Uma pesquisa sobre violência contra a mulher revela que mais da metade das brasileiras entrevistadas afirma já ter sido vítima de algum tipo de agressão praticada por parceiros ou ex-parceiros.
O levantamento foi divulgado nesta quarta-feira (29) pelo Instituto Patrícia Galvão e pelo Instituto Locomotiva e integra o estudo “20 anos da Lei Maria da Penha: percepção da sociedade brasileira”.
A pesquisa ouviu 1,5 mil pessoas com 16 anos ou mais em todas as regiões do país. O objetivo foi analisar como a população enxerga a violência de gênero e avaliar a percepção sobre os efeitos da legislação criada para combater agressões no ambiente doméstico e familiar.
O levantamento também evidencia uma diferença entre as respostas de homens e mulheres. Enquanto mais da metade das entrevistadas relatou ter passado por situações de violência em relacionamentos, 11% dos homens que já tiveram relacionamentos com mulheres disseram ter cometido algum tipo de agressão contra parceiras ou ex-parceiras.
Violência psicológica lidera relatos
Entre os tipos de violência identificados, a psicológica aparece como a mais mencionada pelas mulheres, seguida pela violência física. Os resultados também apontam que parte da sociedade ainda encontra dificuldades para reconhecer determinados comportamentos como formas de agressão.
Segundo a pesquisa, sete em cada dez mulheres acreditam que os homens ainda não identificam determinadas atitudes como violência. O dado chama atenção principalmente para situações que não envolvem agressões físicas, mas que podem causar impactos significativos às vítimas.
A busca por ajuda ou pela responsabilização dos autores também enfrenta obstáculos. A sensação de impunidade foi mencionada por 56% das mulheres entrevistadas como uma das principais dificuldades para denunciar. Outros 39% apontaram a demora da Justiça na tramitação dos processos relacionados à violência doméstica.
Procura por atendimento cresce
Os dados foram divulgados em meio ao aumento da procura por serviços destinados ao atendimento de mulheres vítimas de violência. De acordo com os institutos responsáveis pelo levantamento, a Central de Atendimento à Mulher registrou crescimento de 45% no número de atendimentos em 2025 na comparação com o ano anterior.
O volume equivale a aproximadamente 425 atendimentos diariamente, demonstrando a demanda por orientação, acolhimento e encaminhamento de casos relacionados à violência.
A pesquisa também investigou como homens e mulheres reagiriam caso presenciassem uma agressão. Entre as mulheres, a resposta mais frequente foi procurar a polícia ou outras autoridades. Entre os homens, predominou a intenção de intervir diretamente na situação, com ou sem o uso de força.
A Delegacia da Mulher aparece como o serviço de apoio mais conhecido pelas entrevistadas. Cerca de três em cada quatro mulheres disseram conhecer esse tipo de atendimento.
Lei Maria da Penha é vista como instrumento de proteção
O levantamento também avaliou a percepção da população sobre a Lei Maria da Penha, que completa duas décadas e se tornou um dos principais mecanismos legais de combate à violência doméstica e familiar contra mulheres no Brasil.
A maioria das mulheres ouvidas identifica resultados positivos associados à legislação. Sete em cada dez entrevistadas afirmaram que a lei exerce efeitos concretos em suas vidas, enquanto 54% disseram se sentir mais protegidas devido à existência da norma.
Outro aspecto destacado é o papel da legislação na conscientização. Para 75% das brasileiras participantes, a Lei Maria da Penha contribui para ampliar o conhecimento das mulheres sobre os riscos e situações relacionadas à violência.
A percepção sobre o período anterior à criação da legislação também aparece no estudo. A maioria das entrevistadas considera que, antes da lei, os agressores enfrentavam maior impunidade e as vítimas tinham menos mecanismos de proteção.
Conhecimento sobre tipos de violência ainda é desigual
Apesar do reconhecimento da importância da Lei Maria da Penha, a pesquisa mostra que o conhecimento sobre as diferentes formas de violência previstas na legislação não é uniforme.
A violência física é a modalidade mais conhecida entre as entrevistadas: 88% afirmaram saber que esse tipo de agressão está contemplado pela lei. Já em relação à violência patrimonial, o percentual caiu para 46%.
Os resultados indicam que, mesmo com os avanços associados à legislação, ainda há espaço para ampliar o conhecimento da população sobre as diversas formas de violência doméstica e familiar.
Para os responsáveis pelo estudo, os dados demonstram avanços na percepção social e na proteção proporcionada pela Lei Maria da Penha, mas também evidenciam a permanência da violência de gênero como um problema estrutural. O enfrentamento da questão envolve ações integradas de prevenção, conscientização, atendimento, proteção e responsabilização.
*Da Agência Fonte Exclusiva








