Há uma máxima na política interiorana do Norte Fluminense que diz: “Se queres espalhar um boato, narre ao pé do ouvido de um fofoqueiro e faça questão de pedir segredo”.
A tática é infalível. Em poucas horas a inconfidência será de domínio público.
Desde a última terça-feira (15), é justamente a central de boataria que opera a todo vapor nos bastidores da disputa pela mesa diretora do legislativo de Campos dos Goytacazes (RJ), que se tornou caso de polícia nesta quarta-feira (16) e vai parar na justiça.
Disputa por orçamento milionário
Apesar de uma queda acentuada no nível de representatividade parlamentar, o legislativo de Campos é alvo de cobiça em função dos fatores governabilidade, dinheiro e negócios.
Sob a mesa do presidente, está uma caneta turbinada de tinta para operar um orçamento anual estimado em mais de R$ 30 milhões, fora cargos comissionados e penduricalhos para abrigo de cabos eleitorais.
Esse mesmo legislativo situado no Palácio Nilo Peçanha, obra em estilo grego-romana inaugurada na era Vargas, é que garante governabilidade ao executivo municipal ou trava a administração em uma cidade cujo orçamento deve bater na casa dos R$ 2,4 bilhões em 2022.
A disputa pelo controle deste quinhão é intensa entre grupos políticos locais, diante de uma disputa pelo equilíbrio de forças entre governo e oposição.
Eleição antecipada
O presidente da Câmara atualmente é o vereador governista Fábio Ribeiro (PSD), que exerce o segundo mandato legislativo e o primeiro no comando da Casa. Faz uma gestão conturbada, que permitiu uma avanço da bancada de oposição ao prefeito Wladimir Garotinho. Por conta disso, é alvo de muitas críticas no grupo.
Sem uma base parlamentar sólida, o governo vive a incerteza sobre a sucessão para o próximo biênio (2023-2024), cujo maior risco é perder o controle da mesa diretora.
Isso sinaliza sérios problemas para o prefeito Wladimir Garotinho.
Na última terça-feira(15), confiante em um manifesto assinado pela maioria dos parlamentares que lhe assegurava vitória em caso de reeleição, o presidente da Câmara, Fábio Ribeiro (PSD), resolveu antecipar o calendário para sufocar a incerteza.
Marcou eleição para aquele dia. A antecipação do calendário seria uma forma de liquidar uma fatura diante de um cenário que tende a se tornar adverso, já que cresce o número de vereadores que oscilam entre oposição e situação.
Fábio Ribeiro tinha como garantia, por exemplo, o voto do vereador Maycon Cruz (PSC), que chegou a assinar o manifesto, ainda que já estivesse em rota de colisão com o governo, com críticas contundentes contra a gestão da secretaria municipal de Educação.
A antecipação do calendário era assunto restrito entre a bancada governista, de forma que para o dia da eleição, até mesmo o vereador licenciado, Juninho Virgílio (atual secretário de Governo), deixou o cargo para voltar à função legislativa.
Só que a conversa vazou por meio da própria bancada governista. Alguém foi informado ao pé do ouvido sobre o movimento sucessório, com o tradicional pedido para manter segredo.
Resultado, a oposição se articulou, se unificou e chegou ao dia da eleição preparada para o fator surpresa. Maycon Cruz estava alinhado com a oposição e deu o troco aos governistas que recentemente o atacou impiedosamente nas redes sociais.
Fábio Ribeiro, inicialmente, reconheceu a derrota, proclamou a vitória do oponente e o site da Câmara chegou a noticiar com a foto dos parlamentares de oposição diante da mesa da presidência.
Horas depois, no entanto, todo o material foi apagado do site da Câmara, o vídeo da sessão foi indisponibilizado. No dia seguinte, Fábio Ribeiro acolheu um pedido do colega de bancada, Juninho Virgílio (PROS) e anulou o resultado.
Virgílio argumentou que a presidência realizou pleito sem dar publicidade antecipada e que o vereador de oposição Nildo Cardoso (PSL) não proferiu seu voto nominalmente.
A manobra é muito mais midiática do que efetivamente um recurso jurídico. O resultado da eleição tem legitimidade, porque todos os vereadores votaram e o resultado foi oficialmente proclamado. E Nildo Cardoso, que não teria votado, foi quem encaminhou a chapa de oposição e antes mesmo da votação, praticamente, antecipou seu voto na tribuna.
Após o anúncio de anulação da eleição, os 13 vereadores, incluindo Nildo Cardoso, foram à delegacia e formalizaram um Boletim de Ocorrência contra o presidente da Câmara.
Fatores decisivos
Na disputa sucessória da mesa diretora da Câmara, o fato mais importante ainda despercebido na cobertura da mídia local. O fator mais preponderante é a unidade da oposição, ou seja, a união do Secretário de Estado de Governo, Rodrigo Bacellar (PL), com o presidente local do PDT, Caio Vianna, atual secretário de Ciência e Tecnologia de Niterói.
Formou-se uma frente das duas principais forças políticas locais contra o grupo do ex-governador Anthony Garotinho, com reflexos na eleição deste ano e possivelmente na sucessão de 2024.
Na eleição deste ano, Caio será o candidato a deputado Federal do grupo, dobrando com Rodrigo Bacellar e o vereador Bruno Vianna (PSL). Bacellar é candidato à reeleição para a Alerj e Bruno Vianna tenta herdar o espólio do pai, o ex-deputado estadual Gil Vianna, que faleceu de covid-19 em 2020.
Caio Vianna, inclusive, participou ativamente do processo sucessório na Câmara, garantindo dois votos do PDT, além de manter entendimentos com Maycon Cruz.
Já Rodrigo Bacellar liderou toda sua bancada de vereadores no legislativo local para a unidade em torno da eleição. Foi uma vitória apertada, por diferença de um voto, mas significativa diante da máquina administrativa municipal.
Ao prefeito Wladimir Garotinho, caberá uma tentativa de distensionamento para evitar colisão com um legislativo sob o comando da oposição, já que juridicamente a manutenção do resultado da eleição deve ser mantido por decisão judicial.
Possivelmente o prefeito também deverá operar mudanças no secretariado, porque a derrota no legislativo não é um erro isolado do presidente Fábio Ribeiro, mas decorrência de uma sucessão de erros de todo o grupo político.
Um governo com boa aprovação popular e uma máquina azeitada dificilmente perde maioria parlamentar.







