Hilda Hilst é inesgotável, sua obra nos traz a consciência de que o homem mora em sua linguagem, heidegerianamente falando, e nela tanto pode se ocultar como se denunciar, se mostrar e se esconder. Retomando alguns estudos meus sobre a obra desta autora genial, percebo, sem dúvida, que Hilda sabe e assume que está no que escreve.
É uma espécie de subjetividade narcísica, pois sua escrita é máscara e por isso é necessário arrancar-lhe a maquilagem para que ela, a escrita hilstiana, seja vista em sua plenitude. A vida está dentro da palavra em ação. A palavra porta a intensidade do gozo. Assim como da dor, gozo também.
Assim, em Rútilo Nada (2003), “… o homem se constitui como linguagem, apenas como linguagem, e justamente aquilo que o constitui é a maior barreira para o contato com outros homens; a linguagem que insere o homem no mundo e o dilui na grande rede de significações é a mesma que lhe recusa uma identidade e um sentido fixos.”
Em sua obra a palavra porta a intensidade do gozo porque tem papel especial na figuração intensa. Vendo a mulher em cárceres impostos pelo social, Hilda Hilst mostra ao seu leitor que é possível libertar-se dessa prisão, quando rompidos os preceitos e preconceitos que moldam o homem e a mulher, impedindo ambos de assumir sua face real. E é a linguagem a grande libertadora das maquiagens que tornam falsa a face do ser, artificializando-a, tornando possível ao texto hilstiano desnudá-la.
Por quê? A grande poeta e ficcionista e dramaturga (vários prêmios Jabuti) mostra que é possível com o exercício da linguagem que a própria linguagem a grande libertadora das maquiagens que tornam falsa a face do ser. Uma provocação e tanto da autora! Sua obra, toda sua obra, além, bem além da trilogia que com a poesia, sua primeira forma de expressão, a colocou na vitrine, dá a dimensão da essencialidade do viver.
Em entrelinhas, estão os muitos eteceteras a serem decodificados: a intensidade, a embriaguez e a paixão. Paixão pela vida como esta se nos apresenta, sem as fantasias que escamoteiam a face do real. Em seus arquivos, apenas, e tão somente, em preto e branco, a serem abertos, está documentada a profunda solidão do homem só, em meio a homens tantos. A mulher só, em meio a mulheres tantas.
Em Com os meus olhos de cão e outras novelas (1986), as três personagens, a razão, a fantasia e a proporção, metaforizados em Tadeu, Matamoros e Axelrod, perpassam toda sua obra em diferentes mas complementares formas de ser. Se o primeiro é a busca e presença do humano, traduzido em luxo e burguesia, Matamoros nos fala do amor da fantasia, como formas de viver, enquanto Axelrod Silva vê no erotismo e no amor o umbral do ser, o homem em sua plenitude.
Hilda Hilst está presente em todos os seus textos, é personagem principal, jamais coadjuvante! Seu narrador onisciente, suas personagens são sempre os tantos eus presentes em seu visceral exercício de viver. E esta visceralidade é um dos meus principais argumentos para a ótima literatura de Hilst, em explosão hermenêutica, que também muito magistralmente registra o diálogo de Hilda com a vida.
Estranho, complexo e desconfortável diálogo existencial, marcado por uma intensidade e uma lucidez que causam estranheza aos leitores, como se ela, uma escritora dita “maldita” o fosse realmente (não é!) afastando dela própria seus leitores, atribuindo-se à escritora a causa do distanciamento, sem assumir a própria incapacidade destes mesmos leitores de ver a vida através de outras lentes denunciadoras de uma outra forma de ser e estar no mundo. De ver o mundo! Afinal, não é tão ficcional a ficção hilstiana.
Quando entramos em seu universo, encontramos a falsa ficção: fotografias da vida, quer em momentos sublimes, quer em momentos menos nobres, marcados pelas formas de obscenidades que alimentam o viver nosso de cada dia, se considerarmos que Hilda Hilst não abre mão de ter o homem e a mulher, melhor a mulher e o homem como protagonistas centrais de seu documentar a vida.
Registrando o mundo pela ótica da mulher, Hilda quebra as lentes que eufemizam o acontecer e mostra a vida em sua obscenidade cultural, em percurso do baixo ao sublime e desficcionando sua literatura ficcional, metaforicamente grita: eu vi. Eu vejo, eu denuncio! São estas as faces plurais que marcam a obra singular e premiada desta escritora singular.








