Uma criança assassinada, sete acusados, um ritual macabro, tortura policial e negligência policial. Esses são os elementos que compõem o panorama geral de um dos maiores casos da crônica policial brasileira: o caso Evandro. Vamos discutir, a seguir, o que aconteceu com esse menino de Guaratuba na década de 90.
Há quase 30 anos, em abril de 1992, a cidade de Guaratuba, no Paraná, foi o cenário de um crime brutal, o desaparecimento e assassinato de Evandro Ramos Caetano, de apenas 6 anos. O corpo da criança foi encontrado em um matagal mutilado e com as mãos e pés decepados.
Não demorou muito até os policiais encontrarem os culpados, e sete pessoas foram presas após confessarem o crime brutal, alegando que o assassinato do menino foi a cargo de um ritual religioso. Motivo esse que deu ao caso o popular apelido de “As Bruxas de Guaratuba”. Contudo, o cenário se complica quando parte dos até então culpados alegam que haviam sido torturados pela polícia para admitir participação no crime.
Recentemente, o caso ganhou uma nova narrativa, um documentário produzido pela Globoplay, o caso Evandro Globoplay. Muitas revelações são feitas na produção e traz um novo olhar sobre o que de fato aconteceu com o menino Evandro e todos aqueles envolvidos.
Como ocorreu o desaparecimento
Nossa história começa no dia 6 de abril de 1992. Naquele dia, durante o percurso da escola em que estudava até sua casa, o menino de 6 anos, Evandro, desapareceu sem deixar rastros.
Durante a década de 90, uma espécie de “surto” de desaparecimento de crianças estava acontecendo e Evandro já era a segunda criança desaparecida em Guaratuba. A primeira era Leandro Bossi, que até hoje não foi encontrado.
Poucos dias depois, em 11 de abril, lenhadores que passavam pela região perceberam a presença de urubus e encontraram um corpo. Ademir Caetano, pai de Evandro, então, reconheceu o corpo e confirmou que a criança não estava desaparecida, e sim morta.
Como Evandro foi encontrado morto
O corpo foi encontrado sem couro cabeludo, olhos, pele do rosto, partes dos dedos dos pés, mãos, com o ventre aberto e sem órgãos internos. Foi através de um sinal de nascença, que Evandro tinha nas costas, que o pai identificou o filho.
A partir daí, as investigações começaram com toda a força e o grupo Tático Integrado de Grupos de Repressão Especial (Tigre) da Polícia Civil foi enviado para Guaratuba. Entretanto, não foi apenas a equipe Tigre que se encarregou de investigar o crime. Diógenes Caetano dos Santos Filho, primo de Evandro, que trabalhou durante um ano como Policial Militar e dez anos como investigador da Polícia Civil, começou suas próprias investigações paralelamente.
Bruxaria e acusados
Não demorou muito, Diógenes levou ao Ministério Público paranaense um dossiê de “magia negra”, em que trazia nomes de possíveis envolvidos no crime. Entre os citados estava o pai de santo Osvaldo Marcineiro, mas seu nome não foi o maior dos espantos. A história ficou mais complicada quando Celina Abagge, esposa de Aldo Abagge, até então prefeito da cidade, foi citada na lista de acusados.
O primo de Evandro alegou que os interesses de Celina no crime estavam ligados ao sucesso de sua família. A acusação foi de que a primeira-dama encomendou a morte de Evandro para um ritual religioso que visava o sucesso político da família.
Tendo isso em vista, uma nova equipe policial entrou em ação, o Grupo Águia, que em apenas um mês de investigação, e com embasamento no que havia recolhido Diógenes em seu dossiê, apontou sete culpados: Celina Abagge, primeira-dama da cidade; Beatriz Abagge, filha do prefeito; Osvaldo Marcineiro, pai de santo; Vicente de Paula Ferreira, ajudante de Osvaldo; Davi dos Santos Soares, um artesão de Guaratuba; Francisco Sergio Cristofolini, dono do imóvel onde morava Osvaldo; e Airton Bardelli, funcionário da serraria da família Abagge.

As prisões e envolvimento político
Após esses sete nomes colocados em xeque, o processo judicial começou. Cinco dos sete acusados – Beatriz, Celina, Osvaldo, Vicente e Davi – confessaram sua participação no crime, por meio de fitas de áudio e vídeo editadas.
Em questão de poucos dias, todos os sete foram condenados e presos e quem realizou essas prisões não foi o Grupo Tigre, responsável pelo caso, e sim o Grupo Águia.
Essa história tem uma grande reviravolta quando mais um personagem entra em cena: a negligência policial. Os acusados alegaram que haviam sido torturados pela Polícia Militar para confessar o ritual de bruxaria contra o menino Evandro.
Confissões sob tortura
Celina e Beatriz contaram que foram levadas encapuzadas para uma casa de madeira, afastada do fórum, para prestarem seus depoimentos. Mãe e filha afirmaram que foram obrigadas a falar o que os policiais mandaram, caso contrário, eram ameaçadas, violentadas e torturadas.
As duas também contaram que, apesar das notórias agressões e lesões que apresentavam em seus corpos, nem a justiça e nem a mídia as davam voz. Tudo o que a comoção popular queria era um culpado para a história, sem reais intenções com a verdade, segundo a percepção de Celina.
Osvaldo Marceneiro e Davi dos Santos também afirmaram ter sido torturados e apontaram o local, a casa de veraneio do ditador paraguaio Alfredo Stroessner. Além disso, os dois disseram que uma mulher presenciava as sessões de tortura: Anésia Edith Kowalski, juíza que os condenou pelo crime.
Depois de tudo isso, todos os sete acusados começaram a negar completamente qualquer tipo de envolvimento com o crime.
Julgamentos e condenações
Ao todo, o caso passou por cinco julgamentos diferentes. Celina e Beatriz Abagge cumpriram pena em regime fechado durante três anos e nove meses na Penitenciária Feminina do Paraná, e depois por mais dois anos em prisão domiciliar.
Entretanto, a história mudou de figura quando uma testemunha de acusação, que alegava ter visto Evandro dentro do carro com os acusados no dia do desaparecimento, entrou em contradição no tribunal e também após o misterioso suicídio do perito responsável pelo exame que não apontou tortura após as prisões. Ademais, as fitas que continham as confissões passaram por edição e cortes. Sendo assim, Celina e Beatriz foram inocentadas.
Já com Osvaldo Marcineiro, Davi dos Santos e Vicente de Paula a história foi diferente e o trio acabou condenado em 2004. No ano seguinte, Airton Bardelli e Francisco Sergio Cristofolini, que nunca admitiram participação no crime, foram absolvidos.
O destino de Vicente de Paula foi cruel, e o homem faleceu no presídio em 2011 por complicações de um câncer. Já Osvaldo Marcineiro e Davi dos Santos tiveram as penas extintas pelo cumprimento.
Série Documental
Quase 30 anos após o caso, um documentário dividido em seis episódios produzido pela Globoplay traz à tona muito do que foi deixado passar nesse caso para lá de misterioso na série caso Evandro.
Os torturados, por sua vez, afirmam que jamais esquecerão os horrores que passaram e que querem seu status de inocência aceito socialmente. Já a Polícia Militar não se manifesta sobre o tema e afirma não ver razão em falar sobre um caso já solucionado pela Justiça.
Entre muitas teorias que circulam sobre o caso Evandro, uma das mais aceitas é a de que havia um serial killer em Guaratuba, responsável pelo que aconteceu com Evandro Caetano e Leandro Bossi, nunca encontrado.
O caso Evandro é um dos grandes mistérios nacionais e abala as estruturas políticas e sociais do estado do Paraná até hoje, onde muitas lacunas seguem abertas sobre o que de fato aconteceu com o menino Evandro, e coloca em cheque a integridade da polícia e da justiça.








