Neste romance, Bernadette Lyra usa e abusa da ideia de “crise da história”, como componente dos desenvolvimentos da chamada razão moderna (pós-moderna?), para enfatizar a parte sensível do homem, do homem de hoje e sua (des)memória embutida na própria velocidade do tempo.
A exploração do tempo humano – sempre o último destino do indivíduo que percorre o labirinto que, em seus diversos, subdividido, conduz o mesmo indivíduo aos vários espaços simultâneos da coletividade – fonte, abrigo, caçada, pátio, ajuntamento, dança – ou não, é um recurso muito peculiar da narrativa contemporânea e muito caro à autora. Este tempo individual, recorrente na obra de Lyra (“Da nossa mãe ficou apenas a lembrança de uma curvatura de espáduas cor de lírio, ainda mais brancas, à luz da lâmpada quando ela se debruçava para nos dar um beijo, pálida como se alma não mais lhe aguentasse o peso do corpo, e as fivelas com que apanhava os negros cabelos” p. 36).
Só assume real importância em Memória romance na perspectiva da desterritorialização, do social, das identidades coletivas ecléticas e múltiplas entre si, dos sistemas de valor entre outros não menos importantes. B. Lyra trata, no romance, de (re)configurar, hoje, uma paisagem “desconhecida”, mas decifrando-a por meio de um navegar entre surpresas e incertezas, pois na Ilha, não há ninguém que se salve, que escape do destino, da paixão, da dor e da submissão à morte:
“Certamente que muitos afirmam ser uma ilha apenas um rochedo à beira do oceano, nós sabemos que é um lugar que se dissipa, refaz e desfaz, com uma ânsia de metamorfose, um local de passagem dos deuses, coisa que dificulta a identificação de suas múltiplas lajes mortuárias, de suas rampas fúnebres, de suas estrelas, de suas inscrições” (p.51). Memória e visão apocalíptica?
A narrativa atrai para si mesma armadilhas em pontos demarcados pela visão apocalíptica. Para tal nos propõe, leitores, que a Ilha seja uma geografia de ruínas, mas lá estão os labirintos e a autora os minotauriza… e não é à toa. O percurso proposto pela ilustradora (paralelamente Nelma Guimarães pincela-cola-decalca-marca-pirograva uma também história de ruínas) vem corroborar com as imagens literárias que habitam a Ilha: fantasmas narcisistas, hedonistas, comerciais, modistas, etc., que elegem sua diferença e diversidade individual, social e cultural no coletivo, fazendo parte de uma unidade maior, coletiva, que permite ainda algumas semelhanças com a ilha de vitória por meio dos vestígios culturais muito bem marcados, uma unidade bem maior, pois coletiva: “Um vazio paradoxalmente quente e seco que ele ocupava e de onde fosse talvez possível erguer a cabeça para ver muito além de um retângulo logínguo e incendiado do céu” (p. 60).
Os mesmos fantasmas virão habitar também o romance Tormentos Ocasionais, de Lyra (1998). Porém, em espaços onde a memória cultural é resguardada em um outro plano, o plano da história atualizada é congelado, ou melhor é exposto em museus futuristas de cera, como se verá na próxima semana em artigo III. Em Memórias das Ruínas de Creta, as ruínas são espaços para onde se desloca a Ilha, um “momento da modernidade” que “escreve-se e inscreve-se sobre si mesma, numa reescrita perpétua” (MENEZES, 1994, p. 161), algo que há muito está em curso na própria modernidade.
Na tentativa de nos mostrar a atualização da história e de seus fluxos de (des)identidade, num movimento paralógico que substituiria as associações livres do pensamento moderno, a autora opta pela ausência do desdobramento do tempo, típica da dita cultura pós-moderna, ou seja opta por um trabalho de “perlaboração”, como assinala Lyotard (!990, p. 61): um trabalho de reescrita das coisas em constante evolução, mas não fechado numa finalidade pré-determinada – algo como a causação final em Peirce.








