, o diploma representa uma conquista.
E representa também uma responsabilidade. É importante fazer uma distinção que, muitas vezes, acaba sendo ignorada. Eu não sou contra blogueiros, influenciadores digitais, produtores de conteúdo ou qualquer pessoa que queira utilizar a internet para se comunicar.
A liberdade de expressão é fundamental e deve ser preservada. Qualquer pessoa pode ter um canal, um blog, um perfil nas redes sociais, produzir vídeos, comentar acontecimentos e compartilhar informações.
Mas existe uma diferença entre produzir conteúdo e exercer profissionalmente o jornalismo. E essa diferença precisa ser respeitada.
Ter milhares ou até milhões de seguidores não transforma automaticamente alguém em jornalista. Ter um celular, um microfone, uma câmera e acesso às redes sociais também não.
O jornalismo profissional exige preparação. Um jornalista precisa aprender a apurar uma informação, confrontar versões, identificar fontes, checar dados, compreender legislação, conhecer princípios éticos e entender que uma informação publicada pode produzir consequências reais na vida de outras pessoas.
E isso não se aprende simplesmente acumulando seguidores. Aprende-se também em uma trajetória de formação.
Eu penso, sobretudo, em quem fez o caminho completo. Em quem entrou em uma faculdade sem saber exatamente quais dificuldades encontraria pela frente. Em quem conciliou estudos e trabalho.
Em quem enfrentou provas, trabalhos, seminários e estágios. Em quem precisou abrir mão de tempo com a família e de momentos de lazer para cumprir as obrigações acadêmicas.
Penso em quem recebeu o diploma e sentiu que, naquele momento, estava conquistando muito mais do que um certificado. Estava conquistando o direito de dizer: eu me preparei para isso.
É justamente por isso que considero injusto tratar como se fossem exatamente a mesma coisa trajetórias completamente diferentes. Não estou dizendo que uma pessoa sem diploma seja incapaz de produzir um conteúdo relevante. Evidentemente, não é isso.
Também não estou dizendo que todo jornalista formado seja necessariamente competente. O diploma, sozinho, não garante talento, caráter, ética ou qualidade profissional.
Mas formação não deixa de ser importante por causa disso. Um diploma não faz alguém ser um bom jornalista automaticamente. Porém, ele demonstra que aquela pessoa percorreu uma etapa de preparação específica para exercer aquela profissão.
E isso tem valor. Principalmente em um momento em que vivemos uma verdadeira avalanche de informações.
Hoje, qualquer pessoa pode publicar uma informação em segundos. Uma notícia verdadeira pode circular ao lado de uma mentira. Um fato pode aparecer misturado a uma opinião. Um boato pode ganhar milhares de compartilhamentos antes mesmo que alguém tenha tempo de verificar se é verdadeiro.
Nesse cenário, o trabalho jornalístico profissional se torna ainda mais necessário. O jornalista precisa ter compromisso com a apuração.
Precisa saber que publicar primeiro nem sempre é mais importante do que publicar corretamente. Precisa entender que uma acusação exige responsabilidade, que uma fonte precisa ser preservada quando necessário e que um erro jornalístico pode atingir a reputação, a vida profissional e até a segurança de uma pessoa.
É uma responsabilidade enorme. Por isso, defender a formação profissional não significa defender uma reserva de mercado nem tentar impedir que as pessoas se expressem.
Significa reconhecer que jornalismo é profissão. Assim como tantas outras atividades exigem formação específica, o jornalismo também deveria valorizar quem decidiu percorrer esse caminho.
O mundo mudou. A comunicação mudou. O jornalismo mudou. As redações mudaram, a televisão mudou, o rádio mudou, os jornais mudaram e a internet transformou completamente a maneira como as pessoas consomem informação.
Mas uma coisa não deveria mudar: a responsabilidade de quem se apresenta profissionalmente como jornalista.
O debate que agora volta ao Supremo Tribunal Federal é uma oportunidade para que a sociedade discuta essa questão com maturidade. Não se trata de colocar jornalistas contra influenciadores. Não se trata de combater a internet. E muito menos de limitar a liberdade de expressão.
Trata-se de discutir o valor da formação profissional e o respeito por quem passou anos se preparando para exercer o jornalismo. Porque existe uma diferença entre ter audiência e ter formação.
Existe diferença entre ser conhecido na internet e ser profissional de imprensa. Existe diferença entre opinar sobre uma notícia e trabalhar diariamente para apurá-la. E existe diferença entre simplesmente publicar uma informação e assumir a responsabilidade profissional por aquilo que está sendo publicado.
Eu defendo o diploma porque conheço o esforço que existe por trás dele. Conheço o sacrifício de quem estudou. Conheço a expectativa de quem entrou em uma faculdade sonhando com uma carreira. Conheço a sensação de finalmente receber o diploma depois de anos de dedicação.
E, por isso, não consigo aceitar que essa trajetória seja tratada como algo secundário. Jornalista não é jornalista porque tem seguidores. Não é porque aparece diante de uma câmera. Não é porque criou um perfil na internet. Não é porque conseguiu audiência.
Jornalista é quem escolheu essa profissão e se preparou para exercê-la com conhecimento, técnica, ética e responsabilidade. O diploma não é uma garantia de perfeição.
Mas é o reconhecimento de uma formação. É o resultado de uma caminhada. É a marca de uma escolha profissional.
E, para quem percorreu todo esse caminho, ele representa muito mais do que um pedaço de papel. Representa anos de sacrifício, estudo e dedicação para exercer uma profissão que tem como principal matéria-prima algo que pode transformar a sociedade: a informação.
Por isso, acredito que o diploma de Jornalismo merece ser valorizado. Não para impedir ninguém de falar.
Mas para que, quando alguém disser que é jornalista, essa palavra continue carregando o peso, a responsabilidade e o respeito que uma profissão tão importante merece.








