Vê-se que a poesia marginal de Waldo Motta se distancia bastante, pela temática e pela forma, das preocupações ou do teor político daquelas de Leila Mícolis, Álvaro Alvim, Chacal e Charles e até mesmo Cacaso e outros. Em 1979, Waldo Motta publicou Pano Rasgado, seu primeiro livro de poemas, edição marginal. A partir de então é de expressiva continuidade sua produção poética em edições alternativas: Os anjos proscritos e outros poemas (1980); O signo na pele (1981); Obras de arteiro (1982); As peripécias do coração (1982); De saco cheio (1983); Salário da loucura (1984). Em 1987, a Fundação Ceciliano Abel de Almeida legitima a publicação intitulada Eis o homem, com poemas escritos entre 1980 e 1984.
Três anos depois, sairia Poiezen (1990), pela Massao Ohno (São Paulo), uma antologia de dez poemas que se constroem filosófica e linguisticamente. Em 1996, a Editora da Unicamp publica Bundo e outros poemas. Transpaixão (2009) é uma coletânea de poemas selecionados de vários livros de Waldo Motta.
Nas quatro vertentes temáticas (social, existencial, metapoética, intratextual) em que a obra se divide, o poeta mostra o seu processo de evolução estética e maturação espiritual. Porém, a maior novidade desta obra, indicada para o Vestibular da UFES 2010-2012, é que além de tratar explicitamente de temas esotéricos como a cabala, a numerologia, cosmovisões indígenas e afro-religiosas, ela radicaliza a intratextualidade. Eis o homem é o volume 30 da Coleção Letras Capixabas, da FCAA, então editora oficial da Universidade Federal do Espírito Santo. À época, chamado de “poeta indomável cobaia de um homem maldito”, Waldo Motta estava seriamente empenhado no estudo de sonhos, do contato com o I-Ching e na busca do seu interior humano.
Sua postura de afirmação do indivíduo consiste, nesse livro, “num confronto com a realidade por uma busca de afirmação do indivíduo perante essa realidade massacrante” (Aguiar 1984). A poesia de Waldo Motta se configura sobretudo dentro do que ele mesmo caracterizou como “incômoda”. Contudo, a sua produção mais recente vem mostrar, além do “enjoo” provocado pela sujidade dos temas, pelo escatológico em excesso, pelo homoerotismo frequente, condutor de certas perversidades religiosas e mundanas, além de um certo erotismo sagrado, mas sectário.
Seus poemas são permeados pelo deboche, pelo escracho e pela sardonia mais latente, jogando o poeta, em sua radicalidade maldita, no campo de uma poética que se procura na pesquisa e na forma: “Eu aprendi a captar Deus através dos paradoxos. Veja bem: para termos uma percepção mais plena de Deus, temos que admitir que ele é também essa beleza. No entanto, ele há de ser, primordialmente, o feio, o não aceito, a merda de onde todas as coisas se engendram” (1997, p. 21). E vai mais além: “Porque se Deus é a totalidade, aí nós temos que incluir o feio, o horroroso. Eu prefiro a visão de um Deus, que se confunde com a merda, com o cu, com o feio, com o proscrito e com o marginalizado”. (1997, p. 21) Na p. 21, atira: “Waldo Motta chegou para ocupar um espaço vago por aqui: o de grande poeta de inspiração homossexual.
E sua obra, descoberta pela Universidade de Campinas, mergulha nos mistérios eróticos da Bíblia e do corpo para desafiar o leitor a entrar num banquete escatológico, tão difícil quanto necessário”. Tendo vendido livros “de mão em mão” ainda na década de 70, do século passado, foi aos poucos “perdendo o pique”, porque, muitas vezes, pelo tipo de distribuição, se envolveu em algumas situações constrangedoras:
“A gente tem de dar explicações simplórias sobre sua vida e trabalho para satisfazer uma curiosidade dos eventuais clientes”. (Motta, 1984)
É realmente difícil para um poeta explicar que ninguém pode esperar dele um compromisso explícito ou tácito em relação a preconceitos, tabus, instituições, etc., embora seja este o compromisso maior de Waldo Motta nessa fase em que publicou Eis o homem (1987), aquele com a verdade mais perene, crua/cruel que, na maioria das vezes, pode mesmo en(o)j(o)ar. Entretanto, o poeta sempre se sentiu muito à vontade para dizer: ‘Eu não vim trazer a paz, mas a guerra” (Motta, 1984), já mostrando um olhar bem oblíquo no seu diálogo com a Bíblia, algo que se consubstanciará em Bundo e outros poemas (1996).
A trajetória do poeta, bastante conhecida no Espírito Santo e, agora, fora dele, tem a cara do que ele mesmo avalia ao dizer, anteriormente a sua chegada ao eixo Rio-São Paulo: “Desses anos de poesia, o saldo se resume na pedraria inútil que me atiraram, nos rapapés e no azedume que os meus olhos destilam” (Motta, 2002, p.13). Hoje, fala com muita tranquilidade: “Radicalizei” (Motta, 2002, p.12), referindo-se as suas mais recentes pesquisas e projetos (off)sina. Mesmo assim, olhando para trás, o saldo da produção marginal anterior a Eis o homem (Motta, 1987), toda publicada em São Mateus-ES, com a ajuda do comércio local é positivo. O Estado de São Paulo, Caderno Literatura (1984), fez os seguintes comentários a respeito desses aspectos:
Quando o sinal fecha para o trânsito, entre a Avenida Jerônimo Monteiro e a Rua Barão de Monjardim, no centro de Vitória, os meninos que estão nas calçadas se lançam sobre os carros com seus produtos. Oferecem limões, caquis ou goiabas aos motoristas, ou pedem esmolas. No meio deles, o poeta Waldo Motta, 24 anos, disputa também fregueses para sua mercadoria: o livro Salário da Loucura, definido por ele mesmo como uma explosão de indignação.








