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PMs exploram rota do tráfico de munição e drogas da Tríplice Fronteira para o RJ

Mensagens revelam que grupo de agentes financia viagens, faz o transporte em compartimentos escondidos e vende os produtos a milicianos e traficantes

redacao Por redacao
17/04/2022 - 09:06
em Brasil
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ROTA DO TRÁFICO NO RJ: PMS ENVOLVIDOS EM ESQUEMA

Mensagens encontradas no celular do PM Bruno Cesar de Jesus revelaram esquema (Foto: Reprodução)

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RIO – No início de agosto de 2017, o então soldado da PM Bruno Cesar da Silva de Jesus foi até a Tríplice Fronteira comprar munição e drogas para trazer para o Rio. “Vim pra negociar mato. Tenho que fazer dinheiro agora pra voltar pra munição”, explicou Jesus, numa mensagem enviada por WhatsApp no dia 3 daquele mês.

“Mato”, segundo a Polícia Federal, é maconha. Seu interlocutor não gostou do que leu: “Mato é ilusão. Munição ganha pouco, mas ganha sempre”, respondeu o sargento Thiago Santos da Silva, que em seguida fez uma encomenda ao colega de farda: “100 caixas de 9. Quanto fica?” — se referindo à munição calibre 9mm. “Vou fazer aquele mesmo valor que sempre fiz”, afirmou Jesus.

Três semanas depois, o soldado foi preso em flagrante numa blitz da Polícia Rodoviária Federal em Itatiaia, no Sul Fluminense, quando voltava de Guaíra, cidade paranaense que faz fronteira com o Paraguai. Em seu carro, foram encontrados 3.450 cartuchos.

As mensagens extraídas de dois celulares apreendidos com Jesus — obtidas com exclusividade pelo GLOBO — revelam que um grupo de PMs do Rio controla uma rota de tráfico de munição e drogas da Tríplice Fronteira para a capital fluminense.

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Os agentes formam uma rede que financia viagens ao Paraguai e Argentina, compra a carga nos países vizinhos, faz o transporte em compartimentos escondidos dentro de carros alugados e, por fim, vende os produtos a milicianos e traficantes.

Outro diálogo encontrado no celular de Jesus mostra como funciona a logística de revenda de drogas e munição. Em 27 de julho de 2017, o PM estava na fronteira quando foi contactado por outro soldado, Carlos Alberto de Campos Macedo, que estava no Rio.

Munição apreendida com o PM Bruno Cesar da Silva de Jesus em Itatiaia Foto: (Divulgação/PRF)

‘Bora vender esse capim’

Campos perguntou se o comparsa podia intermediar a compra de uma carga de maconha que ele estava negociando à distância. Jesus aceitou. “Quando ele (o fornecedor) mandar a foto do produto, você me manda aqui, que aí vou conferir com meu mano daqui que é maconheiro nato”, escreveu Jesus, sobre como avaliaria a qualidade do produto. “Bora vender esse capim”, respondeu Campos.

Uma semana depois, a dupla fazia os preparativos para a chegada da droga ao Rio: “Quando as coisas chegarem, vamos no complexo. É só fechar um cara que pague certinho. Esse amigo do complexo é um forte candidato pra isso”, afirmou Campos. Da fronteira, o colega reforçou o plano: “Aí que você entra né, irmão, você tem mais contato em favela do que eu”. Não há menção na investigação sobre qual é o complexo de favelas.

Entre os identificados pela PF nas conversas, há até um agente egresso da PM do Rio que foi condenado na Argentina após ser preso em flagrante com mais de 20 mil cartuchos no país vizinho. Em setembro de 2015, o soldado Jorge Diego Andrade Alves solicitou à PM a sua exclusão da corporação.

Em dezembro do ano seguinte, Alves foi detido numa blitz pela polícia argentina logo após cruzar a fronteira do país vizinho. A munição estava num fundo falso do veículo. Em agosto de 2017, de dentro da Prisión Regional del Norte, na província de Chaco, Norte da Argentina, o ex-PM entrou em contato com Jesus, seu antigo colega de farda, para avisar que havia conseguido um avião para traficar armas e drogas.

“Não precisa de pista para aterrissar. Ele joga a mercadoria do alto mesmo. Só precisa de um espaço de um tamanho de um campo de futebol”, explicou Alves. O ex-PM disse que seu plano para quando saísse da cadeia era “mandar para a Argentina, para o Uruguai e para o Rio também”.

Munição era transportada para o Rio em compartimentos escondidos dentro de carros alugados (Foto: Divulgação/PRF)

Cocaína e assassinato

Dois dias depois, a dupla passou a fazer planos de começar a traficar cocaína. “Vê com seus contatos quanto sai 100 quilos de cafeína e 20 quilos de lidocaína pra trazer junto com teu frete de maconha”, pede Alves. “Qual a ideia?”, perguntou Jesus.

O interlocutor explicou: “A cafeína e a lido fazem parte do plano do pó, que faremos mais pra frente. Tem que ter isso pra fazer a mistura”. Jesus ficou animado: “Irmão, se aprofunda ao máximo nesse estudo aí”. No dia seguinte, os dois tramam o assassinato de um comparsa que não pagou uma dívida. “Infelizmente vai ter que começar a morrer gente, sinceramente não queria dessa forma”, escreveu Jesus. “Parece que nos obriga a sermos ruins”, responde Alves.

Em novembro do ano passado, com base nos diálogos, a Justiça federal condenou seis integrantes da quadrilha — entre eles, três PMs — pelos crimes de organização criminosa e tráfico internacional de munição. Bruno Cesar de Jesus — que, após ser preso em flagrante, foi expulso da PM — recebeu pena de 16 anos.

O sargento reformado Jorge Rodrigo Rodrigues Martins, apontado como investidor da quadrilha, e o cabo Adriano Costa Bastos, que seria um dos receptores da munição, receberam pena de 18 anos cada. Bastos, que segue na ativa, é irmão de André Costa Bastos, o Boto, apontado como um dos chefes da milícia de Curicica, na Zona Oeste, e condenado a 19 anos de prisão.

Os outros três agentes identificados pela PF nos diálogos sequer foram denunciados. O sargento Thiago Santos da Silva segue na ativa, lotado no 31º BPM (Barra da Tijuca). O hoje ex-soldado Carlos Alberto de Campos Macedo foi expulso da PM em 2018. Já o ex-PM Jorge Diego Andrade Alves foi condenado em 2017 a cinco anos de prisão na Argentina por contrabando de armamento. Em 2019, foi expulso do país e retornou ao Brasil. O GLOBO não conseguiu contato com a defesa dos agentes. A PM não respondeu os questionamentos sobre o caso.

 

Tags: #Corrupção no RJ#Corrupção Policial#PM-RJ#Tráfico de armas#Tráfico de Drogas
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