“Deneval Azevedo Filho escreveu sobre meu último livro, mas esse ensaio pode ser lido para compreender o contemporâneo. Assim é Dene, como os amigos o chamam. Um auscultador e observador genial do espírito do tempo. Um dos primeiros a estudar Hilda. Leiam a matéria toda. Não fala sobre apenas meu livro. Fala sobre o agora e a vida.” (Mara Coradello)
Mara Coradello não é mais uma promessa de escritora da literatura brasileira contemporânea, mas, sim, uma representante convicta e premiada em editais da SECULT (Secretaria de Cultura/ES) e atenta ao gosto pelo avesso da vida, o que nos dá o imenso prazer do seu texto.
A obra de Mara Coradelo e ela mesma, formada em Comunicação (Ufes), Mestre em Artes em diálogo com a Filosofia (Ufes) está em constante diálogo com os movimentos contemporâneos que tocam a arte e a filosofia, transgressores e renovadores que vão perpassando vários campos que dialogam com a Pluralidade, Arte lato sensu: comunicação, filosofia, escrita feminina (não feminista), teatro, pintura, cotidiano, humor dilacerante, amor, desencanto, fome e por aí vão seus versos inéditos, rupturados e de corte afoito e corajoso.
Na poesia de Mara Coradello, em Post its de carne & putrefação, inclusive em seus livros anteriores, há um respeito à vida, ao que se nos apresenta como vivo, mesmo que já seja passado ou que tenha, digamos “morrido”, MAS VIVO NA MEMÓRIA: sentimentos, situações exóticas, cheiro, olfato, sexo, toque, arquitetura, formas de desejo, sofrimento, tesão, amor, bebida, amor próprio, todos estão juntos como se expostos numa prateleira de mercado humanístico, a nossa escolha para fazer-nos degustar nas palavras e situações, em coisas do dia-a-dia, mas sobretudo nas palavras simples que situadas e usadas, tanto para compor sua prosa poética ou seus versos, leva-nos, leitores mais atentos, ao âmago das angústias, das alegrias, do amor, do disfarce, em simulacros anamórficos que nos são mostrados pelo eu-lírico da autora.
Isso se dá muito repetidamente nos escritos que são únicos na Poesia Brasileira Contemporânea. Talvez, por isso, tão premiada.
Ver essa foto no Instagram
Pensar as formas da crítica literária é pensar também as formas de história literária no presente. Não há possibilidade de crítica dos objetos literários sem uma base histórica, isto é, sem uma postulação de sentido histórico, um quadro de referência que permita ao crítico avaliar uma obra segundo um duplo aspecto: o primeiro é a reivindicação de herança cultural e o segundo, a aposta num possível legado.
Desde que se dissolveu o quadro clássico, no qual a aferição da qualidade se dava sobretudo a partir da consideração de obras modelares em seu gênero, emuladas pelas obras novas, a crítica se tornou radicalmente histórica. Ou talvez seja melhor dizer: a crítica ficou submetida à história.
São de sua autoria, entre outros, A Alegria Delicada dos Dias, Escaras e decúbitos, Armazém dos Afetos, O Colecionador de Segundos e Post its de carne & putrefação, sobre o qual escrevi algumas palavras acima, pois acho-o muito intenso. Mara quer estudar Maura Lopes Cauçado e Sylvia Plath em seu doutorado. É muito bom compartilhar com ela sua lucidez ao falar de Maura Lopes Cauçado.
Mara é intensa, é a graça contemporânea, sem ser bibelô, pensante e bela, arrojada e crua, trabalhada e nua. Uma mulher poeta em todos os sentidos!








