Ativistas sociais, familiares e amigos da professora Jamille Guilherme Suarhs, de 39 anos, não se conformam com sua morte trágica e pedem a reabertura do inquérito. A suspeita é de que ela tenha sido vítima de feminicídio.
O pedido de justiça por Jamille se tornou um ato simbólico nesta terça-feira, dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Estão previstas manifestações em Rio das Ostras, às 17 horas, na Praça José Pereira Câmara (Praça Branca), no Centro da cidade, e também no Rio de Janeiro.
No dia 22 de agosto de 2021, ela foi retirada de sua casa, em Rio das Ostras (RJ), por um vizinho. Jamile estava com o corpo em chamas.
Morreu no dia 29 de janeiro deste ano, depois de ficar cinco meses internada no Hospital Alberto Torres, em São Gonçalo. Deixou duas crianças gêmeas, ambas com autismo. O caso está arquivado.
Suspeita de um crime sem castigo
Além da perda, o que choca são os bastidores da história. O crime não chegou a ser investigado por erros e omissões que se iniciaram na fase do que deveria ser a perícia no imóvel até as demais etapas da apuração. O imóvel não foi periciado, porque a cena do incêndio foi destruída.
Quem denuncia é a prima de Jamille, Paola Guilherme, que esteve no local e acompanhou todo o sofrimento da prima.
“Quando soube do que houve, saí do Rio, onde moro, e fui para Rio das Ostras para buscar as filhas da Jamille e ver como ela estava. Quando a vi no hospital, fiquei muito assustada. Ela tinha toda a parte superior queimada e estava muito mal”, diz Paola, em entrevista ao site observatório das favelas.
Para a surpresa de Paola, ao chegar ao local, tudo já estava limpo, lavado e apenas o quarto da prima tinha sinais de incêndio.
“Vizinhos disseram que o pai do Emir, o ex-companheiro dela, tinha ido cedo ao local e limpado tudo. Eles também contaram que, no dia do incêndio, o Emir estava na casa, que ouviram gritos o dia todo e que, em dado momento, um grito chamou mais atenção de um vizinho. Ele foi ver e já encontrou a casa pegando fogo”, disse Paola.
“Ele entrou, tirou minhas duas sobrinhas do quarto e voltou para pegar a Jamille que estava com parte do corpo em chamas. O Emir estava no local e não fez nada. Saiu com queimaduras nas mãos e outras partes do corpo, da cintura para baixo, mas nada como a minha prima”.
Paola disse ainda que o vizinho que fez o socorro deu o mesmo depoimento à polícia. Outro detalhe do caso que chamou atenção da família foi o fato do Corpo de Bombeiros não ter feito um registro de ocorrência na polícia.
“O certo seria eles isolarem o local e aguardar a polícia chegar. Mas fizeram apenas um registro de acidente doméstico. Um agente me falou reservadamente que no dia eles estavam com muitas ocorrências e não podiam esperar a polícia”, relata Paola.
Ausência de perícia
A prima destaca que sem o registro do Corpo de Bombeiros, viu o caso ser tratado de outra forma na 128ª DP, em Rio das Ostras, onde o caso foi registrado.
Ao tentar buscar o registro, ela soube ainda que o pai de Emir já tinha ido ao local para pegar o mesmo documento. Ele também esteve na UPA em que Jamille foi primeiramente atendida. Por causa dessas interferências, eles solicitaram uma medida protetiva, que foi atendida na época.
“A polícia teve boa vontade, foi ao local, tentou fazer perícia, mas já encontrou tudo limpo. Não havia o que atestar. Aí juntou com o atestado de acidente doméstico dos bombeiros e alegaram que não tinham base para oferecer uma denúncia”, afirma.
De acordo com a família da vítima, Emir Moura Teixeira, o ex-companheiro de Jamille, também prestou depoimento na polícia, mas disse que não se lembrava do que houve no dia do incêndio. Disse que estava dormindo e, quando acordou, a ex-mulher estava em chamas.
“Será que não é estranho um homem passar o dia todo gritando em uma casa e sair só com as mãos queimadas e a minha prima daquele jeito? Minha prima ia precisar de enxerto nos braços, metade da cabeça dela não teria cabelo porque queimou, uma das orelhas derreteu. Não é estranho uma pessoa sair assim e a outra só chamuscada? Nem voltar para salvar as filhas, ele voltou. Se não fosse o vizinho, não sei o que teria acontecido”, lembra.







