Em 2018, quando Willian recebeu cartão amarelo na partida contra o Viva Rio, uma enorme dúvida pairou sobre o São Cristóvão: seria aquele o terceiro ou apenas o segundo amarelo do volante? João Machado era diretor de futebol na ocasião e tinha certeza de que o jogador estava suspenso. “Para mim, foi o terceiro, ele não vai poder jogar o próximo”, avisou. Para tirar a prova bastava acessar o sistema da federação, mas, ora, não havia internet no clube.
O número 200 da Rua Figueira de Melo, endereço da sede social e do Estádio Ronaldo Nazário, fica exatamente embaixo do trecho da Linha Vermelha que corta o bairro de São Cristóvão. Sob a sombra do viaduto, o clube sofreu por anos e anos de um problema crônico de furtos de fiação de cobre – só em 2020, de acordo com a Polícia Civil, 16 pessoas foram presas em flagrante roubando fios na região. Motivo pelo qual até pouco tempo era impossível acessar a internet ou mesmo manter uma linha telefônica na sede alvinegra.
Então o técnico Francisco Joel e o próprio Willian foram consultados, ambos disseram acreditar que se tratava do segundo amarelo, e ficou por isso mesmo. Hoje, Machado lamenta não ter seguido sua convicção: “Aconteceu, eu falhei”. O jogador foi a campo na partida seguinte, no 2 a 0 sobre o Barra Mansa. Dias depois, a Procuradoria do TJD-RJ recebeu uma notícia de infração alertando sobre a escalação irregular, e o São Cristóvão perdeu os três pontos da vitória e outros três pela infração. Acabou rebaixado para a Série C do Campeonato Carioca.
O clube-berço de Ronaldo Fenômeno segue afundado na mesma Série C, que este ano passou a ser a QUINTA divisão do futebol do Rio de Janeiro. Mas, de lá para cá, observa-se um conjunto de ações no sentido de reconstruir a instituição centenária. Ser rebaixado por falta de internet foi a gota d’água, por assim dizer.
A primeira dessas foi resolver a questão da conexão: uma empresa parceira bancou a obra para a instalação subterrânea de toda a fiação. Os tempos de cabos furtados chegaram ao fim no São Cristóvão.
Outra coisa que melhorou bastante por lá foi a qualidade do gramado, fruto de uma segunda parceria. A grama foi trocada por inteiro, o que corrigiu a falha gritante que havia dentro das duas áreas e que se arrastava até o meio de campo numa linha reta de terra batida. O estádio mais parecia um campo de várzea.
Com a colocação da nova grama, o piso virou um tapete – sem exagero algum. O time do São Cristóvão agora treina e joga num local em que a bola rola de um ponto a outro sem o risco do solavanco inesperado, cenário irreconhecível se comparado com poucos anos atrás.
No início do ano passado, por exemplo, o Vasco, vizinho de bairro, fez parte de sua pré-temporada no São Cristóvão. A equipe então comandada por Ramon Menezes treinou por cerca de suas semanas na Figueira de Melo para poder poupar o gramado de São Januário.
– O André Souza, nosso gerente de futebol, passou pela Linha Vermelha, olhou e disse: “Acho que o campo está bom”. Nossa comissão técnica foi lá e confirmou que o campo estava muito bem cuidado – disse Ramon Menezes na ocasião.
O gramado de primeira linha significa mais dinheiro entrando nos cofres do São Cristóvão, que aluga o campo tanto para interesses como o do Vasco como para as peladas que ocorrem todo fim de semana. Também faz parte dos planos do clube voltar a receber jogos no estádio, mas, para isso, precisa fazer uma obra orçada em aproximadamente R$ 140 mil para poder renovar o laudo do Corpo de Bombeiros. Tem que comprar novos hidrantes, instalar bombas, melhorar a sinalização das saídas de emergência…
Para juntar essa grana, a diretoria pretende lançar em abril uma campanha de crowdfunding. Uma vaquinha online, se preferir.
– Todo valor arrecadado vai ser transferido direto para a empresa que vai fazer a obra, não vai passar nem pelo clube. Nesse momento estou recrutando alguns influenciadores e jornalistas esportivos para ajudarem na campanha – explica Thiago Vancellote, gerente comercial e de marketing da equipe.
Thiago é o cara por trás do projeto que vem renovando as esperanças do São Cristóvão, que em 2018 correu sérios riscos de encerrar a atividade do futebol profissional. Aos 36 anos, ele é formado em Marketing, passou um tempo trabalhando na área, mas encontrou no time da Zona Norte a oportunidade de ingressar no universo do futebol. Só que teve dificuldade logo de cara: como fazer contato com um clube que não tem nem internet nem telefone? Thiago precisou ligar para a empresa que fornecia o material esportivo para conseguir o número de um dirigente para, então, marcar uma reunião com o presidente.
O gerente de marketing foi o responsável por costurar as parcerias com a NB Telecom, que solucionou o problema dos fios, e com a Green Grass, que cuidou do gramado. Ambos os acordos se deram por permuta: as empresas realizaram os serviços em troca da exposição das marcas em uniforme, outdoors e redes sociais. O próprio Thiago é uma espécie de voluntário, pois não tem função assalariada no clube e recebe apenas comissões por contratos fechados.
Em resumo: o dinheiro ainda não entrou.
– A gente ainda não conseguiu esse investimento financeiro, um patrocinador que chegue forte. A gente segue lutando por isso – afirma o gerente de marketing.
Estar no quinto escalão do futebol do Rio de Janeiro só torna tudo isso mais difícil. Você deve estar se perguntando: existe Quinta Divisão do Carioca? Pois bem, trata-se na verdade de uma reformulação feita pela Federação do Rio, que enfiou a partir desta temporada uma Série A2 entre a Série A e a Série B1. O São Cristóvão deu um azar danado por estar no patamar mais baixo e agora terá um degrau a mais se quiser um dia retornar à elite.
– A Ferj ainda fez isso com a gente, né (risos) – brincou o agora presidente João Machado, antes de completar: – Mas aí ela deu a possibilidade de ter dois acessos num ano só também, então ficou meio justo.
O que ele quis dizer é que os clubes que conseguirem o acesso na Série C, que a princípio será disputada entre abril e julho deste ano, jogam a Série B2 em setembro. Como o São Cristóvão entende que esse é um momento de reorganização, no entanto, o clube ainda não sabe se vai poder montar um time. Existem conversas com a empresa norte-americana Finezza Sports, que também patrocina o Macaé, para que ela possa bancar os custos da equipe na competição. Mas, caso o negócio não seja fechado, o São Cristóvão deve pedir licença este ano para voltar a campo só em 2022.
Outras metas alcançadas pela atual gestão do São Cristóvão:
Redes sociais: o clube é bastante ativo no Twitter, no Instagram e no Facebook e também está presente no Linkedin, Twitch e Spotify.
Site: o saocristovaooficial.com.br está no ar com informações do clube e serviços aos torcedores.
Centro de Memória e História: o clube tem um funcionário responsável por recolher e organizar o material histórico, que em breve será exposto fisicamente num espaço na sede.
Reformas na Figueira de Melo: os vestiários foram melhorados e foi construído um espaço só para aquecimento de goleiros. Além disso, está sendo feito um local para aquecimento onde ficava um antigo estacionamento.
Reformas na sede náutica: obra essencial para a retomada do departamento de esportes aquáticos do clube, que planeja em breve ter uma escolinha de remo na Lagoa Rodrigo de Freitas.
Licenciamento do time de Futebol de 7: o São Cristóvão voltou a ser representado na modalidade.
Lei de incentivo: o clube tem um projeto pronto de atendimento a crianças carentes na Maré, onde fica sua sede náutica, e aguarda apenas a chegada de empresas para tirá-lo do papel.
O São Cristóvão, acredite se quiser, está presente até nos esportes eletrônicos. O clube disputa competições de Dota 2, Pro Evolutions Soccer e Free Fire.
– Falando como um investidor, se eu tenho uma empresa que tem uma verba de marketing que não é tão agressiva, eu separaria ela e colocaria num clube com o São Cristóvão. Porque você vai ter uma mídia muito mais barata e um impacto muito maior, coisa que você não consegue, por exemplo, num outdoor ou qualquer outra coisa – explica Philipe, consultor de e-sports do clube.
As informações são do GE.








