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Corte de gás russo faz alemães debaterem caminhos para economizar energia

Líderes locais precisam usar de criatividade e cálculo para liderar redução de consumo de energia decidida pela União Europeia diante

redacao Por redacao
30/07/2022 - 08:59
em Mundo
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Alemanha : crise de energi por corte de gás da russia

Crianças brincam em uma fonte seca em Augsburg. A prefeita da cidade, Eva Weber, ordenou o fechamento de muitas fontes ao longo das praças e parques para a economia de energia Foto: Laetitia Vancon/The New York Times

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Wolfgang Hübschle entrou para o governo da cidade de Augsburgo, na Baviera, esperando uma vida simples, planejando coisas como festivais repletos de trajes típicos. Em vez disso, hoje em dia ele tem a tarefa impopular de calcular quais sinais devem ser desligados, como diminuir a temperatura em escritórios, piscinas e — se for o caso — desligar as amadas, porém caras em consumo de energia, cervejarias dos bávaros.

Autoridades municipais como Hübschle, assessor econômico de Augsburgo, estão na linha de frente de uma luta geopolítica com a Rússia desde que os líderes da União Europeia concordaram nesta semana em tentar reduzir o consumo de gás natural em 15%, temendo que o presidente russo, Vladimir Putin, possa cortar as exportações em retaliação ao apoio do bloco à Ucrânia.

Em nenhum lugar esse medo é mais profundo do que na Alemanha, o maior consumidor de gás russo da Europa. Com mais da metade de seu suprimento de gás vindo de Moscou antes da invasão da Ucrânia em fevereiro, o gás russo barato era a base da poderosa indústria alemã. As autoridades até planejaram um segundo oleoduto ligando o território alemão diretamente à Rússia, o Nord Stream 2, até que a guerra forçou a suspensão do projeto.

Augsburgo está agora entre as cidades que planejam um esforço crescente de racionamento: algumas oferecem incentivos financeiros para a população reduzir o uso de gás, enquanto outras diminuem a iluminação das ruas.

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Se a UE conseguir se virar com as atuais entregas já reduzidas do gás russo, Hübschle acredita que é possível impedir a Rússia de cortar o fornecimento no inverno no Hemisfério Norte.

— Se Putin tiver a impressão de que pode realmente prejudicar a economia dos maiores países europeus, não hesitará em cortar o fornecimento de gás. Se não estiver doendo muito, ele vai escolher pegar o dinheiro ao invés de infligir a dor — afirmou.

Ainda que sem obrigações vinculantes, por enquanto, as metas de redução do consumo da UE enviaram um sinal claro não apenas da determinação europeia de enfrentar Putin, mas de uma preocupação real com o risco para as 27 economias do bloco, especialmente se a Alemanha, a potência econômica do continente, for atingida.

A Gazprom, controlada pelo Kremlin, relembrou a ameaça nesta semana, quando reduziu os fluxos pelo gasoduto Nord Stream 1 para a Alemanha para apenas 20%, citando, de forma pouco convincente para muitos, problemas com suas turbinas.

Cerca de metade de todas as casas na Alemanha é aquecida a gás, enquanto um terço do gás do país é usado pela indústria. Se o próximo inverno for particularmente frio, um corte seria brutal.

Com os preços da energia disparando, Augsburgo já enfrentava um aumento de 80% nos gastos, o equivalente a 11 milhões de euros. As autoridades estão se esforçando para evitar repassar esses custos aos moradores.

A prefeita de Augsburgo, Eva Weber, ordenou o fechamento de muitas das fontes da cidade e limitou o horário de funcionamento de três fontes conectadas ao aqueduto de 800 anos da cidade, um patrimônio mundial da UNESCO.

Algumas autoridades expressaram preocupação de que o governo esteja alimentando o pânico. E outras esperam que os incentivos encorajem o uso cuidadoso de energia.

O chanceler alemão, Olaf Scholz, prometeu aumentar os subsídios à habitação e proteger os inquilinos de despejos por contas de aquecimento não pagas. Esta semana, Munique anunciou um “bônus de energia” de 100 euros para as famílias que reduzirem seu consumo anual em 20%, e sua concessionária lançou um concurso de economia de energia para os clientes.

Os alemães parecem estar respondendo. A Associação Federal de Energia e Água disse que o país estava usando quase 15% menos gás em comparação com o mesmo período do ano passado, uma tendência que eles atribuem em parte ao preço recorde da energia. Os custos aumentarão ainda mais no início de outubro, quando o governo introduzir uma sobretaxa do gás.

Em resposta, aquecedores de ambiente e fornos a lenha estão esgotando em muitas cidades, e há uma longa espera por unidades de minipainéis solares para alimentar alguns dispositivos domésticos.

Claudia Kemfert, economista especializada em energia do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica, disse que essas economias são críticas, mas teme que o país tenha desperdiçado vários meses com apelos aos cidadãos em vez de tomar medidas mais robustas em relação às empresas.

Autoridades municipais dizem que não terão como entender o quanto seus esforços podem ajudar até que obtenham mais dados. Em Munique, capital da Baviera e epicentro da indústria alemã, a vice-prefeita Katrin Habenschaden está cética.

— Honestamente, não acredito que isso possa ser compensado. Acredito que precisamos de outras opções ou outras soluções — ela disse.

Como vice-responsável pela gestão dos assuntos econômicos, ela vem ajudando a cidade com uma espécie de triagem econômica – avaliando que tipo de racionamento as diferentes empresas podem enfrentar. Empresas, grandes e pequenas, estão cortejando as autoridades para defender por que devem ser poupadas.

A Baviera é particularmente preocupante porque abriga empresas que impulsionam a indústria alemã, como BMW e Siemens. A relutância do governo regional conservador em desafiar sua forte dependência do gás e avançar nas energias renováveis ​​também deixou o estado particularmente vulnerável, argumentou Habenschaden, apoiadora da energia “verde”.

Em Augsburgo e Munique, as autoridades pediram que todos os funcionários da cidade enviassem suas sugestões. Um funcionário público de Augsburgo apontou que os dois data centers da cidade eram um grande dreno de energia. Eles agora estão considerando se podem confiar em apenas um.

Mais silenciosamente, muitos líderes locais estão ponderando quais tradições alemãs consumidoras de muita energia podem ter que ser postas na mira da tesoura, caso o país seja forçado a racionar energia: fabricação de cerveja, feiras natalinas?

Hübschle disse acreditar que a Baviera deveria fechar suas famosas cervejarias, em vez de deixar sua indústria química enfrentar a escassez de gás.

Enquanto isso, Rosi Steinberger, membro do Parlamento regional da Baviera, agora trabalha em um escritório escuro para reduzir seu consumo e está debatendo se deve provocar a inevitável ira de Munique, sugerindo que cancele sua mundialmente famosa Oktoberfest, programada para retornar neste outono, após uma pausa de dois anos por causa da pandemia.

— Ainda não perguntei — afirmou com uma risada nervosa. — Mas também acho que, quando as pessoas dizem que não deve haver tabus no que consideramos, é nisso que devemos pensar — declarou.

As informações são do Jornal O GLOBO.

Tags: #Gás da Rússia#Guerra da UcrâniaAlemanha
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