A discussão sobre adultização infantil ganhou força nesta semana após o influenciador digital Felca publicar um vídeo no YouTube denunciando casos do fenômeno na plataforma. No conteúdo, ele acusa o youtuber Hytalo Santos de produzir vídeos com teor sexual envolvendo crianças e adolescentes para atrair criminosos e pedófilos. Após a repercussão, o perfil de Hytalo no Instagram foi desativado.
O termo “adultização” descreve a exposição precoce de crianças e adolescentes a comportamentos e responsabilidades típicos de adultos, incluindo situações inapropriadas para sua idade. Segundo a psicóloga Marília Scabora, fundadora da Comunidade Tribo Mãe, no ambiente digital isso pode ocorrer quando conteúdos infantis recebem uma roupagem sexualizada, ou quando jovens passam a se preocupar de forma excessiva com aparência física, relacionamentos e aprovação social.
Esse amadurecimento forçado acelera etapas naturais de desenvolvimento e pode comprometer a saúde emocional e social. “A criança perde momentos essenciais de brincadeira e inocência, o que pode gerar ansiedade, baixa autoestima e dificuldades de socialização”, alerta Scabora. A falta de orientação adulta também fragiliza vínculos familiares, principalmente quando há pressão para manter determinada aparência ou assumir papéis que não cabem à idade.
Redes sociais e economia da atenção
O advogado Lucas Ruiz Balconi, doutor em Direito pela USP e especialista em Direito Digital, afirma que a arquitetura das redes sociais, voltada para a chamada “economia da atenção”, contribui para essa exposição. “Os algoritmos não são otimizados para a segurança infantil, mas para reter a atenção. Um vídeo inocente pode levar a conteúdos cada vez mais extremos, pois o sistema quer manter o usuário conectado pelo maior tempo possível”, explica.
Balconi destaca que, com a popularização das redes, houve incentivo para criadores de conteúdo usarem crianças como protagonistas, muitas vezes explorando danças, linguajar impróprio e temas adultos para gerar engajamento. Isso reforça a lógica de que a vida é uma “performance contínua” para uma audiência invisível, tornando os jovens mais vulneráveis a interações perigosas e à busca por validação externa.
Sinais de que seu filho pode estar sendo adultizado
Segundo Scabora, alguns indícios incluem poses sexualizadas em fotos e vídeos, uso de roupas e maquiagem típicas de adultos, e a publicação de conteúdos com temas de relacionamento ou sexualidade que a criança defende como adequados para a idade. Outro sinal de alerta é a dependência emocional de curtidas e comentários para validação pessoal.
“A pressão por likes e a ampla disseminação de imagens nas redes potencializam a reprodução de comportamentos adultificados de forma mais rápida e intensa do que ocorreria presencialmente”, afirma a psicóloga.
Como proteger crianças e adolescentes online
Para o engenheiro de computação Allan de Alcântara, o acesso irrestrito a dispositivos conectados, aliado à falta de filtros e supervisão, é um dos principais fatores de risco. Ele recomenda instalar softwares de controle parental, bloquear redes sociais inadequadas, configurar roteadores com filtros e, sobretudo, acompanhar de perto a navegação dos filhos.
Balconi reforça a importância de criar uma “governança digital familiar” — um conjunto de regras e conversas que estimulem o uso crítico da internet. Ele lembra que o exemplo dos pais é fundamental: “A proteção começa pela gestão consciente da imagem da criança, que deve ser tratada como um dado sensível, não como ativo para gerar engajamento.”
Resposta das plataformas
Em nota ao TechTudo, a Meta informou que adota medidas para proteger menores, como a “Conta de Adolescente” no Instagram, Facebook e Messenger, que oferece uma experiência mais restrita para usuários de 13 a 16 anos. A empresa afirma também identificar proativamente conteúdos de exploração infantil e sexualização explícita de menores, removendo postagens e contas envolvidas.
Da Agência Fonte Exclusiva.







