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Ialorixá cria App que mapeia terreiros e adeptos de religiões afro-brasileiras no RJ

Plataforma "Igbá" foi lançada com recursos da Lei Aldir Blanc e promovida pela Secretaria estadual de Cultura e Economia Criativa

redacao Por redacao
13/09/2021 - 18:33
em Tecnologia
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Ferramenta de união. Eliana de Yemanjá, do Ilê Axé Fon Obá Okun Ati Ossanyi, em São Gonçalo: “A gente é considerado como minoria, mas somos muitos”. Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

(Foto: Divulgação)

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Eles aparecem como minoria nas pesquisas sobre religião. Mas candomblecistas, umbandistas e seguidores de outras religiões de matriz africana podem ter expressão maior do que a registrada nos dados.

É com esse pensamento que a ialorixá Mãe Marcia D’Oxum, do terreiro Egbé Ilê Iyá Omidayê Axé Obalayó (Casa de Oxum, Mãe da Água do Mundo, e Xangô, Rei que Nos Traz Alegrias), em São Gonçalo, criou o aplicativo “Igbá —Heranças Ancestrais”.

Lançada com recursos da Lei Aldir Blanc e promovida pela Secretaria estadual de Cultura e Economia Criativa, a plataforma mapeia a presença dessas religiões no Estado do Rio. Já são 55 terreiros e 220 pessoas cadastradas.

No ano passado, uma pesquisa do Datafolha mostrou que seguidores de umbanda, candomblé e outras religiões afro-brasileiras correspondiam a 2% da população brasileira. No último Censo do IBGE, de 2010, o número de religiosos de umbanda e candomblé era de 0,3%. Para Mãe Marcia, o levantamento, quando feito pelos próprios adeptos, se torna muito mais fiel à realidade:

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— Vejo algumas falhas quando é feito por quem não é do candomblé. Toda a tentativa de mapear sempre seguiu pelos espaços, nunca pelas pessoas. Por isso, a gente tem muita dificuldade de buscar política pública direcionada. Pensam que a gente é minoria.

Ferramenta de união. Eliana de Yemanjá, do Ilê Axé Fon Obá Okun Ati Ossanyi, em São Gonçalo: “A gente é considerado como minoria, mas somos muitos”. Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

Agenda Cultural

O nome Igbá é uma alusão ao recipiente que cada iniciado no candomblé recebe e onde ficam objetos sagrados. Quando uma pessoa cadastra seu terreiro no aplicativo, ela preenche um questionário com informações sobre a religião e o templo.

Além disso, o sistema tem quatro expressões culturais de herança ancestral: afoxé, baianas de acarajé, blocos afro e capoeira. Da mesma forma que os terreiros, são as pessoas que informam sobre seus grupos.

O aplicativo pode ser consultado também por quem quer conhecer essas expressões no estado. Dentro da plataforma, é possível divulgar os eventos na agenda cultural. Há ainda um resumo, a localização e o contato de cada um desses grupos culturais.

— Na seção dos terreiros, por exemplo, há o ícone e o contato de cada um. Conforme as pessoas vão se cadastrando, o mapa vai ficando mais completo. O aplicativo promove cultura, turismo e educação — garante Arethuza D’Oyá, filha de Mãe Márcia e ialaxé no terreiro.

Arethuza e Mãe Márcia buscam duas parcerias com o Estado do Rio. A primeira é com a Secretaria estadual de Turismo, para que hotéis ofereçam o aplicativo aos hóspedes. Através dele, os visitantes poderão saber, por exemplo, onde encontrar baianas de acarajé e outros eventos culturais.

A segunda é com a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), para que o Igbá seja também um canal de denúncias, fazendo chegar os casos de intolerância religiosa à especializada.

— O turista chega ao hotel e quer conhecer um terreiro, saber onde tem festa, evento ou passeio. Ele vai encontrar tudo ali, no aplicativo. No meu terreiro, por exemplo, tem lojinha de artesanato — afirma Mãe Márcia, acrescentando: — Em relação ao casos de intolerância, acho que os religiosos vão se sentir mais seguros com o aplicativo para fazer denúncias.

A Secretaria estadual de Turismo informou que avalia a proposta. A delegada Marcia Noeli, titular da Decradi, disse que espera reunião com a idealizadora do aplicativo para debater a parceria.

Para o futuro, a ideia é que a plataforma tenha alcance nacional. Antes, no entanto, é preciso se estruturar no estado. Para isso, o Igbá conta com 26 coordenadores que divulgam o aplicativo e orientam sobre a sua utilização.

O Ebomi Glauber Senra de Oxóssi é um dos coordenadores estaduais. Ele explica que o aplicativo promove socialmente os terreiros:

— Temos em mãos uma ótima ferramenta que vai trazer ampla visibilidade para o nosso candomblé. Além disso, vai fazer com que aumente a disposição social dentro dos aspectos da religiões afro-brasileiras. O Igbá dispõe ainda de assessoria jurídica e turística.

Um dos terreiros cadastrados é o Ilê Axé Nilá Odé (Casa do Alto de Oxóssi), do Pai Ícaro de Oxóssi. Vilde Dorian de Iansã, sarapegbé (relações públicas) da casa, acredita que o Igbá vai ser também uma ferramenta de combate ao preconceito:

— O que queremos é que as pessoas passem a nos conhecer e, a partir daí, consigam superar seus preconceitos pelo desconhecimento do que fazemos. Nossa religião é de ancestralidade, cultuamos os que nos antecedem. Queremos ter vez e voz.

Eliana de Yemanjá, iyá kekerê (mãe pequena) do Ilê Axé Fon Obá Okun Ati Ossanyi (Casa de Efon da Rainha do Mar e do Rei das Folhas), também acredita que os religiosos de matriz africana vão ficar mais unidos através do Igbá:

— A gente é considerado como minoria, mas somos muitos. O aplicativo é para união e conhecimento de todos que estão nascendo e crescendo na religião. Tem casa nova que está começando agora, mas a nossa cultura é muito antiga e passada de pais para filhos.

O aplicativo pode ser baixado em Android e iOS.

Tags: #apps#Candomblé#Religião#Umbanda
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