MPF aponta fatos que fundamentam denúncia contra o ex-governador do Rio e sua esposa; força-tarefa procura joias escondidas
Por Vinícius Lisboa
O Ministério Público Federal (MPF) detalhou nesta quarta-feira (07/12) informações sobre a denúncia apresentada contra o ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, e investigados, que se tornaram réus após decisão judicial nesta semana que abriu a ação penal. O MPF enumerou 21 fatos que levaram a uma série de atos relacionados aos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e associação criminosa.
Os procuradores da República, em entrevista coletiva de imprensa, explicaram que as investigações continuam e que novas denúncias poderão ser oferecidas. O MPF e a Polícia Federal apuram um possível vazamento de informações sobre a operação e a infiltração de pessoas ligadas à quadrilha na estrutura do estado do Rio de Janeiro.
NA IMAGEM ACIMA | O ex-governador do Rio de Janeiro Sergio Cabral (PMDB) ao deixar o carro da Polícia Federal para exames no Instituto Médico-Legal (IML), após sua prisão no dia 17 de outubro | Foto: Estadão
O MPF afirma na denúncia que a Construtora Andrade Guttierrez devia R$ 25 milhões de propina a Cabral e R$ 5 milhões ao seu ex-secretário de Obras, Hudson Braga. Ao ex-governador, foram pagos efetivamente R$ 7,5 milhões. Os procuradores afirmam que R$ 2 milhões contabilizados como propina pela construtora foram doados, dentro das regras eleitorais, ao diretório nacional do PMDB, para a campanha de 2010, e que Hudson Braga também recebeu perto de R$ 2 milhões.
Compras de joias, barcos e obras de arte e a construção de imóveis estão entre as estratégias usadas para ocultar o dinheiro recebido de propina da Andrade Gutierrez. Empresas que de fato existiam e falsos trabalhos de consultria também foram usados para que o dinheiro ilícito se misturasse ao lícito, o que dificultava o rastreamento.
O procurador Lauro Coelho evitou estimar quantos anos de prisão a denúncia pode provocar, mas disse que a intenção do MPF é que todos os crimes sejam somados. Os procuradores afirmaram não ter indício de participação no esquema do atual governador Luiz Fernando Pezão, que foi vice-governador e secretário de obras de Sérgio Cabral.
PLANILHA
As informações sobre propinas pagas pela Andrade Gutierrez constam em uma planilha que peritos atestaram ter sido preenchida até 2012. O que, segundo o MPF, afasta a possibilidade dela ter sido produzida e alterada para a delação. Dados fornecidos por colaboração premiada também deram subsídios para a as investigações sobre pagamento de propina e a Polícia Federal e o MPF acrescentaram provas e caracterizaram também a lavagem de dinheiro.
Com base na colaboração premiada dos executivos da Andrade Guttirrez, o Ministério Público suspeita que os valores de propina envolvidos nas obras do Maracanã e do PAC Favelas podem chegar a R$ 224 milhões. A estimativa é feita com base no cálculo de 5% do valor das obras, que foi cobrado no esquema e pode ter sido replicado na relação com as demais construtoras envolvidas.
Para o procurador Leonardo de Freitas, a crise no governo do Rio mostra que é urgente o combate à corrupção. “O estado foi assolado por organização que praticou extensos atos de corrupção, e esse mesmo estado hoje vive uma crise aguda que, sem dúvida, seria em alguma medida menor se toda essa corrupção e desgoverno não tivesse sido praticada no nosso passado recente”, disse.
JOIAS ESCONDIDAS
A compra de joias com dinheiro em espécie para lavagem de ativos era uma das estratégias da quadrilha que o Ministério Público Federal (MPF) denunciou à Justiça na Operação Calicute. O ex-governador Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro, foi acusado de chefiar o grupo. Ele e a mulher, Adriana Ancelmo, ainda teriam joias a serem encontradas, segundo aponta a investigação em curso.
Na entrevista desta quarta-feira (07/12), o procurador regional da República José Augusto Vagos disse que ainda podem ser encontradas joias.
“É uma tipologia tradicional na lavagem de dinheiro. Consegue-se trocar grandes valores de dinheiro, difíceis de serem guardados, por objetos pequenos e fáceis de ser ocultados. Nossa suspeita é que há joias escondidas, que não foram encontradas até hoje. A quantidade de joias compradas é muito maior do que as que foram encontradas na deflagração [da operação policial]”, afirmou o procurador. Para Vagos, cerca de R$ 6 milhões foram lavados dessa forma.
CRIME PERMANENTE
Segundo o procurador, a ocultação das joias constitui crime permanente e pode render prisão em flagrante. A identificação dos objetos de valor ocorreu em grande parte após a deflagração da operação, desde quando foram presos Cabral, sua mulher, dois ex-secretários e mais seis pessoas.
Gerentes das joalheirias H.Stern e Antônio Bernardo, em que as compras eram efetuadas, foram ouvidos e precisaram o valor e a quantidade de joias adquiridas pelo casal.
A possibilidade de ocultação das joias foi um dos motivos para que a prisão preventiva de Adriana Ancelmo fosse pedida novamente pelo MPF e executada na tarde de ontem (06/12). Na deflagração da Calicute, no mês passado, já havia um pedido semelhante, que foi negado, e Adriana foi conduzida coercitivamente a depor.
A Polícia Federal encontrou R$ 53.050 mil em espécie quando foi prender Adriana Ancelmo, ontem. Cerca de 100 acessórios identificados como possíveis joias ainda precisam ser periciados para que se confirmem objetos de valor. Três laptops e dois tablets também foram apreendidos.
Conforme a denúncia apresentada pelo MPF, a ex-primeira dama recebeu R$ 1,5 milhão lavados no esquema de corrupção. Cerca de R$ 500 mil foram entregues em seu escritório, em espécie.
As investigações indicam que Cabral presenteou Adriana Ancelmo em seu aniversário com três joias avaliadas em R$ 1 milhão. Quando completaram 10 anos de casamento, os dois compraram joias avaliadas no mesmo valor. As compras eram feitas sem notas fiscais, que só foram emitidas após a deflagração da Operação Calicute.
*EBC








