Há duas semanas, o presidente da Islândia veio dar uma palestra em Cornell. Em meio as piadas que pareciam vir de um stand-up comedy, Guðni Th. Jóhannesson compartilhou uma história inusitada. Em 2017, quando visitava uma escola secundária em seu país, uma adolescente lhe perguntou sobre qual era sua pizza favorita. Ele disse que gosta de quase todas, mas se pudesse proibiria a pizza havaiana (aquela pizza com abacaxi!).
A brincadeira tomou proporções exageradas e ele acordou com jornalistas do Le Monde, The Guardian, Der Spiegel, entre outros pedindo que ele desse um comunicado oficial sobre os motivos para uma decisão tão radical. O preço do abacaxi foi afetado na bolsa e a importação do produto parecia em suspensão no país. A intenção era que fosse marcada uma reunião de emergência com a União Europeia. Jóhannesson, por outro lado, disse que nem sequer lembrava de tal afirmação e ficou impressionado que tal chiste tenha tomado tamanha dimensão.
A moral da história é, relembra o presidente e ex-professor universitário, que líderes políticos devem ter responsabilidade com o seu discurso. Jóhanneson aprendeu que mesmo “brincadeirinhas” podem ser interpretadas de outras formas quando você se torna presidente.
Infelizmente, parece que nem todos os mandatários aprenderam a lição do abacaxi. No Brasil, temos um ainda presidente que fez desde piada com pessoas sem ar pela Covid-19 a comentários racistas. Mas há pelo menos uma diferença central entre a Islândia e o Brasil. Enquanto o país europeu tem menos de 400 mil habitantes, nós temos aproximadamente 214 milhões.
Por essa razão, o nosso chefe-de-estado deveria saber que seus discursos geram mais impacto. Diferente de Jóhannesson que disse sentir vergonha pela polêmica desnecessária com a história da pizza, Bolsonaro sente orgulho de suas barbaridades. Aliás, o futuro ex-presidente também tem muito interesse na pizza da impunidade. Ou mais ou menos, ele lembra bem de Maquiavel quando exerce o lema “aos meus amigos favores, aos inimigos a lei”.
Talvez a diferença mais importante entre o presidente do pequeno país nórdico e o ainda presidente de um país continental como o Brasil seja a capacidade que Jóhannesson tem de dialogar. Além de assumir os erros, o presidente islandês disse que jamais gostaria de viver em um país onde o presidente tem poder de decidir sobre que sabores de lanches são aceitáveis.
No autoritarismo tropical, querem decidir sobre os banheiros, sexualidade, gênero, direito de ir e vir, intervenção militar e muito mais. Ah, mas não tem problema se a comida está contaminada por agrotóxico. Quem dera se o problema fosse só a pizza agridoce…
Tenho pensado se devíamos utilizar o teste do abacaxi em nossos assuntos políticos. Esse teste nos ajudaria a distinguir quem é líder de quem é arruaceiro. Quando a palestra do Jóhannesson começou, comentaram que o presidente da Islândia foi reeleito com 92% dos votos. Mesmo depois do mico mundial, o povo elegeu o presidente que favoreceu o diálogo e a liberdade de escolha sobre os modos de vida na Islândia, incluindo os sabores de pizza. Já em terras brasileiras, não houve reeleição pela primeira vez na história.
Talvez esse seja a nossa versão do teste do abacaxi…








