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Mães denunciam agressões e tortura contra crianças autistas em clínica no interior de SP

Segundo uma mãe, o menino começou a recusar o toque nos órgão genitais, em específico depois que começou a frequentar a fonoaudióloga de Duartina, investigada pela Polícia Civil

redacao Por redacao
04/07/2022 - 08:38
em Cidade
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SAIBA SOBRE A CLÍNICA QUE AGREDIA CRIANÇAS AUTISTAS NO INTERIOR DE SP

Mães denunciam agressões e tortura contra crianças autistas em clínica particular em Duartina — Foto: Arquivo pessoal

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Uma mãe denunciou o comportamento alterado do filho, de 2 anos, após consultas com uma fonoaudióloga de uma clínica particular especializada em atendimento às crianças com deficiência, em Duartina (SP).

O caso é investigado pela Polícia Civil, que já abriu um inquérito e aguarda os laudos de vídeos e outras provas para dar andamento às investigações.

De acordo com informações do g1, a mulher, que preferiu não ser identificada, contou que o filho foi atendido pela fonoaudióloga da clínica no dia 8 de junho de 2021, após notar que o pequeno não desenvolveu a fala, além de se alimentar apenas com comidas específicas.

Depois de levar o filho à consulta, foi recomendado pela fonoaudióloga, segundo a mãe, que levasse o menino a um neurologista pediátrico.

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Assim foi feito, em 15 de junho de 2021, e o menino foi diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em grau leve para moderado pelo neurologista, também particular. A partir daí, a mulher começou a levar o filho em consultas regulares com a fonoaudióloga para que o acompanhamento fosse iniciado.

“Toda sexta-feira, meu filho ia à terapia com a fonoaudióloga e com a terapeuta ocupacional. Nós não tínhamos acesso às terapias, eram reservadas. Nesse tempo não observamos nada de anormal”, conta.

Em paralelo a isso, a mulher explicou que foi orientada a levar o filho à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de Garça (SP), em julho de 2021. No local, ele também começou a ser acompanhado por fonoaudiólogas, psicólogas e terapeutas ocupacionais.

Pela APAE trabalhar com outro método de acompanhamento que não o ABA (Análise de Comportamento Aplicada – em português) , como utilizado previamente pela fonoaudióloga da clínica particular, os profissionais recomendaram que a mãe escolhesse um dos locais para tratamento do filho, a fim de não confundi-lo.

“Quando ele entrou na APAE eu percebi um avanço muito grande. Antes, ele não conseguia lidar com nada, mas melhorou o lado sensorial. Ele ainda não é 100% verbal, não entendemos muita coisa, mas tem melhorado muito. Ele já fala ‘mamãe’ e ‘papai’, por exemplo”, recorda.

As profissionais da APAE emitiram um relatório, encaminhado  pela mãe, com apontamentos de melhora no tato, no sensorial e, principalmente, na fala.

Inclusive, a mãe conta que chegaram a cogitar uma nova consulta com outro neurologista para comprovar o diagnostico de TEA, já que poderiam ter diagnosticado o esterotipismo de autista de forma precipitada.

Dessa vez em consulta com uma neurologista pediátrica da Universidade Estadual Paulista (Unesp), foi levantada a hipótese de ser apenas um atraso de fala, com recomendação de que o paciente continue o atendimento periódico, além do acompanhamento com a APAE.

“Na primeira consulta, a médica falou que não fecha o diagnóstico para autismo antes dos 3 anos. Meu filho tinha 2 anos e 8 meses, mas na observação ela falou que ele não possui características para o autismo”, comenta.

Assim que o filho completou 3 anos, a mulher afirmou que o encaminhou à uma pediatra na Unidade Básica de Saúde (UBS) para consulta de rotina. Na ocasião, o menino se incomodou quando a médica examinou seus órgãos genitais.

Segundo a mãe, o menino começou a recusar o toque nos órgão em específico depois que começou a frequentar a fonoaudióloga da clínica particular de Duartina, sem razão aparente, até então.

Assim que percebeu essa alteração de comportamento, outras mães também entraram em contato com ela com relatos parecidos.

A mãe contou também que o delegado responsável pelas investigações do caso, Paulo Calil, a orientou a encaminhar o menino para psicóloga.

Essa, por sua vez, recomendou que a mãe gravasse um vídeo em que pergunta ao menino a respeito do órgão genital, relacionando ao período que foi atendido pela fonoaudióloga, na tentativa de descobrir o que motivou a recusa.

No vídeo enviado ao g1, a mãe pergunta: “Onde a tia pegava e colocava a mãozinha?”. Logo o menino responde e aponta com o dedo sob a fralda: “Aqui”. Para todas as vezes que a mãe questiona, a criança confirma que a profissional tocava no órgão, apesar de afirmar não sentir dor (assista abaixo).

Após quatro consultas com a psicóloga, será enviado um relatório ao delegado a fim de entender os motivos desta recusa e se estão relacionados à conduta da fonoaudióloga.

‘Eu confiava nela’

Segundo a denúncia de uma mãe, criança era trancada em salas no consultório da fonoaudióloga — Foto: Arquivo pessoal

Outra mãe, que também preferiu não ser identificar, contou que o filho, de 9 anos, era trancado em salas no consultório da fonoaudióloga. Ela descobriu o ocorrido quando foi chamada à delegacia e viu a foto que mostra as mãos do menino no vidro (veja acima).

Segundo esta mãe, o menino foi diagnosticado com autismo em grau severo aos dois anos e meio. Desde então, o filho é acompanhado por essa fonoaudióloga.

Contudo, a mãe lembra que começou a perceber que o filho não estava evoluindo no tratamento desde o final de 2020. Por isso, quando foi chamada à delegacia, acreditava que se tratava da denúncia de falta de atendimento, já que um boletim de ocorrência desse teor já havia sido registrado.

“No dia 9 de junho deste ano fui chamada à delegacia. Eu achava que eles iam me perguntar dessa falta de atendimento, que eu também vinha percebendo. Mas, não. Eu descobri que meu filho era trancado em salas do consultório. Não estava esperando. Eu confiava nela”, lembra.

Ainda segundo esta mãe, o filho voltava para a casa com as roupas urinadas e, algumas vezes, sem camiseta. No mesmo dia em que foi à delegacia, a mãe recorda que parou de levar o menino às consultas.

Agressão

Uma terceira mãe entrou em contato com a reportage e explicou, bastante emocionada, que o filho, de 6 anos, teria sido agredido na boca pela fonoaudióloga. Segundo ela conta, a criança levou um tapa por ter mordido a profissional.

O menino foi diagnosticado com autismo também em grau severo e, desde os 2 anos, é levado para o acompanhamento multidisciplinar. Há dois anos, segundo a mulher, o filho também não demonstra evolução no tratamento.

“É muito difícil, eu sei de onde o meu filho veio, sei o que ele passou pra chegar onde está. É uma criança que não sabe falar, que não sabe se expressar. Ele é extremamente vulnerável. O tapa doeu muito mais em mim. Desumano”, lamenta.

No fim de maio deste ano, a criança parou de fazer o acompanhamento nesta clínica particular com a justificativa do descaso no atendimento. Com orientação de outras profissionais, a mãe afirma que o pequeno já consegue, por exemplo, ficar sentado.

‘Fiz tudo pelas crianças’

A funcionária que registrou as imagens, áudios e vídeos das crianças durante o atendimento com a fonoaudióloga e as entregou à polícia também foi ouvida. Contratada como acompanhante terapêutica de um dos meninos atendidos, a funcionária disse que optou por formalizar a denúncia quando viu ele receber o tapa.

“As crianças não estavam tendo atendimento. A fonoaudióloga falava com as mães, mas as crianças ficavam na sala comigo e eu estou cursando a psicologia, ainda não tenho esse repertório de fazer o tratamento adequado”, garante.

Quando se deu conta do que estava vivenciando na clínica, a funcionária ressaltou que ficou abalada psicologicamente.

“Quando presenciei a olho nu, eu falei para a minha chefe, a que havia me contratado como acompanhante, que não queria trabalhar mais lá. Ainda fiquei na clínica quase um mês pra registrar esses momentos. O que eu presenciei nunca vou tirar da cabeça. Não tem sentimento pior. Fiz tudo pelas crianças”, finalizou.

O celular da funcionária foi apreendido pela delegacia que investiga o caso. As filmagens feitas com o aparelho foram entregues à polícia e foram encaminhadas para perícia para serem avaliadas. O laudo dos vídeos deve ser emitido ainda nesta semana.

O delegado responsável, Paulo Calil, disse que apura a ocorrência como tortura. Se comprovado, o crime é inafiançável.

Tags: #Agressões#Autismo#Duartina-SP#Maus-tratos#Torturas#Violência Contra Crianças
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