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Um dia após o outro: como artistas têm trabalhado na rotina da pandemia

redacao Por redacao
04/04/2021 - 13:00
em Cultura
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Como os artistas tem trabalhado na pandemia

Ator e humorista carioca Yuri Marçal estava acostumado a transformar o lar em estúdio (Foto: Divulgação)

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“O músico é um sonhador, como todo artista. Ele jamais iria pensar que ficaria um ano sem trabalhar ou teria guardado dinheiro para isso”, diz o compositor carioca Moacyr Luz.

Há 15 anos, Moa – como é conhecido – instituiu um marco do início da semana no Rio: toda segunda-feira, às 16h, os portões do Clube Renascença, no bairro do Andaraí, se abriam para receber o Samba do Trabalhador, reunindo cerca de 1,5 mil pessoas até a noite.

No fim de 2020, quando houve flexibilização do isolamento, o projeto ensaiou um retorno, com público reduzido e seguindo protocolos sanitários.

“A gente ficava num palco alto e com grade, o público sentado. Na terceira vez eu estava triste, os músicos também”, conta.

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Distância não tem a ver com samba. “Mas no momento você não tem como planejar nada. Olha, eu tenho até vontade de chorar que isso é algo que eu falo escondido de mim mesmo: a gente está longe de estar com algo resolvido. Erros fundamentais, falta oxigênio, depois falta luva. Fecha bar, abre bar. Não tem um controle, uma posição”, lamenta.

Moacyr Luz
Foto: Marluci Martins / Divulgação

Moa era grande parceiro de Aldir Blanc, compositor que morreu em maio de 2020 em decorrência da Covid-19 e que dá nome à lei de auxílio a artistas do Governo Federal durante a pandemia.

“Muita gente do meu universo foi contemplada. Mas também ficou muita gente de fora, entende? Gente que não entendeu bem”, diz ele.

Em casa, Moa tem acordado cedo e passado grande parte do dia compondo. “Eu já fiz umas 100 músicas nesse um ano de tragédia”, conta.

Nas últimas semanas, duas composições suas foram lançadas nas vozes de Mart’nália e Diogo Nogueira. Com o grupo do Samba do Trabalhador, gravou um jingle para a Prefeitura do Rio, o “Samba da Vacina” – “não existe outro remédio”, diz a letra.

“Estou preparando a dispensa pra quando chegar a hora de música ter o que tocar, ver a emoção na volta, ter a troca com as pessoas. A cidade está triste, ela reflete”, diz ele. “Todo dia eu sonho com a volta do Samba do Trabalhador.”

Derlon
Foto: Divulgação

Em São Paulo, o artista visual pernambucano Derlon também tem se organizado em uma rotina de levantar cedo e trabalhar até o fim da tarde. Em março de 2020, ele tinha três exposições marcadas, uma residência planejada e, conhecido por seus murais, estava em um ritmo de trabalhos de grandes dimensões.

Percebendo a gravidade do momento, trouxe material do ateliê para casa.

“Apesar do susto, tentei ter calma pra que algo pudesse florir. A partir de maio eu já tinha projetos para serem apresentados nas plataformas virtuais. Acho que a cultura sempre salva, especialmente em momentos tão difíceis e delicados”, diz ele.

Os murais deram lugar a objetos menores e gravuras, comercializados online.

Derlon foi estudando também como apresentar isso ao público: fotos, vídeos. Observa que artistas se adaptaram de formas distintas.

“Arte é complexo, não dá pra tentar uniformizar. A cabeça do artista é muito diferente”, diz. Sendo esse um mercado já restrito, em especial para quem atua de forma independente, crê que iniciativas privadas poderiam se envolver mais no momento. Ele destaca o Arte Como Respiro, edital do Itaú Cultural lançado em junho de 2020 que contemplou projetos de música, artes visuais, cinema, literatura, dança e teatro.

Em Parintins (AM), há décadas trabalhando com cenografia nos grandes festivais da região, o artista Makoy Cardoso em dado momento chegou a direcionar seu ateliê para a confecção de equipamentos de proteção contra a Covid-19 – doença que ele e toda sua família tiveram, e que levou uma cunhada e um sobrinho seus. “Faço o Festival de Parintins, Sairé (PA), Barreirinha (AM). É um cronograma que nos garante o ano todo”, explica.

Hoje, Makoy tem feito acessórios, como cocares, para emoldurar. Prepara para maio uma exposição. Mas detalha que, para trabalhadores menos estruturados, tem sido mais difícil.

“Muita gente do setor passou dificuldade. Nós que já temos uma vida mais resolvida nos unimos em certo momento para ajudar pessoas de nossas equipes com alimentação. A grande maioria aqui fez a Lei Aldir Blanc, e eu tenho ajudado alguns amigos nisso”, diz.

“Nós, de grupos independentes, pernoitamos olhando chamadas públicas”, afirma o bailarino baiano Guego Anunciação. O ano de 2021 marca uma década da Reforma Cia de Dança, que ele dirige. O espetáculo comemorativo foi viabilizado via Lei Aldir Blanc e fruto de um trabalho árduo de ensaios virtuais e mudanças de rota. “Búfalos e Borboletas” estreou online neste sábado (3) e é dividido em duas obras: na primeira, os bailarinos dançam coletivamente. A segunda, a ser apresentada no próximo sábado (10), é composta de solos.

Devido ao agravamento da pandemia, a duas semanas da estreia ele teve de mudar o local do espetáculo em Salvador, que foi gravado. Apesar de os bailarinos terem feito testes, o grupo decidiu usar máscaras.

“A gente acreditou que era importante manter. Essa foi outra adaptação: como gerenciar o corpo com esse novo acessório? Foi um grande desafio, o que segurou tudo isso foi a força do coletivo”, diz. Sobre o futuro, Guego diz que a companhia está organizada financeiramente até junho. “Então tem um pouco de apreensão”, admite.

Editais e auxílio para prosseguir

Sancionada em julho de 2020, o projeto de lei Aldir Blanc, de autoria da deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), estipulou o repasse de R$ 3 bi para setores da cultura. Desse valor, R$ 774 milhões – 25% do total – não foram utilizados em 2020, quando os editais começaram a ser lançados a partir de setembro. Na última quarta-feira (31), foi aprovada no Senado a retomada da Lei para 2021, com a reutilização do valor represado, que voltaria aos cofres da União. O projeto agora será votado pela Câmara.

Mariana Aydar
Foto: Divulgação

“A cultura foi um setor totalmente atingido”, diz a cantora paulistana Mariana Aydar. “Vi muitas coisas tristes: pessoas vendendo os instrumentos, fechando estúdios. Vai ser muito difícil se reestruturar se não houver uma ajuda política. Tem a urgência das pessoas que precisam agora e tem reestruturação de casas de shows, como Casa de Francisca, Ó do Borogodó”, coloca.

Alguns espaços culturais, mesmo com o auxílio, têm tido dificuldade para se manter e bancar os projetos de contrapartida da Lei, e vaquinhas têm sido feitas.

Há um ano, Mariana havia recém-lançado um álbum e estava pronta para sair em turnê. Em doze meses, conta que teve fases.

“Você vai trilhando por vários caminhos, é uma montanha russa. No começo eu compus bastante, músicas que inclusive falavam desse momento. Lancei o single ‘Foguete’ por causa desse São João que a gente teve que ficar em casa”, conta.

“A arte nunca sucumbiu, ela não é secundária. Ela tem uma função muito importante que é deixar as pessoas fortes para viver.”

Fernanda Paiva
Foto: Natura / Divulgação

A cantora também atuou em 2020 na equipe de curadoria do edital da Natura Musical – projeto pelo qual lançou “Veia Nordestina” (2019), álbum vencedor do Grammy Latino no segundo semestre do ano passado. O edital selecionou 43 artistas para lançar trabalhos em 2021.

Além deste investimento, a plataforma fez parcerias com leis de incentivo da Bahia, de Minas Gerais, do Pará e Rio Grande do Sul com repasse no valor de R$ 1 mi para cada estado, a ser gerido pelas Secretarias de Cultura e direcionado a iniciativas que muitas vezes têm dificuldades de receber os benefícios dessas leis. Somado, o fomento é de R$ 8,5 milhões – o maior da história do programa, surgido em 2005.

“Com o início da pandemia, rapidamente o mercado cultural sentiu o impacto econômico. Entendemos que os editais e as parcerias já estabelecidas com os festivais e a Casa Natura Musical eram essenciais para manter a economia criativa ativa, porém poderíamos alcançar outros artistas e projetos que estão em outros estágios de desenvolvimento e maturidade e que também foram muito impactados pela suspensão das atividades presenciais”, explica Fernanda Paiva, Head of Global Cultural Branding da marca.

Adriana Barbosa
Foto: Jef Delgado / Divulgação

Adaptações e profissionalização do online

Como muitos eventos, a Feira Preta passou em 2020 pelo desafio de se remodelar para ser totalmente digital, após quase duas décadas de existência. Foi o primeiro ano com suporte da Lei Rouanet.

“Boa parte do financiamento que tivemos veio por meio de pessoas pretas em cargos e liderança dentro de empresas”, destaca a fundadora Adriana Barbosa.

Conhecido pelo foco em empreendedorismo, o evento vem nos últimos anos incluindo de maneira mais robusta programação artística, tornando-se um festival com shows e oficinas.

Nessa edição atípica, Adriana conta que batalhou para manter os mesmos fornecedores e uma cadeia produtiva de pessoas negras. Para isso, foi preciso adaptação.

“Teve montador que estava com a gente há vinte anos que virou operador de streaming”, conta. Foram organizadas mentorias e foi cedido espaço na Casa Preta, em São Paulo – lugar criado para ser um coworking e, diante da pandemia, adaptado como estúdio para produção de fotos, vídeos e podcasts de artistas e empreendedores associados ao evento.

Karen Rangel Foto: Divulgação

Em Belo Horizonte, a bailarina Karen Rangel também teve de se adaptar: a sala de casa virou palco. Nos dois primeiros meses de pandemia, de férias coletivas dadas pelo Grupo Corpo, sentiu-se bloqueada. Um projeto da companhia a ajudou a se reestruturar e reanimar: os bailarinos deram aulas online para profissionais de saúde que atuam no combate à covid-19.

“Organizamos workshops gratuitos no Instagram, abrimos um curso para não-bailarinos. Os patrocínios viram a força que nós temos. Mesmo que a gente não pudesse colocar um espetáculo na rua, a gente conseguia público: tivemos lives com 6 mil pessoas dançando. A gente mais do que nunca viu como é indispensável a arte”, diz ela.

Já o ator e humorista carioca Yuri Marçal estava acostumado a transformar o lar em estúdio. Na pandemia, isso se intensificou, com gravações mais pensadas e produzidas.

“Lá no início eu fiz um curta-metragem com minha namorada, [a atriz] Jennifer Dias, dirigido por ela”, conta ele, que tem trabalhado nos últimos meses de maneira presencial em um projeto rodado no Uruguai. “Mas é aquilo: teste todo dia, equipe inteira de máscara, pessoas controlando protocolo o tempo todo. E você vai meio que se adaptando”, diz.

Outro trabalho que ele gravou nesse período é a recém-estreada série “5 X Comédia”, da Amazon Prime.

Douglas Nascimento, empresário do ramo teatral e sócio de uma agência de influenciadores, observa hoje uma profissionalização do trabalho de casa. Ele administra o Teatro Iguatemi em Campinas (SP) e alugou, em 2020, o espaço para lives de músicos como Chitãozinho e Xororó e Sandy. Também testou o formato drive-in para espetáculos.

“Num primeiro momento tivemos as lives com recordes de audiências. E isso depois começa a cair. Nesse segundo momento, a gente tem a profissionalização do trabalhar de casa, muitos cursos. Não sou a favor de voltar agora, deixo isso bem claro. Acho que mais pra frente, quando puder, viveremos mesmo é a ansiedade do presencial”, torce.

As informações são da CNN Brasil.

Tags: #Artistas#Pandemia
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