Em um ato heroico de apenas três minutos, o prestador de serviços Joel de Oliveira, de 62 anos, conseguiu conter o ex-aluno que invadiu o Colégio Estadual Professora Helena Kolody, na manhã desta segunda-feira, em Cambé (PR), e fez duas vítimas, uma delas fatal.
Ele relatou ter ouvido barulhos de tiro assim que chegou na clínica de fisioterapia onde trabalha, perto da escola. Sem sequer pensar no risco de vida que correria, ele saiu em disparada em direção ao colégio, se identificou como policial ao atirador e o imobilizou com o pé até a chegada das viaturas de polícia.
— Eu ouvi barulhos de tiros e vi muita correria das pessoas saindo da escola. Uma funcionária da clínica tem um filho na escola e outros amigos meus também, então me coloquei no lugar deles. Confesso que na hora nem pensei, foi um instinto natural correr em direção a escola para tentar salvar mais alunos. Quando cheguei lá, vi o atirador e me identifiquei como policial. Ele parecia estar desarmado e se rendeu — conta o prestador de serviços, que nunca fez treinamento de segurança para agir em casos de violência.
De acordo com Joel, ele acessou a escola pela entrada principal. Neste momento, o atirador estava fazendo disparos contra algumas vidraças. Ao virar em um dos corredores da instituição, o prestador de serviços se deparou com o atirador, que, segundo ele, já havia colocado a arma em cima de um banco. Neste momento, afirma ter gritado “polícia, polícia” e o criminoso se rendeu de imediato.
— Quando eu encontrei o rapaz, ele estava colocando a arma em cima de um banco, não sei se para recarregar a munição ou se porque já pensava em parar com o ataque. Na hora, a única coisa que veio na minha mente foi falar que eu era policial, para tentar segurar ele — relata. — Eu penso que ele pode ter confundido o celular que estava na minha mão com uma arma depois que me identifiquei como policial. Então, ele se virou, deitou no chão e eu perguntei se ele tinha mais armas no corpo. Ele negou — completa Joel.
O ato heroico de Joel, que trabalha na clínica de fisioterapia há mais de 10 anos, vai de encontro com a informação dada pelo governador do Paraná, Ratinho Júnior, na tarde desta segunda-feira. De acordo com o governador, quem teria conseguido imobilizar o ex-aluno foi um professor da escola, graças a um treinamento voltado para profissionais da rede estadual nos últimos meses.
Ficha ainda não caiu
Ainda na tentativa de digerir todo o ocorrido, Joel afirma estar “em choque”. Mesmo com o grande feito de conter o assassino, ele lamenta não ter chegado a tempo para, quem sabe, salvar o casal de namorados Karoline Alves, de 17 anos, e Luan Augusto, de 16. A adolescente morreu no pátio da escola e o jovem encontra-se em estado grave no Hospital da Universidade Federal de Londrina.
— Doeu demais ver as crianças correndo com medo. Eu sinto na pele a dor desses pais porque tenho netos na escola. Eu conhecia os jovens baleados de vista porque frequentamos a mesma igreja. É uma dor sem fim, queria que ninguém tivesse se ferido — afirma.
Rodrigo Lima, assistente administrativo da clínica onde Joel trabalha, chegou ao local cerca de uma hora depois do ataque. Ao ouvir do funcionário o que ocorreu, ele agradeceu pela vida de Joel e das pessoas que ele conseguiu evitar que fossem feridas.
— Foi incrível o que ele fez. Uma verdadeira loucura, mas ele salvou muitas vidas — diz Rodrigo.
Entenda o caso
O ataque ao Colégio Estadual Professora Helena Kolody, em Cambé (PR), aconteceu nesta segunda-feira (19), por volta de 9h. O atirador, que era ex-aluno da escola, chegou à unidade de ensino dizendo que queria uma cópia de seu histórico escolar. Enquanto aguardava, teria pedido para ir ao banheiro, mas, na verdade, seguiu em direção o pátio para fazer os disparos. A arma estaria dentro de uma mochila. A PM também teria encontrado com ele uma machadinha, carregador, pistola e munição.
A Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros já ouviram alguns alunos. Na operação, um helicóptero do SAMU foi acionado para transferir a vítima para o hospital. O colégio estadual atende os ensinos fundamental e médio. Após o ataque, o governador Ratinho Junior (PSD) decretou luto oficial de três dias. As aulas da instituição foram suspensas.
Autoridades lamentam o crime
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lamentou o ataque a tiros no Colégio Estadual Professora Helena Kolody, em Cambé, norte do Paraná, nesta segunda-feira, e afirmou que é “urgente” construir um “caminho para a paz nas escolas”.
“Recebo com muita tristeza e indignação a notícia do ataque no Colégio Estadual Professora Helena Kolody, em Cambé, no Paraná. Mais uma jovem vida tirada pelo ódio e a violência que não podemos mais tolerar dentro das nossas escolas e na sociedade. É urgente construirmos juntos um caminho para a paz nas escolas. Meus sentimentos e preces para a família e comunidade escolar”, escreveu pelas redes sociais.
Já o ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, prestou solidariedade às vítimas e ofereceu apoio federal às ações do estado.
“Conversei com o governador Ratinho, do Paraná, manifestando solidariedade e colocando o governo federal à disposição para auxiliar o governo do Estado, em face da tragédia em uma escola estadual”, disse o ministro, no Twitter.
O governador do Paraná, Ratinho Júnior, afirmou que o autor do ataque será julgado e condenado pelo que chamou de “crime bárbaro”.
“A violência do brutal ataque em uma escola estadual em Cambé causa indignação e pesar. O assassino foi preso, será julgado e condenado pelo crime bárbaro que cometeu. Como governador e pai a minha solidariedade aos familiares nesse momento de dor tão profunda. Paraná está em luto”, afirmou o político, nas redes sociais.
Com informações do Jornal O GLOBO.








