Elize Matsunaga, condenada por matar e esquartejar o marido, está em liberdade condicional e trabalhando como motorista por aplicativo em Franca, no interior de São Paulo. A informação foi compartilhada em um perfil no Instagram sobre mulheres criminosas e viralizou nas redes, mas tem dividido opiniões. O passageiro que esteve no carro com ela defende a ressocialização.
“Ela está no direito dela de reingressar na sociedade, de ter o dinheiro dela”, afirma o passageiro Júlio César Candido de Souza.
Elize foi condenada a 16 anos e três meses de pena. Ela foi presa em 2012 por matar e esquartejar o marido, Marcos Kitano Matsunaga, na zona oeste de São Paulo, e desde junho de 2022 vive em Franca, onde comprou um apartamento.
Esta semana, informações sobre a nova rotina de Elize em Franca viralizaram nas redes sociais e internautas como Souza criticaram o que consideram uma exposição desnecessária.
Procurado para comentar o caso, o advogado de Elize, Luciano de Freitas Santoro, disse que não vai se manifestar e que ela não dá entrevistas devido a um contrato firmado com produtores de um documentário sobre a vida dela.
A reportagem fez contato com a Maxim, plataforma de mobilidade que, segundo o passageiro, foi usada para intermediar a corrida, e a empresa confirmou que Elize está cadastrada na base de motoristas do aplicativo.
Em nota, a Maxim informou que, para atuar como motorista na plataforma, os requisitos são usar um veículo em boas condições e ter carteira de habilitação e documentação do carro em dia.
A empresa afirmou que acredita na ressocialização do indivíduo e que não há lei municipal regulamentando o serviço de transporte por aplicativo, de modo a exigir que os motoristas apresentem periodicamente certidão de antecedentes criminais (leia a íntegra da nota no fim da matéria).
Corrida por aplicativo
Uma mulher educada e de conversa tranquila. Assim, o vendedor Júlio César Candido de Souza se refere a Elize Matsunaga ao relatar ter pegado uma corrida em Franca com Elize.
Souza disse à reportagem que é de São Paulo, mas vive há três meses em Franca, onde atua como vendedor. Ele contou que, como de costume, acionou na última quarta-feira (23) um aplicativo de mobilidade para ir de sua casa, na região do Residencial Flórida, até o shopping. Segundo ele, a plataforma utilizada é a Maxim, empresa com sede em Recife (PE), mas com atuação em diferentes cidades do país.
O passageiro conta que identificou Elize Matsunaga assim que visualizou o perfil no sistema, e chegou a comentar com a mãe, que estava em casa.
“Quando eu terminei de me arrumar eu olhei no aplicativo a foto e o nome, aí eu peguei e falei assim: mãe, essa mulher não é a Elize Matsunaga? Falei assim: mãe, é ela sim. Minha mãe até ficou na dúvida, porque o nome dela até então estava como Elize Araújo Giacomini, e o nome que a gente conhece é Elize Matsunaga”, comenta.
Embora surpreso e apreensivo, ele afirma não ter cancelado a corrida e desceu de seu apartamento para esperá-la na portaria do prédio em que mora. “Ela é um tipo de pessoa que não me amedronta, por tudo que ela já passou na vida dela.”
Ao entrar no carro, ele afirma ter encontrado uma mulher usando óculos escuros e máscara facial. Durante o trajeto, Souza conta que os dois tiveram uma conversa descontraída sobre o carnaval até a chegada ao shopping, onde desembarcou.
“Eu não quis falar nada, porque acho que seria constrangedor para ela, que às vezes pode ser um gatilho para ela, e ela estar querendo reingressar na sociedade e não precisaria ficar tocando no assunto.”
“Em momento algum cheguei a perguntar alguma coisa íntima para ela sobre o crime, como foi a prisão. Não perguntei nada. Ela pegou e falou: ‘os jovens de hoje em dia gostam dessa adrenalina de curtir carnaval, de beber demais’, aí ela veio conversando, perguntando se eu tinha bebido demais no carnaval, se eu tinha aproveitado com meus amigos”, diz.
Depois de descer do carro e de pagar pela corrida, o vendedor afirma que deu pontuação máxima no aplicativo pela cordialidade da motorista e que não teve motivos para sentir medo.
“A todo momento ela foi super, hiper, mega educada. Dei as minhas cinco estrelas para ela, porque realmente ela merece como condutora e como pessoa, porque ela não me desrespeitou.”
Ele conta que, apesar da recente exposição, espera que Elize possa ser reintegrada à sociedade. “Todo mundo merece uma segunda chance.”
Leia a íntegra da nota enviada pela Maxim:
“Inicialmente, informamos que não há lei municipal regulamentando o serviço de transporte por aplicativo, de modo a exigir que os motoristas apresentem periodicamente certidão de antecedentes criminais. Isso porque, conforme disposto na Lei nº 12.587, de 3 de janeiro de 2012, “compete exclusivamente aos Municípios e ao Distrito Federal regulamentar e fiscalizar o serviço de transporte remunerado privado individual de passageiros” e, dentre elas, a exigência de antecedentes criminais para o trabalho em aplicativos de transporte individual de passageiros.
Tendo em vista que a política da empresa é agir de acordo com a lei e por acreditarmos na ressocialização do indivíduo, bem como pelo direito ao trabalho ser um direito previsto em nossa Constituição Federal, observamos outros importantes requisitos ao admitir um motorista parceiro na plataforma, como a Carteira Nacional de Habilitação com os requisitos necessários e documentação regular do veículo, bem como boa conduta dentro das regras do aplicativo.
Por esses motivos, Elize Araújo Giacomini está cadastrada em nossa plataforma e operando corridas com um veículo e documentos devidamente aprovados pelo nosso setor de suporte. Tendo iniciado a aceitar pedidos neste ano de 2023, não houve qualquer reclamação ou notificação sobre sua conduta no aplicativo, em que é bem avaliada.
Isso acolhe nossa política de reinserção social do apenado, um direito de cada cidadão. Nesse sentido, Elize estar em livramento condicional ou eventual cumprimento de pena em regime aberto não deve ser um impeditivo de que a mesma possa trabalhar.
Essa motorista, assim como todos os demais, tem seus direitos e deveres explicitados no ato do cadastro, assim sendo acompanhados e auxiliados quando necessário, bem como são avaliados e notificados quando não cumprem com as diretrizes previamente acertadas. Elize Araújo Giacomini nunca foi notificada por conduta indevida, ou teve quaisquer reclamações de qualquer natureza.
Maxim Brasil.”
Relembre o caso
Depois de permanecer presa por dez anos, entre o regime fechado em Tremembé (SP) e o semiaberto, quando atuou com corte e costura, Elize conseguiu sua liberdade condicional em 2022 e, desde então, vive no interior de São Paulo sob uma série de restrições, como informar periodicamente sua ocupação e seu endereço à Justiça.
As informações são do g1.








