A Polícia Federal e o Ministério Público do Rio realizam uma operação nesta sexta-feira para desbaratar um esquema de gatonet no qual teria envolvimento o ex-bombeiro Maxwell Simões, o Suel, preso na investigação das mortes de Marielle Franc e Anderson Gomes.
Ao todo, sete mandados de busca e apreensão foram expedidos, além de mandados de prisão. Suel foi apontado por Élcio de Queiroz, em sua delação premiada, como cúmplice do ex-sargento da Polícia Militar Ronnie Lessa, acusado de matar a vereadora. Segundo o MP, provas apontaram ligação dele com o crime antes, durante e depois dos assassinatos.
A ação ocorre nos bairros de Lins de Vasconcelos, Rocha Miranda e Méier, na Zona Norte do Rio. Segundo a investigação, Suel teria arrendado seus pontos de gatonet quando foi preso pela primeira vez, em 2020. Na ação desta sexta, a PF tem como alvos endereços de pessoas que teriam envolvimento nesse esquema.
Um dos mandados de prisão preventiva que os agentes tentaram cumprir foi na sede da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) no Morro da Formiga, no bairro da Tijuca, também na Zona Norte, contra um policial militar. Os agentes da PF tiveram o apoio da Corregedoria da corporação, por meio da 1ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (1ª DPJM). De acordo com a 1ª DPJM, foram realizadas buscas pelo militar também na casa dele. A PM afirmou, em nota, que “colabora com as investigações e não compactua com desvios de conduta praticados por seus integrantes”.
No processo do caso do homicídio da vereadora, consta que Suel ajudava financeiramente as famílias de Lessa e Queiroz após a prisão dos dois pelo crime. De acordo com as investigações, a renda para esse benefício era proveniente da exploração ilegal do fornecimento de internet e TV a cabo.
“No que tange à conveniência da instrução criminal, resta suficientemente demonstrado nos autos que Maxwell, durante a custódia cautelar dos réus Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, assumiu as funções de aparelhamento das suas respectivas famílias, notadamente mediante o adimplemento das suas despesas por meio dos recursos espúrios auferidos por meio da exploração da atividade de captação clandestina de sinais na região de Rocha Miranda, popularmente conhecida como Gatonet. Tal expediente fora perpetrado pelo indiciado para pagar o silêncio dos demais executores para fins de se escudar da persecução penal”, diz trecho do processo.
Em delação premiada no início de julho, Élcio de Queiroz afirmou que Lessa e Suel tinham esquema de gatonet em Rocha Miranda, um dos bairros onde ocorre a operação policial.
De acordo com o delator, a milícia exercia poder sobre a comunidade de Jorge Turco, localizada entre os bairros de Coelho Neto, Colégio e Rocha Miranda. A divisão do local era feita assim: “todo asfalto que não é comunidade, é do Suel. […] Todas as ruas ali, algumas favelinhas, abaixo da comunidade é do Suel. A maior parte é do Suel”; já a menor, mais a dentro de Jorge Turco, era de Lessa.
As investigações apontaram que, com a prisão dos executores do crime contra Marielle, Suel, que ainda estava solto, também arcava com os custos da defesa da dupla, dinheiro proveniente do negócio ilegal.
“Neste contorno, verifica-se que, até os dias atuais, Maxwell exerce suas funções junto à horda, ao garantir a subsistência dos familiares dos executores custodiados e ao adimplir com os custos de suas respectivas defesas, tudo isso às expensas da exploração da atividade de captação clandestina de sinais na região de Rocha Miranda, popularmente conhecida como gatonet”, segundo trecho do processo.
No processo, ainda é destacado como o grupo que domina a população dessas regiões. Segundo as investigações, uma das maneiras de garantir o controle total nessas áreas é pelo emprego de ações de intimidação, em especial contra possíveis concorrentes:
“O terror decorrente de tal atividade fora devidamente retratado em um disquedenúncia no qual se informa que em uma rua situada em Rocha Miranda, durante os finais de semana, poderia ser encontrado ‘o miliciano e bombeiro Maxwell, vulgo ‘Suel’ que é dono de uma central de gatonet, o qual está impedindo moradores de instalarem seus serviços de internet, para que os mesmos solicitem os serviços da milícia. Relata que os moradores têm fios de internet cortados e são ameaçados’.”
Preso na operação Élpis
A operação Élpis, deflagrada em 24 de julho, foi a primeira ação desde o início de 2023. De acordo com o Ministério Público do Rio, Maxwell — único preso — era o dono do carro usado para esconder as armas que estavam em um apartamento de Lessa, acusado de ser um dos autores do assassinato e amigo de Suel. O ex-bombeiro também teria ajudado a jogar o armamento no mar.
Além disso, sua ligação com o caso Marielle, englobaria também o monitoramento dos passos da vereadora, a troca da placa do carro usado no assassinato e o desmanche do veículo. Cápsulas e munições usadas no crime também teriam sido desfeitas por ele.
Antes que o plano criminoso fosse executado, em 14 de março de 2018, acarretando na morte de Marielle e de seu motorista, Anderson Gomes, Ronnie Lessa teria tentado assassinar a parlamentar meses antes. Na ocasião, ele estava acompanhado pelo ex-bombeiro Maxwell e por Edimilson Oliveira, o Macalé.
Segundo Queiroz, Lessa o contou, durante uma festa de réveillon de 2017 para 2018, sobre a tentativa frustrada. Em tal ocasião, o ex-PM detalhou a noite que saiu com os dois: Maxwell era o motorista do Cobalt, ele no carona com sua submetralhadora e Edimilson no banco traseiro com um fuzil Ak-47.
Marielle estava num táxi, também no Estácio, bairro onde foi assassinada meses depois. Em seu desabafo ao amigo, o atirador contou que o trio se aproximou do veículo da vereadora, mas, apesar da ordem de emparelhar com o carro, Suel não conseguira se aproximar. O motorista explicou a Lessa que o carro dera um problema, mas o ex-Bope não acreditou e achava que ele tinha ficado com medo.
Antes de tal tentativa, Maxwell monitorara a vereadora por meses, acompanhando seus passos e destrinchando sua rotina. O ex-bombeiro é acusado de ter cedido um carro para a quadrilha de Lessa esconder as armas por uma noite, logo após a prisão do sargento, ocorrida em março de 2019, antes de um de seus comparsas jogá-las no mar para evitar a apreensão.
O carro usado no crime, um Cobalt prata, foi levado no dia seguinte às mortes para Rocha Miranda, por Maxwell, segundo contou Élcio de Queiroz na delação. No bairro, o veículo teria sido “picado”, como contou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, durante coletiva após a Operação Élpis.
— O que posso adiantar é que essa pessoa (Maxwell) participou de ações de acompanhamento e vigilância da vereadora e também do apoio logístico, com integração com os demais atores dessa cadeia criminosa percorrida. Então ele teve um papel importante nesse contexto inteiro, antes, durante e depois do caso, com a questão do carro. Para utilizar uma expressão popular, o carro foi picado, então houve a participação dele na ocultação desse carro — disse o diretor-geral da PF em 24 de julho durante coletiva.
PF fará operações contra os mandantes do crime
O ministro pontuou na última semana que novas operações deviam acontecer ainda no começo deste mês, contra alvos apontados nas investigações como mandantes do crime. Ele afirma não haver dúvidas da participação de outras pessoas, e que as “investigações mostram a participação das milícias e do crime organizado do Rio de Janeiro”. Até agora, a PF estava debruçada nos executores da parlamentar e de seu motorista.
— A novidade é que as provas colhidas e reanalisadas pela Polícia Federal confirmaram de modo inequívoco a participação de Élcio e Ronnie. Isso conduziu à delação do Élcio. Ao fazer a delação, ele confessa a própria participação, aponta a participação do Ronnie e acrescenta a participação decisiva do Maxwell. É o início de uma nova fase probatória. Alvos da busca de hoje estão relacionados à delação do Élcio.
Sobre a nova operação, o que avança nas investigações, o ministro disse:
— Passos concretos, efetivos, relevantíssimos que estão sendo dados mostram que estamos próximos de esclarecer. Não há crime perfeito. Outras novidades com certeza ocorrerão nas próximas semanas.
— Nosso foco agora é escalar essa investigação para que a gente possa, partindo de um alicerce, já mais estruturado e firme, buscar outras pessoas envolvidas na parte de autoria intelectual desse crime, de forma que a entrada da Polícia Federal, determinada pelo ministro da Justiça, ela não se deu por conta de federalização, como às vezes se confunde. Na verdade, existem investigações paralelas. A Polícia Civil ainda tem inquérito policial, ainda faz a sua investigação. Estamos fazendo a nossa. E nós estamos absolutamente focados em apurar. Estamos preocupados em escalar e buscar eventuais envolvidos na parte de autoria intelectual desse crime — disse o superintendente da Polícia Federal Leandro Almada.
De acordo com o promotor de Justiça e integrante da força-tarefa Eduardo Morais Martins, na denúncia consta que o crime foi cometido devido às causas defendidas pela vereadora. No dia do crime, a parlamentar deixava a Casa das Pretas, após cumprir uma agenda com uma roda de conversa. Ela estava acompanhada pelo motorista e pela assessora quando sofreram os ataques.
— Desde a denúncia de Ronnie e Élcio, já se coloca na denúncia que o crime foi praticado por conta também das causas defendidas por Marielle. Isso não exclui outras possíveis motivações. Isso está na denúncia e permanece.
Com informações do Jornal O GLOBO.








