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“Raízes”: história de Marielle Franco é contada em HQ

Lançamento faz parte de campanha que visa mostrar mulheres negras como as maiores vítimas da violência

redacao Por redacao
18/07/2021 - 10:20
em Cultura
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História de Mariele Franco em quadrinhos

Instituto Marielle Franco lança, no dia 27, a “HQ Marielle Franco Raízes”, (Foto: Divulgação)

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Marielle, presente! Na luta pelos direitos da mulher preta, favelada; no combate à violência, ao racismo, a todo tipo de preconceito e às desigualdades sociais.

Presente nos pilares que movem o projeto social que leva o seu nome: lutar por justiça, defender a memória, multiplicar o legado e regar as sementes.

Presente na força que fez sua irmã, Anielle Franco, transformar luto em luta. Escritora, professora e diretora do Instituto Marielle Franco, na Saúde, a moradora de Del Castilho, de 37 anos, representa a voz tão familiar que foi calada a tiros em 14 de março de 2018.

No próximo dia 27, data em que a vereadora assassinada completaria 42 anos, Anielle lança o HQ “Marielle Franco raízes”, para eternizar em quadrinhos a jornada desta força feminina.

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O gibi, que terá versão on-line disponibilizada no site do instituto, é apenas uma das ações para celebrar o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha (25 de julho).

No canal do projeto social no YouTube, a autora do livro “A radical imaginação política das mulheres negras brasileiras”, escrito em parceria com Ana Carolina Lourenço, comanda o programa “Papo Franco”, sempre com conversas que discutem temas atuais e que levam à reflexão.

No Canal Brasil e no Globoplay, a série “Para onde vamos” já está sendo exibida. O fato é que o ativismo tão presente em Marielle também corre nas veias da ex-jogadora de vôlei que cresceu na comunidade da Maré tendo a irmã mais velha como companheira de todas as horas.

— Mari era maior do que qualquer partido, e a sua curta passagem por aqui não foi em vão. Em um ano e três meses como vereadora, apresentou 27 projetos de lei. Ela iria muito mais longe, nem dá para imaginar o quão longe iria….

Preferia que a Mari estivesse dando esta entrevista, mas, como não é possível, estou aqui para falar que a gente não quer mais morrer com cinco tiros na cabeça para estrelar um documentário, que a gente quer estar à frente de postos de decisão, de protagonismo.

O dia 25 de julho é todo dia. A luta é diária para estarmos vivas. O nosso corpo é político. As mulheres pretas sempre estão no topo das estatísticas negativas, como as do desemprego e de vítimas de violência. Nós ainda somos pouquíssimas em lugares de destaque.

Por isso é tão importante potencializar o Instituto Marielle Franco através de diversas ações, para que as mulheres, pretas ou não, se sintam plenamente representadas e acolhidas — diz a professora e escritora.

Lembranças da infância e da parceria em família na Maré

Mãe de Mariah, de 5 anos, e Eloah, de 1, Anielle Franco tem plena consciência dos desafios de ser uma mulher preta no Brasil. Mas, apesar dos dramas pessoais e nacionais, optou por ter em mãos a bandeira do otimismo.

— O país está mergulhado em ódio, racismo, homofobia. Está difícil, mas eu sou positiva. Não conseguiria acordar todos os dias para cuidar das minhas duas meninas se não acreditasse em dias melhores. Crio as minhas filhas com os ensinamentos que eu e Marielle recebemos da nossa mãe (Marinete Silva). Ela sempre dizia que nós, além de pretas, éramos faveladas, e então não bastaria sermos boas em alguma coisa, tínhamos que ser as melhores.

Tenho a referência de uma mulher preta que de madrugada copiava os livros de outras crianças para que a gente pudesse estudar, já que a gente não tinha como comprar. Venho de uma família matriarcal com mulheres negras, nordestinas, indígenas, quilombolas, que sempre lutaram para sobreviver. Sou o resultado destas mulheres — frisa.

É no dia a dia que Anielle transmite às filhas as lições que aprendeu com a mãe e com a irmã.

— Desde sempre falo com as minhas meninas, mesmo sem que elas possam entender, das dificuldades que vão enfrentar. Vivemos num país racista, misógino, que julga quando a mulher quer ter filho e quando não quer. A mulher é julgada o tempo todo. Não é, nem nunca foi fácil ser mulher. Mas a educação salva. Repito todos os dias para as minhas filhas que estudem, porque conhecimento ninguém tira da gente. Nem a nossa força e a nossa fé. Quero que Mariah e Eloah cresçam sabendo a força do sangue que corre nas veias dela. Que esse legado seja inspirador! — torce.

Inspiração eterna de Anielle, Marielle está sempre nas suas lembranças. É com emoção que a escritora recorda passagens da infância ao lado da irmã:

— Eu jogo vôlei desde os 8 anos. Lembro que descia para jogar no chão de barro com os meninos, na Maré, e eles não me deixavam jogar. Um dia, a Mari, que era cinco anos mais velha, disse que eu ia entrar na partida ou ninguém mais ia brincar. Ela pegou a bola e arremessou longe. Um caminhão de gás passou e estourou a bola. Mari não se intimidou com a revolta dos meninos. Nunca esqueci essa história. No dia seguinte, me deixaram jogar. Foi aí que um dos técnicos do Vasco me viu atuando, gostou do meu desempenho e me levou para ser atleta do clube. Eu também me recordo de quando eu e Mari jogávamos queimado, vôlei… Era ela que levava marmita para mim no Luso Carioca, onde estudei (em Bonsucesso), para que de lá eu pudesse ir direto para o treino. Mari fez muita diferença na minha vida.

Quadrinhos para eternizar a história

A HQ “Marielle Franco raízes”, que será disponibilizada a partir de 27 de julho no site institutomariellefranco.org, conta a história da vereadora desde a infância na Maré até a sua entrada na universidade. O lançamento faz parte da programação da 9ª edição do Julho das Pretas, campanha que visa mostrar mulheres negras como as maiores vítimas da violência, da pandemia, do racismo e do machismo no Brasil.

O projeto foi idealizado por Anielle juntamente com a equipe do projeto social, que tem seus pais, Marinete e Antônio, e sua sobrinha, Luyara, como integrantes, e terá uma versão impressa para ser distribuída em escolas da Maré.

— A HQ está linda demais. Tudo foi pensado com muito carinho, desde as ilustrações até cada palavra escrita ali. A história começa com o casamento dos meus pais até a chegada da Mari na PUC, passando pela infância na Maré, a responsabilidade que ela sempre teve comigo e a união com o pai da Luyara, aos 18 anos, já grávida. A realidade da Mari é a de muitas meninas.

O objetivo de contar esta história em quadrinhos é fazer com que cada menina, cada mulher, acredite sempre no seu borogodó, na sua intuição e na sua capacidade. A nossa força move montanhas, e vamos em frente! — diz.

Seguir em frente, sim, mas sem jamais deixar fazer a pergunta que não quer calar: quem mandou matar Marielle

— Nunca vou deixar de ter esperança de descobrir quem mandou matar a minha irmã. Este é um crime que escancara a fragilidade da nossa democracia — alerta Anielle.

As informações são de O Globo.

Tags: #MarielleFranco#Quadrinhos
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