Até meados do século XX, era comum que crianças francesas recebessem vinho durante as refeições escolares. Acreditava-se que fortalecia os ossos e combatia micróbios. Durante a Revolução Industrial, crianças passavam o dia em fábricas, operando máquinas e cumprindo jornadas exaustivas.
Em ambos os casos, ninguém via problema. Era o que se fazia, o que se aceitava — o que era “normal”. A infância, como compreendemos hoje, sequer existia como conceito.
O que estamos aceitando como “normal” hoje?
Duas práticas vêm ganhando espaço sem que a gente pare para pensar:
• A medicalização precoce da infância
Não se trata de condenar o uso de medicamentos — em muitos casos, eles são fundamentais. O que preocupa é o uso apressado e excessivo de substâncias potentes em crianças pequenas, muitas vezes para silenciar comportamentos que simplesmente fogem da expectativa adulta. A medicação não deveria ser um silenciador, mas um recurso terapêutico, usado com critério, escuta e acompanhamento. E, quando possível, com perspectiva de retirada.
• A exposição precoce a telas
Bebês e crianças pequenas têm sido expostas por horas a celulares, tablets e televisores — muitas vezes desde os primeiros meses de vida. A oferta constante de estímulos visuais e sonoros interfere no desenvolvimento da linguagem, no sono, na capacidade de atenção e nas interações sociais.
Além disso, já existem estudos que mostram que a exposição excessiva às telas pode gerar comportamentos que se assemelham ao TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade) — o que aumenta o risco de diagnósticos equivocados.
Em alguns casos, a criança não tem um transtorno; ela tem um cérebro em desenvolvimento exposto a estímulos digitais intensos, que seu sistema nervoso ainda não é capaz de processar de forma saudável. Ainda assim, cresce o número de laudos, rótulos e prescrições.
As telas, então, deixam de ser apenas entretenimento. Tornam-se um fator de risco silencioso — e amplamente aceito.
Por que o novo assusta — e o velho conforta?
A psicologia social chama de dissonância cognitiva o incômodo que sentimos quando uma ideia nova desafia nossas crenças antigas. Em vez de repensar, tendemos a rejeitar. Isso explica por que é tão difícil acolher mudanças — mesmo quando elas são necessárias. O que é familiar parece mais seguro, mesmo que esteja ultrapassado.
Hoje, essas práticas parecem aceitáveis. Algumas até são vistas como “cuidados”. Mas talvez, daqui a alguns anos, a gente se pergunte como pôde achar tudo isso normal. Assim como hoje olhamos com espanto para o vinho das crianças e o trabalho infantil, o futuro também pode nos julgar pelo que aceitamos calados.
Karoline Barbosa
Psicóloga | Colunista sobre comportamento, saúde mental e cultura digital | Produção de conteúdo com base em Psicologia Social, me siga no Linkedin.








