A figura de Messi vai além dele ser o cara da seleção da Argentina — nesta Copa do Mundo ou na era pós Maradona. O craque também entra em campo neste domingo contra a França como o símbolo de esperança por dias melhores para o país, após anos de questionamento sobre a sua relação com a equipe e a terra natal.
uando se pergunta para os moradores da cidade de Rosário o motivo para a confiança de vitória na final da Copa, a resposta costuma ser a mesma: “Tenemos a Messi”. Temos Messi.
Não é só porque esta é a terra natal dele. O camisa 10 chega para a decisão contra a França como um dos melhores jogadores do torneio no Catar e artilheiro, com cinco gols. Salvou a equipe da eliminação precoce na fase de grupos e brilhou no mata-mata.
Para onde se olha, há pessoas com a camisa dele, cartazes dele, fotos dele, vídeos dele na TV. A imagem mais impressionante, e que provoca a reflexão sobre o que Messi representa para a Argentina, é o mural de 70 metros de altura exposto em um edifício no centro da cidade, perto do Monumento Nacional da Bandeira.
A obra é de autoria dos artistas Marlene Zuriaga, Jacinto Urteaga e Lisandro Urteaga, membros do grupo Imagina Pintura Mural. Eles já fizeram outros murais para Messi em Rosário, como por exemplo no bairro onde ele morou, La Bajada.
O trabalho de 534 metros quadrados levou um mês para ser concluído, entre novembro e dezembro do ano passado. Os artistas enfrentaram fortes ventos, chuva, muitas escadas todos os dias (não havia elevador no edifício), jornada do amanhecer ao anoitecer, fora a dificuldade de se realizar um projeto dessa dimensão.
— Descrevemos Messi com imagem, mas como fazê-lo em palavras? É uma pessoa que admiramos muito, não só pelo seu virtuosismo futebolístico, mas por transmitir algo especial. Ele mantém uma conexão com sua criança interna, que cresceu num bairro pobre de Rosário, superou a si mesmo e muitas coisas, sempre com humildade e simplicidade. Teve muitas quedas mas se levantou na melhor versão. É como um emblema para a Argentina — comentou Marlene Zuriaga.
Mas nem sempre Messi foi visto assim. Parte significativa da opinião pública o criticou durante anos, por supostamente não cantar o hino nacional, não ter sido criado na Argentina, não jogar pela seleção como fazia pelo Barcelona e por não conquistar títulos na mesma quantidade.
Antes do título da Copa América de 2021, em cima do Brasil no Maracanã, a equipe argentina atravessou 28 anos sem ganhar nada. Messi foi três vezes vice da Copa América e uma vez da Copa do Mundo, em 2014. O cenário era tão difícil que ele chegou a dizer em 2016 que ” a seleção tinha acabado para ele”.
— A vitória contra o Brasil mudou tudo. Você passou a ter elementos para construir uma história mítica, e o argentino precisava disso para colocá-lo num patamar de herói. Ele consegue atingir sensibilidades e identificações que estão além do futebolista. É isso o que o povo precisa para vê-lo como herói nacional — analisa o sociólogo Nicolas Cabrera, doutor em Antropologia pela Universidade Nacional de Córdoba.
Esperança em meio à “crise total”
O sucesso da Argentina nos últimos meses, com o títulos da Copa América e da Finalíssima, e em especial na Copa do Mundo, tem de certa forma aliviado o clima tenso no país.
A inflação em novembro foi de 4,9%, alta de 92,4% em comparação ao mesmo mês no ano passado. É o número mais alto desde a década de 1990. E a deterioração da renda levou quase 40% da população à pobreza. Em novembro entrou em vigor a política de “Precios Justos” para tentar conter o aumento dos preços de itens básicos.
No fim de novembro, o jornal “O Globo” noticiou que representantes do governo do presidente Alberto Fernández temiam que o mau desempenho na Copa do Mundo poderia aprofundar o clima de mal-estar social, ou até provocar novos protestos.
— O ditado que “A única saída da Argentina é Ezeiza”, em referência ao aeroporto de Buenos Aires, voltou com tudo. O país está numa situação socioneconômica muito ruim, com polarização política, representantes sem legitimidade. Nesse contexto, o futebol, a seleção e o Messi como símbolos são os únicos motivos de felicidade, orgulho e união nacional. A seleção argentina e o Messi trazem esperança num momento em que nenhuma outra pessoa traz — comentou Nicolas Cabrera.
Felizmente, a Argentina não foi eliminada na fase de grupos — muito por conta das atuações de Messi da partida contra o México em diante.
Por outro lado, o atual governo viu durante o mês da Copa a vice-presidente Cristina Kirchner ser condenada a seis anos de prisão, por corrupção. Ela não foi presa porque tem foro privilegiado.
Dezembro também ficou marcado por protestos em Buenos Aires contra os cortes promovidos em planos de assistência, por incompatibilidade de dados de beneficiários, e manifestações pedindo mais ajuda financeira em meio à crise econômica.
Na visão de Cabrera, a conquista da Copa do Mundo neste domingo pode trazer felicidade para o povo argentino, e Messi é a principal esperança para isso. Mas os problemas não vão sumir no dia seguinte.
Com informações do GE.








