Em Diante da dor dos outros, Susan Sontag (escritora, cineasta, filósofa e professora) relembra que a manipulação de imagens não é um invento dos dias contemporâneos ou daquilo que costumamos chamar de fake news. Em sua intrigante pesquisa, ela indica que a pintura e a fotografia foram modos de montar a realidade, uma vez que o enquadramento da imagem em si é um aparato de exclusão.
Isto é dizer que no momento em que o fotógrafo/artista decide retratar uma imagem, simultaneamente vemos em operação uma não-inclusão de outras perspectivas não aprendidas pelo framing (enquadramento da imagem).
Em contrapartida, as pinturas/fotos são mediadas pelas legendas jornalística ou artística que direcionam a interpretação da realidade enquadrada pela lente da câmera ou do pincel.
Em outro momento do texto, ela discute que a obsessão com o “espetáculo” aprisiona a realidade dentro dos confinamentos da grandiosidade da exibição, de modo que o real é reduzido ao espetacular.
Ou de forma mais simplificada, o que não é espetacular não existe e o que é grandioso deve ser comprovado por imagens que sustentam a existência de tal realidade.
Semana passada, nos deparamos com o fiasco da “motociata” em apoio ao candidato a pior Chefe de Estado da história brasileira (mesmo sendo um pódio concorrido por figuras como os ditadores Médici, Costa e Silva, e pelo liberal Collor).
Embora haja dados oferecidos pelo próprio pedágio que confrontam a narrativa dos participantes do evento,[1] os ilusos motoqueiros[2] seguem defendendo o discurso que 1 milhão de motos coroaram o seu decadente messias. Do outro lado, vemos aqueles que visam desmontar tal argumento, apontando para uma realidade inventada, aumentada e espetacularizada.
Se concordamos com Sontag, poderíamos afirmar que há um desespero bolsonarista para que o espetáculo reflita sua existência e força política, como se os números e a suposta grandiosidade da passeata lhe garantissem materialidade para a desejada vitória de 2022.
Seguindo com a pensadora, poderíamos considerar-nos vitoriosos uma vez que o próprio bolsonarismo busca angustiadamente, na performance motorizada, um imagético que impulsaria sua reeleição. Porém, ele segue confrontado com uma realidade em que o tumulto por certificar os números irreais são maiores que o próprio evento.
Em si, essa realidade sem espetáculo seria inexistente, dentro dos marcos criticados pela autora. Em outros termos, a necessidade de criar espetáculos seria um sintoma do fracasso do projeto político bolsonarista que se vê ao borde do abismo.
No entanto, se levarmos o pensamento de Sontag para um lado menos ortodoxo, vemos um risco ainda maior frente a quase certa derrota de Bolsonaro devido à debilidade de sua força política verificada no fracasso de suas demonstrações populares.
Se concordamos que o fracasso do espetáculo é a prova cabal do fim de seu projeto político, podemos perder de vista a sua atuação extra midiática e aí reside um grande perigo. Bolsonaro é meramente um símbolo de um longo projeto em construção, assunto que intenciono tratar em outro momento.
Corremos também o risco de subestimar as atuações para-democráticas do Bolsonarismo completamente ancorado numa elite que apoia o seu desgoverno, ao passo em que o entreguismo privatizador persiste e que a boiada de medidas contra os direitos da Amazônia e das populações indígenas são avançados. Em si, é muito perigoso cantar vitória antecipada frente a derrota de Jair Bolsonaro nas urnas, ele deve ser derrotado nas ruas e com organização popular.
O bolsonarismo, assim como o trumpismo, não perde nas urnas porque sua força política fascista desatina de um desejo de extermínio do outro, altamente financiado pela elite colonial brasileira.
Infelizmente, o bolsonarismo segue bem de saúde entre essa classe, em grande parte do conservadorismo neopentecostal e, mais ainda, entre as milícias organizadas nas periferias das grandes capitais.
Não é que o projeto intelectualmente encabeçado por Guedes deixe de existir no dia 1 de janeiro de 2023, se não coordenamos a busca por um Estado que se faça presente para as demandas populares, a milícia armada e as religiosas continuarão alimentando contra-insurgências e um fantasma anticomunista na classe trabalhadora.
Esperar até a eleição para tentar vencer as organizações de base bolso-fascistas não garantiram a queda de seu atentado político, independentemente do resultado da eleição de 2022. Se atualmente a Colômbia enfrenta o caos do Narco-Estado, no Brasil se experimenta uma Milícia-Estado que opera dentro do aparato democrático para enaltecer o autoritarismo criminoso, notadamente, contra comunidades empobrecidas e racializadas.
Por isso que o chamado às ruas é mais que necessário, é urgente. Sim, devemos nos proteger do vírus, mas devemos sempre manter em mente quem não pode se proteger do racismo, do trans-femicídio e muito menos do vírus.
Apesar de acender uma fagulha de esperança toda vez que vemos os números de reprovação bolsonarista, não podermos nos engajar numa prática de São Tomé com relação a sua possível vitória, já que aquilo que não vemos no campo político tende a ser mais danoso do que aquilo que podemos observar de perto.
Sim, o bolsonarismo tem sofrido fortes e importantes derrotas, especialmente no campo internacional, já que o liberalismo do Norte Atlântico tende, atualmente, a preferir um estrangulamento econômico menos visível aos olhos e que cause menos comoção popular. Mas não, o bolsonarismo está longe de ser derrotado no contexto atual.
De modo algum, também coaduno com os setores de uma esquerda que aplica a regra do vale-tudo contra o bolsonarismo, em um desespero tático que atua como se a vitória de nosso oponente fosse quase certa.
O discurso de “civilização e barbárie” de Marcelo Freixo, por exemplo, torna a civilização algo tão expansivo que inclui atores pró-barbárie como Raul Jungmann, ministro de segurança do período Temer que orquestrou massacres contra a população pobre e negra das periferias, período em que a dor pela perda de Marielle Franco estava ainda mais recente.
Além disso, é aterrador assistir o maior ator político na CPI das milícias se aproximar da bancada da bala e de Rodrigo Maia. Se por um lado há uma “esquerda” que segue certa de que o Bolsonaro cairá, por outro lado, há também uma esquerda que está disposta a abraçar os amigos da direita para uma campanha a lá “todos contra o Bolsonaro”, inclusive liberais e alguns proto-fascistas.
Sorte de ser branco e de esquerda a fim de poder fazer tais negociações, luxo que setores pobres e pretos não possuem já que, para alguns, a bancada da bala só negocia com a bala achada na favela.
Uma civilização em que atores políticos que apoiaram o Bolsonarismo seguirão no poder não pode derrotar o Bolsonaro, a gente cria outros símbolos para o mesmo problema.
A esquerda não precisa se flexibilizar para vencer o fascismo, o que precisamos é de nos radicalizar. E com isso, devemos nos organizar. E organização vem com projetos que não abram mão do socialismo, do antirracismo e do feminismo popular. Até porque, alguns projetos correm o risco de esticar tanto o significado do termo civilização em que modos menos espetaculares de barbáries sejam toleráveis ao ponto que se convertam em sinônimo de civilidade democrática.
Infelizmente, o “socialismo democrático” tem muitas características, a única que parece faltar é o socialismo.
[1] A Secretaria de Segurança de São Paulo afirma que aproximadamente 12 mil motos participaram do protesto, enquanto o pedágio do Campo Limpo Paulista declara que houve uma movimentação de umas 6, 200 motocicletas.
[2] Utilizo o termo motoqueiro por evitar em nomear os apoiadores da trágica política negacionista de motociclistas. Conforme aprendi entre moto clubes, motoqueiro, para os motociclistas, uma conotação negativa ao passo que motociclista está vinculado ao respeito ao próximo, as leis, as vidas. Criminosos que premeditadamente escondem suas placas, infringindo às leis de trânsito, não merecem ser chamados por um nome que evoca responsabilidade cívica.








