O clima azedou no clã dos Garotinhos e o sintoma é a postagem da matriarca, Rosinha Garotinho, nas redes sociais, lembrando ao filho, o prefeito de Campos, Wladimir Garotinho, que ele se elegeu graças ao espólio da família.
No atual estágio, Rosinha demonstrou ser uma metralhadora cheia de mágoas, imagem equidistante de uma mãe protetora.
Mas o lembrete virtual ao filho, sobre a dívida hereditária, não traduz exatamente a realidade dos fatos recentes, conforme destaca uma resumida cronologia.
Passagem por Brasília
Wladimir Garotinho elegeu-se prefeito de Campos em 2020, quando exercia mandato de deputado em Brasília. Construiu sua candidatura sob forte insistência do grupo político, muito mais como resultado do bom desempenho parlamentar do que propriamente por ser um herdeiro do garotismo.
O mandato parlamentar lhe deu autonomia de voo, porque trabalhou bem o encaminhamento de emendas parlamentares, estabelecendo alianças pragmáticas e seguindo a cartilha de candidato para ganhar a eleição. Mas o que levou a metralhadora a disparar fogo amigo? Divergência familiar.
A discórdia em família é fruto de uma disputa pelo poder. Wladimir tem as demandas de uma agenda política, enquanto que o núcleo familiar tem demandas próprias, que o governo tem limitações para atender.
A irmã, Clarissa Garotinho é candidata, ainda não se sabe se estadual ou Federal. Espera uma definição sobre a situação jurídica do pai. Se Garotinho puder ser candidato, ela tentará uma vaga na Alerj. Caso contrário, deverá disputar reeleição para a Câmara Federal.
Para a Alerj, o candidato de Wladimir é Bruno Dauaire (União Brasil). Terá que dividir votos, caso Clarissa esteja no jogo. Para Federal, terá que dividir votos também entre os candidatos da família e outros parlamentares que aportaram emendas no município.
Governabilidade
Outro dilema é a governabilidade, que exige uma administração amistosa no plano estadual e no plano Federal, enquanto que a agenda do clã é a postura belicosa em relação ao governo Cláudio Castro e ao deputado Rodrigo Bacellar, algo que tem reflexos na relação com uma oposição no legislativo municipal que não para de crescer.
Essa mesma postura tornou a permanência de Wladimir insustentável no PSD. Enquanto ele construía relações com o prefeito do Rio, Eduardo Paes, o pai e a irmã atacavam.
Em Campos, a situação é ainda mais complicada. O grupo do opositor Bacellar já tem 16 dos 25 vereadores no legislativo. Ao manter-se distante da truculência verbal e alinhando-se com Castro, Wladimir alivia a pressão com a oposição no legislativo.
O prefeito já vem demonstrando incômodo com essas pressões. Recentemente fez uma postagem falando sobre a solidão do poder. Talvez, estivesse justamente se referindo às inúmeras pressões que em dado momento exigiriam uma tomada de decisão. É possível que tenha chegado a hora de Wladimir ser Wladimir ou capitular diante de uma realidade impiedosa: o poder é uma zona de muitos conhecidos e poucos amigos.
Maquiavel definia que o governante deveria ter a virtù ou seja, fazer o que é necessário para governar, sem esperar muito da sorte, porque, segundo ele, a sorte precisa ser espancada para ser conquistada. Ainda que se tenha sorte, governar é a arte de decidir.







