Mais do que uma data simbólica, o 2 de abril deveria ser um ponto de partida: um dia para reforçar que a conscientização sobre o autismo precisa ser prática, contínua e cotidiana.
Enquanto se acendem luzes simbólicas e se compartilham frases bonitas nas redes sociais, milhares de crianças autistas seguem sendo excluídas silenciosamente nos pátios das escolas, nas conversas familiares e até nos planejamentos pedagógicos. O que muitos chamam de “dificuldade de adaptação” ou “falta de limites” são, na verdade, expressões legítimas de uma neurodivergência que ainda é tratada com ignorância, preconceito e despreparo — inclusive por parte de quem deveria acolher.
A desinformação ainda é uma das maiores barreiras. Pais que não reconhecem — e, muitas vezes, não aceitam — os sinais. Escolas que resistem às adaptações. E, o mais alarmante, profissionais que deveriam acolher — e acabam afastando. Em vez de escuta, julgamento. Em vez de adaptação, exigência. Ainda hoje, é comum ver crianças autistas sendo “tratadas” por quem sequer compreende o que é o espectro. Profissionais que não sabem, mas agem como se soubessem, e acabam perpetuando erros que ferem.
Entre as frases que mais escutamos está a famosa: “Agora tudo é autismo”, ou “Todo mundo é autista hoje em dia”. Essas falas deslegitimam o diagnóstico e reforçam a ideia equivocada de que o aumento nos casos se deve a um excesso de rotulação. Mas a realidade é outra. O que temos hoje é maior acesso à informação, mais preparo — em parte — para identificar sinais e encaminhar para avaliação. As escolas têm feito mais encaminhamentos, os profissionais estão mais atentos, e conseguimos diagnosticar precocemente o que antes era ignorado ou mal interpretado.
Mas é importante reconhecer: se avançamos na identificação, estagnamos — ou até regredimos — no enfrentamento. O maior desafio hoje não está em descobrir o diagnóstico, mas no que vem depois dele. Falta preparo para lidar com a criança dentro da escola. Muitos profissionais não sabem quais estratégias pedagógicas ou adaptativas devem ser adotadas. O despreparo aparece com força justamente no momento em que mais se exige acolhimento, escuta e ação. É como se o diagnóstico chegasse, mas o suporte não.
E mesmo quando existe a figura do mediador escolar, outro problema frequente entra em cena: o papel mal compreendido dessa função. São muitos os relatos de famílias e professores que apontam que o mediador, muitas vezes, atua como uma espécie de “babá” da criança autista — uma presença passiva, restrita a acompanhar fisicamente, sem promover intervenções que favoreçam o aprendizado e a inclusão. O mediador não está ali para isolar, controlar ou simplesmente vigiar a criança, mas para facilitar sua participação nas atividades escolares e ajudá-la a desenvolver autonomia. É claro que não se trata de generalizar — há excelentes profissionais comprometidos com esse papel. Mas é urgente que se fale sobre esse despreparo estrutural que ainda persiste em muitas escolas.
Em vez de ensinar a criança a entender suas dificuldades e desenvolver estratégias para lidar com elas, o que muitas vezes acontece é o oposto — especialmente dentro do próprio círculo familiar ou social. Sua seletividade alimentar é chamada de frescura. Sua necessidade de rotina é tratada como teimosia. Seu jeito de se comunicar é criticado como inadequado. Ou seja, a criança é invalidada — emocionalmente, sensorialmente e até existencialmente. E quando se é repetidamente invalidado, aprende-se que há algo de errado em ser quem se é.
Muitas vezes, o que se tenta ensinar a uma criança autista não é o conhecimento em si, mas como se comportar de forma mais próxima do que é aceito socialmente. Ao invés de se perguntar como essa criança aprende, impõe-se a ela como ela deve ser. É uma forma de negação da subjetividade, como se a criança autista não fosse, antes de tudo, um ser humano como qualquer outro — único, irrepetível, com ritmos, desejos e dificuldades próprias.
Ninguém é igual a ninguém. Uma criança neurotípica pode ter dificuldades com matemática ou leitura, por exemplo, e essa dificuldade é muitas vezes acolhida com paciência, adaptação e reforço escolar. Mas quando a dificuldade vem acompanhada de um diagnóstico de TEA, o que se vê ainda é, em muitos casos, rejeição, impaciência ou rótulos apressados. Por que é tão difícil estender o mesmo olhar cuidadoso para a criança autista?
Cada intervenção inadequada, cada rejeição velada, cada tentativa de forçar um molde contribui para o enfraquecimento da autoestima dessa criança — e compromete diretamente sua chance de se tornar um adulto autônomo. Não é o autismo que impede a autonomia. É o ambiente hostil. É a falta de escuta, de empatia, de estrutura e de estratégias individualizadas.
Há quem diga que a criança autista “não acompanha”, “não interage” ou “não aprende como os outros”. Mas poucos se perguntam: será que a escola ensina como ela aprende? Será que a sociedade oferece espaço para que ela possa se expressar?
Inclusão não é colocar o aluno autista dentro de uma sala e esperar que ele se adapte sozinho. Inclusão de verdade exige esforço, formação, revisão de práticas e disposição para mudar.
E esse movimento não pode começar apenas na escola. Em casa, a criança também precisa de acolhimento, limites respeitosos e, principalmente, escuta. O excesso de expectativas sobre como ela “deveria ser” pode sufocar sua singularidade. E quando isso acontece cedo demais — quando ela é ensinada a se calar para ser aceita —, o que se forma é um adulto que aprendeu a sobreviver, mas não a viver com liberdade.
O Dia Mundial da Conscientização do Autismo não deveria ser apenas sobre aceitar o outro. Deveria ser sobre questionar a nós mesmos. Quantas vezes você já confundiu uma sobrecarga sensorial com birra? Quantas vezes esperou que uma criança “melhorasse” ao invés de mudar o ambiente que a machuca?
A criança autista precisa de oportunidades reais, não de tolerância protocolar. Precisa de gente disposta a aprender com ela — e não apenas sobre ela. Porque quando não damos às crianças autistas o espaço para serem quem são, estamos negando a possibilidade de que se tornem adultos autônomos, potentes e felizes.
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E mais importante ainda: a conscientização sobre o autismo não pode durar um único dia. Ela precisa acontecer o ano inteiro — nas escolas, nas famílias, nas decisões políticas e nas relações cotidianas. Porque quem é autista não tem um dia no calendário: tem uma vida inteira pela frente.
Karoline Barbosa é psicóloga e escreve sobre comportamento, juventude e saúde emocional.








