O navio que colidiu com a Ponte Rio-Niterói nesta segunda-feira levando caos e transtorno por toda a cidade não é nenhum desconhecido de quem passa diariamente pelo trecho que liga as duas cidades fluminenses. A embarcação, batizada de São Luiz, já esta ancorada no mesmo trecho há seis anos. Em 2018, uma matéria do GLOBO já alertava sobre o navio e seu destino incerto.
O São Luiz é um caso único na Baía de Guanabara, onde há mais de 100 embarcações adernadas, mas todas em estado tão decrépito que é impossível recuperá-las — como os navios Lintacosul e Bordine, na saída do Canal do Cunha.
Segundo a Secretaria Estadual do Ambiente, é competência da Marinha providenciar a retirada dessas embarcações. As autoridades até tentam, leiloando o corte das embarcações para que empresas de sucata reaproveitem o material. Em 2013, segundo a pasta, um homem arrematou por apenas R$ 680 a retirada de um dos navios que impedem a abertura do terminal pesqueiro, mas ele (Nelson Baptista Ruy, não encontrado pela reportagem) nunca concluiu o serviço. Está longe de ser caso único. Para se ter uma ideia da dimensão do problema, o Bateau Mouche, que naufragou no réveillon de 1989, causando a morte de 55 das 142 pessoas a bordo, só foi cortado e reaproveitado como sucata no segundo semestre do ano passado.
Em 2018, tripulantes do navio afirmavam que a embarcação só havia parado porque a última empresa que arrendou o navio não pagou o que era devido, nem fez a docagem que constava no contrato. Em 2013, uma revista gaúcha de assuntos navais descreveu assim a chegada do navio a Porto Alegre, onde fez uma entrega de sal potiguar:
“Não foi sem chamar atenção, já que o navio veio com todos os seus quatro guindastes totalmente erguidos. Fato que vai contra a lógica de segurança da navegação, e que demonstra, o que é pior, o lastimável estado de conservação dos mesmos”. Segundo a publicação, outra curiosidade “foi a lentidão com que o navio navegava. Avistado inicialmente às 10h43m próximo à Ilha das Pedras Brancas, só veio a atracar às 13h55m”.
Especialistas pedem análise minuciosa
Especialista em gerenciamento de risco, Geraldo Portela defendeu, em entrevista à GloboNews, uma análise criteriosa da estrutura da Ponte Rio-Niterói, atingida por um navio à deriva no começo da noite desta segunda-feira (14).
Portela acredita que o choque pode ter sido suportado pela estrutura da ponte, porém ela pode ter sofrido danos, que precisam ser identificados.
“Terá que ser feita uma análise muito criteriosa da estrutura da Ponte Rio-Niterói e, até que isso seja feito, não é recomendado o uso da ponte. Isso vai causar um impacto de médio a longo prazo no acesso ao Rio de Janeiro e também a Niterói e no acesso de embarcações à cidade do Rio”, afirmou Portela.
A Ponte Rio-Niterói foi fechada, em ambos os sentidos, devido à batida de um navio à deriva no início da noite desta segunda – a liberação parcial ocorreu três horas depois. Segundo o Centro de Operações, o navio estava abandonado e a âncora não resistiu à pressão do vento.
“Tudo leva a crer que trata-se de um navio mal fundeado há muito tempo na Baía de Guanabara, aqueles navios que ficam ali, abandonados”, explicou Portela. “Ele possui uma lateral tão grande que o vento tem capacidade de deslocar o navio e causar um acidente como esse. Talvez não tenha ninguém no controle dessa embarcação e, se tem, tem que ser investigado”, completou.
A Marinha abriu um inquérito para investigar o caso e disse que o navio é “‘objeto de processo judicial” e está ancorado desde 2016 na Baía de Guanabara.
Também especialista em gerenciamento de riscos, Carlos Camargo, que é bacharel em Ciências Náuticas, explicou que o navio pode ficar ‘parado’ por um longo período de tempo, desde que as certificações sejam todas mantidas.
“Tal qual você tem em um carro: você faz as vistorias anuais que certificam que seu carro está apto e habilitado para trafegar”, disse ao Jornal das Dez.
“Eu saliento aqui que o cenário acidental de colisões, como esse, é uma das mais frequentes causas de perda de navios do mundo. Depois dele vem os encalhes e, logo em seguida, incêndio e explosão”, afirmou Camargo.
Geraldo Portela disse ser ‘inimaginável’ que a parte de cima do navio, chamada de superestrutura, tenha alcançado a Ponte Rio-Niterói.
“A ponte possui, nos seus pilares, defesas, que são outros pilares construídos ao redor do pilar principal que sustenta a estrutura da ponte. Mas, nesse caso, pelas imagens que a gente viu, eles foram de alguma forma vencidos, possibilitando a colisão mesmo com a pista, com a parte principal da ponte”, avaliou.
Com informações do Extra e G1.








