A diretora de Educação de Mongaguá, no litoral de São Paulo, acusou, durante uma transmissão ao vivo em suas redes sociais, os professores da rede municipal de ensino de não quererem trabalhar, e desmentiu a existência de casos de Covid-19 entre eles. Em nota, a prefeitura alegou que a fala foi retirada de contexto (leia mais ao fim da matéria).
Priscila Eleutério Gomes comanda a Diretoria Municipal de Educação e fez, na última semana, uma live em suas redes sociais para falar sobre a volta às aulas presenciais na rede básica de ensino no município. Ela começa a transmissão falando sobre o uso de máscaras de proteção nas crianças, e diz que elas são “um exemplo para nós”, pois estão usando corretamente.
Em seguida, ela fala que professores estão mentindo sobre o contágio pelo coronavírus. “Se vocês estão ouvindo que os professores estão pegando Covid, é mentira. É mentira, tá? Não estão. Por que são só os professores que pegam Covid? Estranho isso. Funcionário não é nada? Gestor não é nada? Então gente, é muito ‘mimimi’ para pouco ‘vamos lá'”, diz durante a transmissão.
Priscila continua. “O que acontece hoje é que tem gente que não quer trabalhar, esse que é o grande problema. E eu tenho que avisar, ou lembrar, que as pessoas têm deveres, tá bom? Não existe essa possibilidade. Os professores que estão apresentando atestado é porque estão em home office, e eu não tenho nada a ver com a vida de ninguém”, diz a diretora de Educação.
‘Nos sentimos ofendidos’
Uma professora da rede municipal, que preferiu não se identificar, disse que diversos professores da cidade se sentiram ofendidos com a fala da diretora. “Nos chamou de vagabundos. Essa foi a fala dela. Todos nós nos sentimos ofendidos e esmagados”, disse.
“Falar que você não quer trabalhar? Falar que professor doente, com comorbidades, que ela não está nem aí, e também que não teve morte de Covid. Nós perdemos muitos amigos, muitos companheiros”, desabafa a professora. “Ela não tem postura”, conclui.
Repercussão
A fala da diretora de Educação repercutiu na internet após a deputada estadual Mônica Seixas (PSOL) compartilhar o trecho da transmissão em que Priscila diz que não há casos de Covid-19 entre os professores da rede municipal de Mongaguá.
Em entrevista, a deputada estadual defendeu que a declaração “expôs o desprezo pela vida desses trabalhadores”. “Esses trabalhadores estão vulneráveis, em condições de trabalho que requerem aglomeração. Não existe aula de Ensino Básico sem contato humano, sem colo”, explica.
A deputada diz, ainda, que a situação expõe “a condição de assédio moral pela qual os professores estão passando”. “Os vídeos chegaram até mim por professores da rede municipal, com muito medo de se exporem. O agente público que deveria defendê-los vem publicamente falar que as preocupações deles são ‘mimimi'”, diz.
“É uma vergonha, uma tristeza. Quando eu vi o vídeo, me chocou a falta de sensibilidade da liderança. A forma e as palavras escolhidas para tratar a temática. O poder público deveria atuar para mitigar os danos e acalmar as pessoas”, diz a deputada estadual.
Mônica Seixas afirma que compartilhou o trecho do vídeo nas redes sociais porque “repudia o ato”. A deputada afirma, ainda, que irá apresentar uma moção de repúdio, e protocolará um ofício à prefeitura para “cobrar satisfação do posicionamento pouco diplomático, que ofende a categoria”. “Os professores merecem desculpas”, finaliza.
Prefeitura de Mongaguá
O G1 solicitou à Prefeitura de Mongaguá uma entrevista por telefone com a própria Priscila, mas teve o pedido negado pela Diretoria de Comunicação. A administração municipal enviou uma nota acerca das declarações da diretora. Leia abaixo a íntegra do posicionamento:
“A Prefeitura de Mongaguá informa que o Departamento Municipal de Educação segue as diretrizes do Governo do Estado em relação à retomada das atividades presenciais. No dia da live em questão, a diretora Priscila Eleutério Gomes apresentou um raio-X sobre como estava o dia a dia da retomada gradual das aulas presenciais, com 35% dos alunos. Todos os profissionais trabalham com EPI e as unidades passam por constante higienização e sanitização.
Como no último boletim do Governo do Estado, cidades vizinhas a Mongaguá tiveram elevação no contágio, o município suspendeu a retomada presencial.
O material que está sendo divulgado é um trecho da fala da diretora Priscila, descontextualizando a mensagem. Os bebês e crianças das creches com menos de 2 anos não usam máscara, mas todos os profissionais usam EPIs.
Na Educação Infantil, as atividades retomaram em 10 de maio, e a Pré-Escola, dia 24 do mesmo mês. Nesse período, nenhum dos profissionais que retornaram ao trabalho presencial apresentaram atestado com Covid. ‘Em contrapartida, uma pequena parcela da categoria, que estava 100% em home office, mas postava fotos viajando, em bares e academia, apresentaram atestado para a doença’, frisa a diretora de Educação.
Ao se referir ao mimimi, a representante da pasta fez uma comparação com as demais categorias, que não pararam durante a pandemia. ‘Estamos em atividades remotas há mais de 1 ano. Quase 100% dos trabalhadores da Educação com mais de 47 anos foram vacinados. Em breve, os demais serão. Mas nossa cidade conta com garis, caixas de supermercados, pessoal do Social, Limpeza Pública, Trânsito e demais profissionais que não foram imunizados e estão trabalhando todos os dias. Sei que a grande maioria dos professores quer o retorno das atividades’, destaca a Priscila”.
As informações são do G1.








