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Rio de Janeiro: a cidade do fuzil e da dor que já não surpreende

A violência perdeu o impacto não por falta de dor, mas por excesso dela. A tragédia não silencia — é interrompida por outra. Entre a sedução do crime e a falência do Estado, a dor vira paisagem. E quando o sofrimento se normaliza, o que ainda nos comove?

Karoline Barbosa Por Karoline Barbosa
12/06/2025 - 15:13
em Opinião
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"Tiros, medo, rotina: como o Rio de Janeiro se acostuma com a violência. Entenda a dessensibilização, a falha do Estado e o tráfico como 'opção' para jovens. Uma reflexão urgente sobre o absurdo que virou normal."

Imagem: IA

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Você ouve tiros. Se assusta.

O corpo reage.

O coração dispara. Mas a vida continua. Porque precisa continuar.

É preciso chegar ao trabalho, levar o filho à escola, cumprir o que o dia exige — mesmo depois de atravessar o medo.

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Será que ainda acreditamos na política ou já perdemos a esperança?

A rotina do Rio de Janeiro nos obriga a seguir, mesmo quando tudo grita para parar.

Você assiste a um vídeo de bandidos armados com fuzis. Se indigna.
E logo em seguida já está lendo a notícia de um ônibus incendiado.

A violência ainda choca — mas o choque não dura.

Porque logo vem outra.
E depois outra.
E mais outra.

A gente se expõe, se anestesia — e se acostuma.

Não por escolha. Mas porque não dá para parar toda vez que o absurdo atravessa a cidade.

A dessensibilização não é um defeito moral. É uma reação neurológica e social ao excesso. A exposição constante à violência, reforçada pela repetição midiática, dilui o impacto. A tragédia, transmitida ao vivo, comentada em tempo real, se torna parte do cotidiano.

E quando a dor se torna cotidiana, ela não desaparece — apenas deixa de doer da mesma forma.

Essa normalização, no entanto, não surge do nada. É consequência de um contexto em que a violência não é exceção: é regra.

A população, descrente das instituições, mergulha em discursos punitivistas, muitas vezes repetindo frases como:
“Bandido bom é bandido morto.”

Não por frieza, mas por desespero e cansaço.
Por acreditar que nada mais funciona.

A crueldade cresce quando o medo vira rotina e o Estado, ausência.

Enquanto isso, a ausência do Estado se manifesta em escolas sucateadas, postos de saúde sem estrutura, oportunidades que nunca chegam.

E, nesse vácuo, o crime se apresenta como solução. Para muitos jovens, o tráfico oferece algo que o Estado não entrega: reconhecimento, estrutura, pertencimento.

Não é só sobre dinheiro. É sobre status. É sobre ser visto. Ser alguém.

Como dizem nas próprias músicas que nascem das periferias:
“Se eu morrer, eu morro pelo bonde.”

É o senso de missão, de lealdade, de identidade — que a sociedade formal não oferece.

A criminalidade se reinventa com as ferramentas do presente: redes sociais, influenciadores, músicas que vendem a imagem do sucesso ligado ao crime. Carros do ano, roupas de marca, celulares de última geração.

Isso alimenta um modelo de sucesso baseado em status e consumo.

E, nesse cenário, o tráfico vira alternativa de vida — e, para muitos, também de morte.

Enquanto isso, a violência continua nos jornais, nos feeds, nas janelas.

Os fuzis seguem apontados. Os corpos seguem caindo.

E o espanto, pouco a pouco, vai virando silêncio.

Karoline Barbosa
Psicóloga | Colunista sobre comportamento, saúde mental e cultura digital | Produção de conteúdo com base em Psicologia Social, me siga no Linkedin.

Tags: #CulturaDoMedo#DesigualdadeSocial#DireitosHumanos#EstadoAusente#FavelasRJ#ImpactoSocial#JuventudeEPeriferia#NormalizaçãoDaViolência#RiodeJaneiro#RotinaDoMedo#SegurançaPública#SociedadeAnestesiada#TráficodeDrogas#ViolênciaNasPeriferias#ViolênciaUrbana
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Karoline Barbosa

Pós-graduanda em neuropsicologia, avaliação psicológica e psicodiagnóstico e autismo na adolescência e vida adulta, com formação em ABA naturalista e Neurociências do Autismo.

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