Todo universo poético de um autor é arrancado de seus precipícios telúrico-demoníacos, de suas profundezas, numa manifestação de sua vida “pânica”, ou seja, na elevação ao insólito, o acesso a novas dimensões que expressam, na maioria das vezes, o surto violento do irracional (infra ou supra-racional) ao contexto do discurso racional, o ressurgimento do mito em meio do logos.
Com muito cuidado e prazer, li alguns poemas de Álvaro Rogério Viana Goulart, que me foram enviados pelo autor e aqui, agora, neste espaço, ouso traçar algumas impressões a respeito de alguns de seus versos:
Traga-me um som
que não seja o do espanto
mas sonho
de quem dorme a céu aberto.
Traga-me o som
da orquestra dessa mata
que me abraça e me esconde,
secreta.
Traga-me
o que mais preciso agora:
o inaudível em cada som velado
oculto na memória da criança.
Traga-me a percepção sonora
do meu próprio silêncio
e deixe um rastro de luz
que não se perca na aurora.
Este estado de coisas – “som/espanto”, “dorme/céu aberto”, “som da orquestra/secreta”, “som velado/inaudível/memória”, “silêncio/rastro de luz”, “aurora” – em que o poema se torna um trampolim para desenvolver certas cosmovisões, traz a marca de uma frustração, marcada por situações tipicamente kafkianas em que se encontram a marca de um existencialismo positivo, marcado em cada verso, perseverando assim possibilidades que quase se perdem, quase se anulam nas oposições: “rastro de luz”/”aurora”. Um poema sem contexto, mas que generaliza as necessidades do eu-lírico que se abrem às sugestões do texto.
Ainda, o poeta se coloca todo o tempo lírico como um filósofo intermitente, de matemático que é ao compositor “bissexto” talvez.
Viajo para me esquecer
nas plagas do nunca fui
sem limite
sem endereço
em busca do nunca sei.
Viajo pela estrela guia
olhos abertos para o tempo
e apresso-me
-lentamente-
a colher
a gota de orvalho
na pétala da flor aberta
que
por sobre o abismo pende
incerta.
Prometo
me ofertar de proa,
frente ao vento que entoa
olhos ainda abertos
para a correnteza da vida
e o sempre alvorecer.
Mas, se chegar,
ah, viajo !
Ainda não sei de mim.
Usando oximoros (Prometo/ me ofertar de proa,/ frente ao vento que entoa/ olhos ainda abertos/ para a correnteza da vida/ E o sempre alvorecer.), sempre encadeados de opostos, mostra-se o poeta Álvaro, adepto da concepção de que ao homem cabe aceitar o imperativo da atividade lírica na esfera do vil infortúnio, levemente , humildemente com a própria força, pois não há caminho nenhum, mas um fim:
Não sei por dentro
o que sei por fora:
o que meu olhar não adentra
resta cego, não desvela.
Seu olhar de promessas,
neste entardecer,
contém todas as ternuras
e loucuras do mundo.
Entanto, a cada segundo,
o trânsito de um novo olhar
estaciona
e me nega o prometido.
Acabo junto
e lamento
a perda do universo alado:
de repente,
você não mais aqui:
– tinha ido surfar
uma onda no Hawai.
No fundo, se analisarmos os dilemas do poeta, há um traço memorialístico secundário que não se deixa pegar muito facilmente, mas merece atenção, não tanto pelas suas qualidades literárias, mas por revelar o poeta suas reminiscências com despreocupação e franqueza. Sua ideia é plural, mas exata! Este é seu big deal: vários “eus” temporais, num único encaixe lírico – o poema e sua construção.
Não ouso
a santa palavra em vão:
sua fonte, a emoção,
faz transbordar a ideia,
tem volume, ocupa espaço
não pode
o que a revela
caber em outro entrelaço
– há que ser justa no encaixe,
exata e plural na edição
do verso
do poema
da poesia
do verbo.
Perfeita se gerar
o seu próprio contraponto
– o controverso.








