O avanço do crime organizado no Brasil pode estar ocorrendo de forma silenciosa, mesmo com a redução de indicadores tradicionais de violência, como homicídios e roubos. O alerta foi feito pelo especialista em segurança pública Leandro Piquet Carneiro durante audiência da CPI do Crime Organizado, realizada nesta terça-feira (31).
Pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV), Carneiro explicou que a queda nos índices de criminalidade não representa necessariamente um enfraquecimento das organizações criminosas. Segundo ele, esse cenário pode indicar maior controle territorial por facções e a migração para atividades menos visíveis, como fraudes digitais, contrabando e comércio ilegal.
De acordo com o especialista, países da América Latina vêm registrando redução nas taxas de homicídio nos últimos anos. No Brasil, estados mais populosos e com maior renda também apresentaram queda nos índices de assassinatos e roubos entre 2017 e 2024. Ainda assim, ele destacou que essa melhora precisa ser analisada com cautela.
Carneiro apresentou dados de edições recentes do Anuário Brasileiro de Segurança Pública para ilustrar a tendência. Em Santa Catarina, por exemplo, houve redução de cerca de 45% nas mortes violentas intencionais. Já Minas Gerais registrou queda próxima de 75% nos roubos de veículos no período analisado.
Durante a audiência, o pesquisador destacou que uma das principais fontes de receita do crime organizado atualmente é o comércio irregular de produtos legais, como combustíveis, cigarros, medicamentos e fertilizantes. A combinação de fiscalização insuficiente, lacunas regulatórias e crescimento do comércio eletrônico torna essas práticas mais atrativas para grupos criminosos.
Ele citou como exemplo o estado de São Paulo, onde esse tipo de mercado movimentou cerca de R$ 22 bilhões em 2024. No mesmo período, as fraudes bancárias digitais somaram R$ 10,1 bilhões, segundo dados da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).
O relator da CPI, Alessandro Vieira, ressaltou que o conceito de crime organizado vai além da imagem tradicional associada às periferias. Para ele, é necessário ampliar a compreensão sobre a atuação dessas redes, que também operam em setores econômicos estruturados.
Outro ponto abordado foi o papel do consumidor na manutenção do mercado ilegal. Segundo pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP) em 2025, cerca de 20% dos entrevistados afirmaram estar dispostos a adquirir produtos irregulares, como combustíveis, eletrônicos e roupas, caso haja vantagem financeira.
Para Carneiro, esse comportamento contribui diretamente para o fortalecimento das organizações criminosas. Ele destacou que consumidores mais conscientes e alinhados às normas legais tendem a reduzir a demanda por esse tipo de produto.
Durante o debate, o senador Hamilton Mourão questionou possíveis caminhos para enfrentar o problema. Em resposta, o especialista defendeu maior integração entre forças de segurança, Ministérios Públicos e órgãos de fiscalização.
Segundo ele, a divisão de competências entre União, estados e municípios, além da separação entre diferentes corporações policiais, dificulta ações coordenadas. Carneiro sugeriu que a criação de estruturas específicas para investigar crimes complexos pode contribuir para melhorar a eficiência no combate ao crime organizado.
A comissão também aprovou novas convocações no âmbito das investigações. Entre elas, está a do ex-presidente do Banco Central do Brasil, Roberto Campos Neto, que não compareceu à sessão anterior após decisão do Supremo Tribunal Federal que transformou sua convocação em convite.
Além disso, os parlamentares aprovaram a convocação de autoridades e empresários ligados a apurações envolvendo o chamado Banco Master, incluindo o ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, e o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro.
Também foram autorizadas quebras de sigilo bancário e fiscal, pedidos de informação e oitivas de testemunhas, ampliando o escopo das investigações sobre suspeitas de irregularidades financeiras e possíveis conexões com o crime organizado.
Outro nome que deve prestar depoimento é o desembargador Macário Ramos Júdice Neto, citado em requerimento apresentado pelo senador Magno Malta, que busca esclarecimentos sobre suposto favorecimento a organizações criminosas no Rio de Janeiro.
*Da Agência Fonte Exclusiva








